Do que a ciência se preocupa?

image_pdfimage_print
Acelerador LCH

Acelerador LHC

Ano passado, em setembro, aproximadamente, entrou em funcionamento o LHC, um gigantesco acelerador de partículas criado para colidir partículas elementares e estudar a possibilidade da existência de uma partícula chamada de Bóson de Higgs. O Bóson de Higgs é, atualmente, uma partícula prevista pelo nosso atual modelo de física de partículas.

Se esta teoria estiver afinadamente correta, será, assim, encontrada a existência do famoso Bóson.

Mas e se não existir o Bóson? Bem, neste caso a teoria deve ser revista e modificada.

Percebem o que isto tudo implica? Uma teoria foi formulada. Trechos desta teoria são afinadas com o tempo: ora se confirma, ora têm-se de adaptar a teoria. Este processo é feito pelas pesquisas científicas durante muito tempo.

Quando uma teoria parece não estar de acordo com algum parâmetro (e é este parâmetro que este artigo tentará especular) a mesma pode ser modificada, até encaixar no parâmetro, ou é descartada. Isto aconteceu com a teoria do Flogisto.

Em 1703, aproximadamente, a teoria do Flogisto foi proposta pelo Georg Ernst Stahl (ver Wikipédia) e consistia na idéia que substâncias inflamáveis possuia um elemento, chamado Flogisto, na qual a combustão era a liberação do mesmo e que o ar absorvia a substância.

Mais tarde, Lavoisier rejeitou a teoria com base na sua descoberta do oxigênio. O processo de combustão era agora considerado uma reação entre o oxigênio e outra substância inflamável.

Existem teorias que são adaptadas de acordo com o processo de verificação e outras são completamente refutadas, como o caso do Flogisto (ou ainda o caso do Éter).

Sabemos que a dinâmica da ciência envolve tanto o levantamento de teorias, verificação, ajuste, e ainda, refutação. Estes processos são dados com base em alguns parâmetros e provavelmente tais parâmetros são pontos em que a ciência se preocupa em esclarecer.

Que parâmetros são estes? Afinal, no que a ciência se preocupa?

A resposta a esta pergunta não é unânime. Alguns respondem que tais parâmetros podem ser epistemológicos, ou seja, a descoberta da verdade: as teorias descreveriam então, com verdade, objetos no mundo – portanto uma posição em que as teorias responderiam (ou tendem a responder) objetos e como os mesmos se relacionam no mundo. Esta é uma posição que assume o caráter epistemológico na ciência – seria descobrir o que são as coisas, e como são. Esta mesma posição assume um ponto ontológico: a teoria corresponde a um objeto (ou relação) realmente existente.

A esta concepção, damos o nome de realismo científico.

Em geral, o realismo científico encontra alguns problemas, a explicitar: por exemplo, como explicar o fato de certos elementos científicos nunca terem sido observados diretamente, como um átomo? Até mesmo uma célula necessita de um equipamento como intermédio, e este último foi construído por base em uma teoria. Isto representa uma dificuldade em estabelecer uma realidade daquele objeto estudado.

A outra posição que gostaria de mencionar, seria o não-realismo científico, no qual o parâmetro para o estudo científico não seria a verdade da teoria, mas sim diversos outros parâmetros (que poderiam incluir, desde teorias coerentes com outras teorias anteriores, teorias coerentes com observações, parâmetros pragmáticos e outros). Esta posição não enfatiza a verdade como um parâmetro que delimitaria a atividade científica.

É desconsertante pensar que a atividade científica poderia não se apoiar na busca pela verdade das coisas e suas relações, mas é plausível. Não sei qual a resposta. Creio que haja um misto na atividade científica.

Esta é uma discussão nada nova, e é lógico que eu não poderia resolvê-la aqui. Mas em todo caso, espero que trazer este texto possa esclarecer, ou iniciar uma discussão mais ampla e profunda no tema.

Óbvio que muitos cientístas, como agentes praticantes desta atividade nem se preocupariam com esta questão, visto que esta é uma questão além ciência (da ciência objeto que estamos conversando; não entro aqui na questão se a epistemologia é ou não ciência, ou um campo da filosofia).

Que um cientísta não se preocupe com a questão, é tolerável; mas se o mesmo pára para pensar, é extremamente aceitável – refletir sobre sua atuação no mundo.

Afinal, quando praticamos ciência, estamos preocupados com um parâmetro realista ou não realista?

Na história da ciência podemos encontrar exemplos para as duas posições. Será então um misto? Julgo que sim. E tenho tendencia a acreditar que o método está relacionado não somente com o escopo que a ciência terá, mas como ela o tratará.

Arnaldo Vasconcellos

Epistemologia, Filosofia, Teoria da Ciência, teoria do conhecimento , , , , ,

  1. Ainda sem nenhum comentário.
  1. Ainda sem nenhum trackback.