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Do que a ciência se preocupa? (Parte #2)

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Para iniciar este artigo, começarei perguntando: “o que seria um fenômeno?”. Você enquadraria o quê como fenômeno? A maioria de nós respode esta pergunta de uma maneira rápida, imaginando os fenômenos da natureza.

Quasar, um fenômeno astronômico

Quasar, um fenômeno astronômico

Pois bem, o que são fenômenos da natureza? Alguns dariam exemplos, como o furacão, o vento, a chuva etc. Estes exemplos meteorológicos são muito bons (gosto muito de meteorologia, e pretendo escrever aqui sobre esta ciência, algum dia); mas de certa forma, eu não perguntei por exemplos e sim pela definição.

Apesar disto, os exemplos são bons para tirarmos a definição que buscamos. O que há de comum com a chuva, o furacão e o vento? Eles acontecem.

Segundo Niels Bohr “Nenhum fenômeno é fenômeno até ser observado” (esta citação pode ser encontrada na Wikipédia neste link).

De certa forma, os fenômenos são espécies de fatos, são coisas que acontecem e que podemos observar. Na verdade a palavra fenômeno vem do grego Phainomenon que significa, literalmente, “aquilo que aparece”. Aparecer, portanto, é um pressuposto de um fenômeno.

Imagine o que vemos como um copo. Sua imagem nos aparece. Vemos tal copo, digamos assim, por causa da luz que ele nos reflete. Poderíamos ter contato com o copo, visualmente falando, sem nenhuma luz ou outra energia que ele reflita? Esta imagem é a forma com que ele aparece. O copo é o objeto-em-si.

Com esta definição dada acima, que é um tanto grosseira, podemos inserir a idéia de fenômeno e noumenon. Este último foi trazido por Kant, um importante filósofo iluminista que escreveu o livro “Crítica da Razão Pura”, no qual ele estabelece “como podemos conhecer as coisas” e “como nos é dado conhecer “.

Immanuel Kant - Filósofo Alemão.

Não irei me alongar muito nisto, mas basicamente o fenômeno é a aparição de algo, da coisa. O noumenon é a coisa-em-si, ou seja aquilo que gerou o fenômeno da qual observamos. Temos contato com o fenômeno, que é aquilo que está em nosso trato comum. Afinal temos contato com o noumenon? Esta é uma pergunta sem resposta definitiva dentro da filosofia.

Agora, trazendo a discussão a nível da ciência, quando formulamos uma teoria científica ela pode descrever fenômenos. Será que ela descreve algo presente no mundo? Ela estabelece uma conexão entre o que é descrito e um objeto com “existência” no mundo (coloco esta palavra entre aspas, pois ela é muito escorregadia e pode ter definições amplas e outras mais precisas, dependendo do ramo da filosofia que tratamos)?

O realismo científico considera que sim. Ao propormos teorias, dentro do realismo, estamos falando de coisas que estão no mundo, além dos fenômenos que nos são dados. Assim quando falamos em uma célula, em um bacilo estamos falando não somente de algo que nos apareceu, mas algo que possui sua existência fundamentada (fundamentada, ou seja, considerada).

O não-realismo coloca que tais jargões científicos são modelos. Em outras palavras, são abstrações que, de alguma forma, têm ligação com a observação. A observação seria aquilo que temos contato, e os modelos desenvolvidos para explicar seriam criados para descrição, e até mesmo, previsão de fenômenos.

Ainda assim podemos citar uma atitude anti-realista que colocaria tais teorias e modelos como apenas sistemas coerentes com as observações e a tentativa de descobrir “a coisa-em-si”, não seria tarefa da ciência, pois, nesta abordagem, ela apenas se interessa nos fenômenos e não garante existência definitiva dos jargões que são propostos num modelo. Então, a teoria deveria estar coerente com a observação e descobrir se há algo por trás deste fenômeno (como um noumenon) estaria fora do escopo da mesma. O cientísta anti-realista não julga se há a existência efetiva de um jargão proposto em sua teoria, mas julga se esta está de acordo com a observação.

Notem a sutileza do que é dito: isto é muito interessante para a atividade científica. Tais posições são efetivas para se criar um método de ciência e, portanto, são preponderantes para parametrizar aquilo do que a ciência se preocupa.

Como defendi no artigo anterior, julgo que estas visões não são unânimes, ou homogêneas: creio que existem posições de todo o tipo dentro daqueles que praticam a ciência.

Isto acaba por me levar a uma outra reflexão: existe unidade na ciência? Se não houver unidade na mesma, podemos considerar que ela se preocupa com pontos múltiplos? (Notem que me refiro ao escopo final da ciência; como obter a verdade ou a predição e não escopos pontuais: como obter resultado de mapeamento genético – embora refletir exemplos nos ajude a lançar luz).

Este assunto merece dedicação em diversos outros artigos e postarei-os aqui conforme for organizando as minhas idéias. A priori creio que possam sim existir pontos múltiplos de parametrização científica, mas quero descobrir se há algum ponto em comum.

Arnaldo Vasconcellos

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  1. xcosm
    26, Fevereiro, 2010 a 09:24 | #1

    fenomeno é algo anormal, incomum em que ainda sem explicação, eventualmente armonicamente existe, ligação entre o céu e a terra, e elemetos fisicamente e espiritualmente interligados e definição de estudos que ainda não podem ser identificados cientificamente humano.

    • 28, Fevereiro, 2010 a 00:04 | #2

      Olá xcosm,

      Obrigado por seus comentários. Entretanto creio que seria interessante explicitá-los mais, pois ainda soa um tanto obscuro.
      Defina o que diz com anormalidade de um fenômeno e outras afirmações que fez.

      Arnaldo.

  2. Lucas
    26, Março, 2010 a 14:28 | #3

    Efetivamente, qualquer dos dois posicionamentos filosóficos aqui postos dão na mesma. Dar significação à observação, ou modelar, está numa chave de dar uma verdade, objetiva-se a coisa também. A radicalização consistiria em não levar em conta a pergunta do objeto, nem a observação, pois todos são inventados, criados de modo a dar conta de um problema.

  1. 31, Agosto, 2010 a 17:49 | #1