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Do que a ciência se preocupa? (PARTE #3)

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Ao longo das séries de artigos postados aqui, tenho desenvolvido a descrição da posição científica, tanto realista, quanto a não-realista e ainda a anti-realista.

Expomos a relação do método como uma forma de parametrizar o escopo geral da ciência (ou das ciênicias, a multiplicidade das ciências será motivo de outro artigo).

Um método parametriza uma pesquisa. Assim como uma régua.

Um método parametriza uma pesquisa. Assim como uma régua.

Então, nos pergutamos, o que é o método? E como pode ele estabelecer o escopo do que, digamos, a ciência (ou ciências) se preocupa?

Vamos, novamente, verificar a etimologia para enfim prosseguirmos em nosso artigo. Lógico que várias palavras podem mudar de significado, em relação com o significado original (e está é uma mudança que parece ocorrer com frequência), mas veremos que a etimologia da palavra método pode nos lançar luz nesta empreitada.

No Wikicionário, encontramos as seguintes definições:

mé.to.do masculino

  1. modo ordenado de fazer as coisas, ordem:
    Organizou com método o ficheiro da empresa.
  2. conjunto de procedimentos técnicos e científicos:
    Escreveu um relatório sobre o método de organizar ficheiros.
  3. obra que regista os princípios de uma técnica, ciência ou arte;
  4. sistema educativo:
    João de Deus instituiu um novo método com o lançamento da “Cartilha Maternal.
  5. ponderação, prudência:
A polícia analisou as provas com método.

A definição atual número 1, nos aponta que método é uma forma de fazer algo. É justamente isto que etimologia da palavra nos aponta: método é do grego methodos, que significa “caminho a seguir”.

Um método científico é, portanto, um conjunto de regras, de modos ordenados, que nos permitem a praticar uma pesquisa, parametrizada, na qual o resultado deverá estar dentro do escopo destes tais modos ordenados.

Entretanto, sabemos que a forma que um método se organiza deve ter baseada em si uma forma de ciência a seguir. Assim o objetivo de ciência é parametrizada por uma imagem de ciência (conceito retirado do professor Paulo Abrantes) que está contida no método.

Um método está portanto organizado para uma imagem de ciência. E este método parametriza o caminho e fim da pesquisa científica.

Uma imagem “I” de ciência portanto pressupõe um determinado método. Uma pesquisa “P” irá ser implantada e desenvolvida de acordo de um método que possa conduzir a um objetivo final e determinado da ciência; que no fim é um representante legítimo de uma imagem de ciência.

Podemos nos perguntar como surgiriam os métodos e qual seria a multiplicidade dos mesmos, entretanto esta pergunta talvez demandaria uma exaustiva dissecação da história da ciência, o que não desenvolverei neste artigo.

Durante a disciplina do Professor Paulo Abrantes, na Universidade de Brasília, acompanhamos diversos métodos que estão relacionados com essa posição que chamamos de imagem de ciência. São muito. Pretendo não listar neste artigo, mas talvez abrirei oportunidades para próximos.

Nota-se que esta imagem de ciência, que fundamenta um método, que por sua vez parametriza a atividade científica em questão, está também atrelada a imagens de natureza que se possuem.

Uma ciência e suas pesquisas são produzidas de acordo com um método que parametriza a pesquisa e que está fundada numa imagem de ciência que se deve seguir. E esta imagem está baseada numa imagem de natureza existente.

Vale lembrar que estes conceitos (imagem de natureza, imagem de ciência etc) não são meus; tive contato com o referido professor. Para ver mais acesse: http://www.unb.br/ih/fil/pcabrantes/artigos/Sofia4.PDF (As citações abaixo compreendem este texto).

As imagens de natureza são formas de “ver” o mundo. São nas palavras do professor Abrantes:

“São ontologias assistemáticas e tácitas que condicionam a atividade científica e outras práticas sociais, incluindo a educacional. (…) Exemplos de pares de imagens de natureza, que se opõem em grande medida, incluem:

i) mecanicismo / materialismo;
ii) deísmo / teísmo;
iii) naturalismo / sobrenaturalismo;
iv) ação à distância / ação contígua;
v) atomismo / plenismo (natureza como continuum).” (pp. 1-2).

Vejam que uma imagem de natureza compreende a forma com que vemos o mundo. É a forma com que nos comprometemos a relacionar o mundo e suas coisas. Uma imagem de ciência depende muito desta primeira.

Nas palavras de nosso professor, encontramos:

“Imagens de ciência são, de modo análogo, epistemologias assistemáticas e tácitas que orientam a atividade científica e outras práticas sociais, incluindo a educação científica. Imagens de ciência podem incluir concepções a respeito dos métodos adequados para a construção do conhecimento científico e/ou para a validação dos produtos da atividade científica (e.g. teorias). Tais métodos estão, usualmente, comprometidos com certos valores cognitivos e não-cognitivos, que também compõem tais imagens.” (p. 2).

Uma imagem de ciência compromete-se, digo portanto, com uma forma de encararmos, epistemológica e ontologicamente o mundo. A imagem de ciência abarca métodos que sejam-lhe filiais.

Do que (ou no que) a ciência se preocupa? Ela se preocupa com aquilo que está exposto no escopo de sua imagem de ciência, cuja atividade para atingí-la está parametrizada em seu método.

E isto é uma coisa ruim? Não necessariamente (pretendo criar artigos para desenvolvermos as implicações éticas nesta possibilidade de ciências).

Outra coisa que podemos refletir com base nisto é a multiplicidade de ciências: há uma ciência coesa ou várias interrelacionadas, ou ainda inúmeras separadas? (Pretendo, também, desenvolver esta questão em outros artigos).

Uma teoria como resultado de uma determinada ciência, como pode-se manter? E como se procede? – Também é tema de outro artigo que postarei aqui. E ainda: uma teoria de uma determinada imagem de ciência pode-se manter em outra imagem de ciência diferente? (poderá ela ser desalinhada do que é considerada como “ciência”? – este é outro tema que abordarei neste meio).

Refletiremos, portanto, sobre mais aspectos que a ciência possui e que estão relacionados com tais questões ontico-espistemológicas, além de suas implicações éticas.

Arnaldo Vasconcellos

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