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Do que a ciência se preocupa? (Parte #4)

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A ciência se preocupa com a sua multiplicidade?

É bastante comum, e não é nada nova, a diversidade de piadas de “troque a lâmpada” com cientístas e outras profissões. Irei começar o artigo de agora com algumas piadas encontradas no site Humor na Ciência, que por sua vez retirou do site Observatório Nacional:

Quantos físicos são necessários para trocar uma lâmpada?

Quantos astrônomos são necessários para trocar uma lâmpada?
Nenhum. Astrônomos se recusam a trocar lâmpadas. Os astrônomos preferem lugares escuros.

Quantos radio-astrônomos são necessários para trocar uma lâmpada?
Nenhum. Eles não tem qualquer interesse nestas coisas que emitem energia com pequeno comprimento de onda.

Quantos físicos especialistas na teoria da relatividade geral são necessários para trocar uma lâmpada?
Dois. Um segura a lâmpada enquanto o outro gira o Universo.

Quantos físicos especialistas em mecânica quântica são necessários para trocar uma lâmpada?
Eles não conseguem fazer isto. Se eles sabem onde está a base da lâmpada eles não podem localizar a lâmpada nova.

Quantos físicos quânticos são necessários para trocar uma lâmpada?
Nenhum, logo que eles observam que ela está apagada ela muda de estado..

Quantos físicos quânticos são necessários para trocar uma lâmpada?
Se voce sabe o número você não sabe onde a lâmpada está.

Quantos físicos de partículas são necessários para trocar uma lâmpada?
Duzentos: 136 deles para esmagar a lâmpada e 64 para analisar os pequeníssimos pedaços e chegar a alguma conclusão.

Quantos físicos teoricos são necessários pra se trocar uma lâmpada?
Não importa quantos, eles vão ficar horas tentando provar matematicamente que o seu jeito de trocar a lâmpada é melhor que o do outro, e enquanto isso, um experimental trocou a lâmpada e eles nem perceberam.

Fonte: http://www.on.br/site_brincando/piadas/piadas_8.html

A graça contida nestas piadas estão justamente na forma diferenciada com que estes diferentes campos científicos exigem que seus cientístas trabalhem. Ora, um físico de partícula tem interesse bem pontual e específico e difere, em gênero, do interesse geral de um astrônomo, por exemplo. Lógico que interesses comuns e pesquisas científicas em comum podem surgir (e isto é perfeitamente natural, que interesses se perpassem). Entretanto, o que podemos notar, em geral, é uma certa diferença em postura, objetivos específicos e outros pequenos (e importantes) pontos.

Que os cientistas sabem (nem que seja de forma intuitiva) sobre tais diferenças não é novidade. Tanto que muitos valem de sorrirem com tais piadas, pois elas caricaturizam certas atitudes tomadas por profissionais de áreas espécíficas.

Como sabemos, áreas específicas possuem, muitas vezes, métodos específicos que parametrizam de forma pontual suas pesquisas. Por isso a atitude dos mesmos são tomadas por caricaturas: tais caricaturas estão satirizando as atitudes dos profissionais, mas no fundo, também, está trazendo a tona o quanto que estes ficam embrenhados em seus métodos – o quanto cada método é importante para parametrizar a pesquisa.

Por isso da graça: se os métodos dos mesmos fossem aplicados para trocar uma lâmpada, essa é a reação esperada para uma caricatura, ou seja, uma cena fora do senso do plausível no cotidiano.

Mas estes métodos são tão diferentes, na caricatura acima, por que as imagens de ciência e de natureza têm certa nuances: um físico de partículas não vê a natureza e a ciência da mesma forma que um relativista, e por este motivo empregam métodos diferentes que estejam de acordo com estas imagens.

Uma das conclusões que ao longo destes artigos pude alcançar é: a(s) ciência(s) se preocupa(m) com o mundo e a forma com que ele se apresenta (ver fenômeno). Entretanto a forma com que cada ciência concebe o mundo está baseada numa imagem de natureza, em um conjunto de especificações ontico-espistêmicas.

Por este motivo cada cientísta na piada age de forma diferente: eles possuem imagens de natureza diferentes (seja sutil ou em alguns casos grandemente) que resultam em imagens de ciências diferentes com métodos específicos. Por isso a atitude de cada um é tão pontual numa caricatura.

O desfecho de uma pesquisa parece não ser diferente da piada; cada um em seu campo e ambiente de trabalho possui uma forma distinta de trabalho.

Mas os resultados, às vezes, parecem convergir (nem sempre, como é o caso de teorias como a física quântica e a relativista) e outras espécies de cientístas podem agir – os teóricos. É interessante ver que cada ciência tem sua preocupação com o mundo, com o fenômeno, de acordo com suas concepções ôntica-epistemológicas; mas parece há uma preocupação geral delas com o mundo.

Se alguns cientístas são realistas (portanto acham que pesquisam a verdade do mundo) ou outros não-realistas (e creêm que estão “salvando os fenômenos” e por sua vez gerando apenas previsões de outros fenômenos) isto deve-se aos pressupostos ônticos-epistemológicos que cada ciência e cada cientísta possuem.

Seja fazendo pesquisa em busca de uma verdade no mundo, ou apenas prevendo fenômenos, são todas elas pesquisas a respeito do mundo. E são sim, legítimas (ser anti-realista, não-realista etc, não tira a legitimidade da pesquisa).

O que legitimaria tais pesquisas? O próprio conjunto ôntico-epistemológico de cada ciência (e cientístas), que fazem pesquisas legitimadas por tais concepções.

Argumento isso, pois já tive contato com argumentos contra tais visões de pesquisa, embasadas na falta de legitimidade delas pois não estariam sempre de acordo com uma “verdade” única, imutável e redonda. Lógico que tal argumento, que não quero mais expor aqui, é falacioso – afinal acabei de legitimar a pesquisa em suas nuances epistemológicas.

Agora, será que toda pesquisa é legitimada eticamente falando? Creio que não. Mas este é um tema para outro possível artigo. (Fique claro, não estou garantindo legitimidade ética nos parágrafos acima. Estou garantindo legitimidade epistêmica).

É possível que a ciência se preocupe com sua multiplicidade? Sim é possível, mas não parece ser um tema central aos seus objetivos de pesquisa (claro que a tentativa de unificação de teorias é importante, mas o fio condutor de cada ciência não está nesta questão – ela seria marginal, embora importante). Unificar teorias pode ser plausível dentro do escopo científico, mas refletir sobre o estado das ciências e se há unidade (e se ainda merece unificação) é algo diferente: é meta-científico, é filosófico. (Notem que unificar teorias é diferente de unificar ciência – teorias são produtos científicos, portanto classes distintas).

Enfim, a ciência se preocupa com o mundo. Do modo que este está apresentado, e do modo como o podemos perceber. Mesmo que em multiplicidade.

Arnaldo Vasconcellos

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