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Suspensão do Juízo: ética, lógica ou metodologia? (Parte 2)

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Atitude cética e a suspensão de juízos: a razoabilidade é o limite (?)

O que é a suspensão do juízo, além de uma heurística do conhecimento ou de uma metodologia? É uma atitude do cético, sobretudo.

Entretanto a tarefa do cético, ou do utilizador da heurística que proponho pode esbarrar em problemas muito comuns (e que já fui acusado nos comentários de outras postagens): a razoabilidade do questionamento cético, bem como sua equação entre a atitude cética e a questionabilidade de nossos juízos (leia-se a suspensão dos juízos).

Como já abordamos em comentários e contra-comentários em outros artigos, algumas pessoas pensam que esta atitude pode nos levar a uma espiral de questões que beira a irracionalidade.

Então, de certa forma o ponto norteador para a questão é a razoabilidade da questão. Entrementes, no papel de questionador, podemos ainda nos perguntar que critério é este de razoabilidade.

Assim, inspirado no tema, tanto por causa das discussões contidas nestes comentários, quanto em conversas com outras pessoas em lugares distintos, resolvi fazer algumas perguntas a mim mesmo.

O que tomamos como princípio de razoabilidade? Quando julgamos o normal, o absurdo e o coerente, o que tomamos como base?

Pensei que, talvez, de alguma forma, a busca por elementos inquestionáveis, cuja a atenção meritória se faz necessária, seja a segurança que devemos sentir em relação à resposta da simples pergunta: o que sabemos?

Um problema maior, talvez seja justamente a questão que está por detrás disto, e que é conveniente apenas nos nossos momentos de inquietude (principalmente nas de cunho epistemológico): o que julgamos realmente conhecer?

O conhecimento exige, de certa feita, um rigor, uma edificação; cujo saber, seja hierárquico ou cooperativo (ou ainda complementar), assume um papel de extrema coerência e resistividade têxtil entre o que julgamos saber e o que sabemos de fato – o que julgamos saber é assumido inequivocamente como algo que sabemos de fato, pelos motivos da coerência desta edificação.

É óbvio que tomamos alguns critérios como sinônimo para razoabilidade do conhecimento, pois este, ao mesmo tempo que sua construção exige questões, também exige o aceitar, o que é axiomático, sem possibilidade de dúvida. E de certa forma este processo é um calar. Calar diante da iminente possibilidade da irracionalidade que não produza conhecimento ou ainda que nos distancie ainda mais do que possa ser conhecido.

A razoabilidade exige que saibamos nos calar em certos momentos, para não sermos frutos do irracional, do que não se puder falar. Lembro-me vagamente de Wittgenstein com isso.

O cético, aquele cujo espírito não se aquieta e, mesmo que de forma mais metódica defina sua posição e seu pensar, pode ser tachado de louco, de sem razão (de não razoável), pois um dos critérios que tomamos tacitamente por razoabilidade é a não-loucura: o louco é tomado como a pessoa na qual suas faculdades mentais não exprimem correlatos com a realidade mais imediata.

Assim, é um lugar comum, e até fácil, julgar que o cético, e sua suspensão de juízo, são instrumentos da loucura, ou que beiram à mesma, e que, portanto, do que não é razoável – dirigindo assim argumentos que podem ser ad hominem.

Lógico que quanto mais questionamos, questões sobre questões, um turbilhão de dúvidas não organizadas podem paralisar até o andamento do próprio questionamento daquilo que conhecemos (ou supomos saber), mas supor que existe uma ponte no qual a dúvida cética deva ser o instrumental da loucura (talvez por seu flerte com a dúvida mais basilar do que é conhecer) é uma ponte demasiadamente superficial. Mas apesar de superficial, é isso que encaramos ao tomarmos atitudes céticas perante o nosso espírito investigativo – é assim que somos tratados quando o espanto da dúvida age, nos fazendo questionar as bases do dogmatismo.

O cético não é necessariamente aquele que emprega inutilmente a dúvida, mas aquele que impelido por uma inquietude, duvida e aplica o duvidar: a dúvida é uma dádiva, é um bem precioso que, se realmente sincera e usada de forma metódica, nos permite partilhar o lado que imputamos severamente ao louco (lado que imputamos para que não venhamos a pisar neste terreno), acreditando termos conhecimentos sempre sólidos; lado este que talvez nos seja, em última instância, útil: o não apego com que nos é dado de forma imediata ou primária – a realidade que vivemos pode não ser como a vivemos.

Entretanto o louco, supostamente, não a vive por não aceitá-la como desígnio verdadeiro, mas por uma suposta falta das faculdades cognitivas.

O cético, por sua vez, não aceita que ligações fáceis possam ser perenes – talvez sejam efêmeras e a realidade tenha em si conexões mais sutis e interessantes; isso se formos capazes de percebê-las.

Uma coisa é fato, ou parece ser: temos apenas fenômenos em nosso alcance, e por este motivo as conexões, sejam sutis ou mais evidentes, devem estar no escopo que compõe a ligação fenomênica entre o que é e nós mesmos – os observadores.

Assim, a dúvida não me parece má:  tanto o uso da dúvida dentro dos limites que nós temos como razoável (mesmo que cada vez mais rompida esta noção de razoabilidade esteja) ao nível de fenômeno, como é importante também mantermos a dúvida ativa em algum grau transposta desse limite, seja como método, como metacrítica, como metafilosofia, quanto como atitude perante o que conhecemos e o que julgamos conhecer. Devemos afastar o medo que nos imputa que questionar é ser louco, pois este é um engano: engano tal encucada pelas convicções que tentam nos empurrar abaixo essa equação – pois deste ato depende a manutenção destas mesmas convicções; como as religiosas em última instância.

Portanto a proposta cética, e isso diz respeito ao ato da suspensão de juízos, não me parece absurda ou incoerente, mas sim, principalmente, uma atitude ética, assim como também um método heurístico, no que se refere ao ato de (talvez tentar) conhecer.

Arnaldo Vasconcellos

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