A pseudociência e seu interesse na mídia – ET Bilu (Série pseudociências – Parte 9#)

A pseudociência e seu interesse na mídia

Recentemente o trecho de uma reportagem feita pelo “Domingo Espetacular” da Record, foi colocada no “Top5” do programa humorístoco “CQC”. O motivo? Bem a reportagem, segundo a gozação do CQC, mostrava “em primeira mão” a suposta aparição de um extra-terrestre que só aparece na cidade de Corguinhos – MS, apenas a noite e que fala com uma voz fanha (que remete a um misto de voz do nhonho gripado). A aparição é extremamente cômica e possivelmente justifica a aparição no Top5 do CQC (embora eu não tenha visto a reportagem original da Record).

E o que este “ET” pede? Pede conhecimento de nós, humanos. É evidente que o que esta farsa pede como conhecimento não é o conhecimento mesmo: ele quer um suposto conhecimento ufológico. Quer quer acreditemos em sua aparição tosca e hilária.

É claro que a aparição é uma farsa, muita gente viu isso e se divertiu com o quanto a televisão brasileira faz até chegar a este ponto. Mas essa é uma piada perigosa – lida com a ânsia da pseudociência querer aparecer de qualquer forma na mídia.

Quando o riso passa e pesquisamos um pouco sobre estas supostas séries de “aparições” do ET bilu (nome de cachorro para um ET que aparece apenas de noite, atrás da moita, com voz fanha e que fala um português como se fosse a língua mais falada no universo) vemos que existe um projeto por trás das aparições do suposto ET. É o projeto Portal, situado em Corguinho no Mato Grosso do Sul.

O projeto Portal prega as seguintes coisas, como foi retirado do site http://www.projetoportal.org.br:

PROJETO PORTAL –  Somos um grupo de pesquisadores e cientistas que formou uma associação desenhada para atuar na pesquisa de diversas áreas do conhecimento, principalmente em ciências paralelas nos campos das ciências exatas e naturais, como Astronomia, Matemática, Física Quântica, Química, Geografia, Biologia e também no que se refere ás ciências sociais como Psicologia, Antropologia, Arqueologia, História e Sociologia. Baseamos nossas pesquisas em uma nova metodologia de análise e estudo criada pela nossa equipe de cientistas, que busca catalogar e levantar informações ainda inexistentes na imensa bibliografia através do estudo de civilizações antigas, arqueologia, astronomia, ufologia, astrofísica, física quântica, entre outras ciências ainda não catalogadas.

(FONTE: Site supracitado. Grifos meus)

Reparem que o projeto deixa claro que trabalham com “ciências paralelas”. Será que posso entender isso como, “aquelas que não seguem o método científico”? Suponho que sim. Serão ciência apenas para aqueles que a nomeiam como ciência. Em seguida o site afirma que criaram uma “nova metodologia de análise”: novamente, não é o método científico, provavelmente um método pseudocientifico.

Vejamos mais descrições no site do projeto portal:

Com os  nossos métodos  próprios de pesquisa, andamos em paralelo com todas os outros ramos do conhecimento humano. Estudamos tudo sob uma nova visão da realidade,  buscando preencher as lacunas existentes  até agora não respondidas pela ciência. As pesquisas envolvem o estudo científico dos fatos, suas evidências, com as provas concretas dos mesmos. A autenticidade e credibilidade deste trabalho repercutem em todo o Brasil e em vários países do exterior.

(Grifos meus)

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Uma outra coisa que saltou em minha na mente é o nome (e creio que muitos já devem ter pensado a mesma coisa): Projeto Portal. Será uma referência à seita “Haven’s Gate”? Deve ser uma conexão mental que muitos devem ter feito ao ouvirem pela primeira vez sobre o projeto (portal… gate…).

Marshall Applewhite

Marshall Applewhite

Para quem não lembra, a Haven’s Gate foi uma seita comandada por Marshall Applewhite, que organizou um suicídio coletivo em 1997, durante a passagem do cometa Hale-Bopp (a seita acreditava que a Terra estava passando por transformações e teria sido dominada por uma raça de pessoas inferiores. Os adeptos da seita acreditavam que Jesus estava a bordo numa nave trazida pelo cometa).

Não sei se a referência é apenas no nome. Entretanto o projeto Portal parece estar interessanda em supostos fenômenos paranormais e ufológicos alegados por seu fundador.

Urandir de Oliveira - Fundador do Projeto Portal

Urandir de Oliveira - Fundador do Projeto Portal

O fundador, inclusive, é uma pessoa que esteve presente em programas de auditórios na década de 1990, como o “Brasil Verdade” (que por irônia foi da Rede Bandeirantes, a mesma que hoje faz chacota com o Et bilu no CQC). O fundador Urandir Fernandes de Oliveira é um suposto paranormal, já desgastado pela mídia, e é tomado como um farsante até mesmo por alguns ufólogos. Ele possui um repertório repleto de sinais estranhos que alega ser alfabeto alienígena, crenças de ets que estão entre nós (mas que nunca dão as caras)  e muita, muita farsa (o velho truque, por exemplo, da colher que entorta; o que não passa de uma técnica de ilusionismo).

Urandir já foi preso por estelionato, como consta neste link, que tirei deste outro blog.

Pessoalmente acredito que as pessoas por trás da forjada e hilária aparição de bilu, estão querendo desesperadamente obter espaço na mídia e ganhar adeptos para algum fim específico. E um meio que, infelizmente ainda funciona, é passar-se por ciência.

Uma das coisas que me incomoda com o “caso Et bilu” é como a televisão utiliza ao máximo o item para fazer audiência, e em contrapartida como é evidente o quanto que a pseudociência se utiliza da mídia para atingir-nos: sim nós somos o alvo dessa bandalheira toda – somos nós que o o et fajuto quer pedir para alcancar o conhecimento (leia-se conhecimento “paralelo” na definição do projeto portal). Pois o conhecimento que o “bilu” quer não é o conhecimento que a ciência e a filosofia desenvolvem – é do obscurantismo em prol de nos deixar presos em armadilhas pseudocientíficas para que, venhamos a cair numa história boba, cheia de doxas e sem fundamentos racionais.

O conhecimento que bilu pede em sua hilária apresentação (“busquem conhecimento”) é simplesmente da pseudociência: da crença que quer se passar por ciência, por uma visão deturpada que temos hoje da ciência como uma e única panacéia universal, para que no fim sirva a algum interesse bem particular. Que interesse será esse? Interesse que no final das contas não é o real conhecimento, mas do obscuro para que possamos ser escravizados mentalmente. Interesse esse em utilizar de nossa fraqueza crédula, de nossa capacidade de desvirtuar o que é o conhecimento: capacidade tal de fazermos o nosso precioso espanto pelo conhecer ceder lugar ao que é o medo causado pelo mistério e místico.

Arnaldo Vasconcellos