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Do que a ciência se preocupa? (Parte #5)

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Pode o produto da ciência – uma teoria científica – deixar de ser científica e de ser “interessante” à ciência?

Primeiramente vamos estabelecer alguns pontos fundamentais. Convenhamos que a Ciência (ou as ciências) é (são) um campo do conhecimento humano com dadas características e métodos. Este ramo do conhecimento tem como um de seus principais produtos a teoria científica. Ora, a teoria científica deve estar, desta feita, de acordo com uma ciência – com escopo de pesquisa definida (que é uma das preocupações pontuais da ciência), parametrizada (e produzida) dentro de uma série de métodos referentes à imagem de ciência e natureza da ciência em questão (verificamos que ela deve estar de acordo com todos estes pontos que parecem se relacionar e seu pivô é o escopo da ciência, de acordo com a imagem da mesma).

Veremos em próximos artigos, que não estaríamos errados em assumir dois tipos de escopo científico – um global e outro restrito. Neste artigo irei me deter no escopo restrito.

Aceitando o supracitado, podemos imaginar agora se uma teoria científica pode deixar de ser científica? Esta é uma primeira pergunta.

Uma segunda pergunta que se segue logo desta, e que é tão interessante quanto, é: o interesse (a preocupação pontual) da ciência pode mudar a ponto de um determinado escopo (preocupação) não ser mais tomado como científico?

Vimos ao longo desta série de artigos que existem problemas científicos, que estão no escopo da ciência, e problemas meta-científicos (como se perguntar com o quê a ciência se preocupa). Mas ao analisar o que, de ciêntífico, pode deixar de ser científico, podemos é claro, fazer as perguntas inversas – como por exemplo “pode algo meta científico se tornar científico?”.

Entretanto, novamente, venho delimitar o foco deste artigo: iremos falar apenas da possibilidade do que não é científico deixar de sê-lo.

Para responder a tais perguntas podemos analisar alguns aspectos históricos da ciência:

A Teoria do Éter

A teoria do éter foi uma teoria que explicava a luz como uma onda em um méio material existente no universo e que seria pouquíssimo denso (na verdade sua densidade seria nula estabelecida teoricamente). Muitas explicações a respeito dos efeitos luminosos cabiam dentro da teoria e a realidade do éter foi considerada por muito tempo. Um dos físicos que mais contribuíram com a teoria foi o físico holandês Hendrik Lorentz.

Entretanto uma experiência foi efetuada por Michelson Moreley demostrava que a luz no éter não sofria influência de velocidade em relação ao observador. Ora, no som, que é uma onda em meio material, encontramos o efeito doppler, no qual se o observador se aproxima muito rapidamente do foco de som a perceção do observador é de uma onda com freqüência mais maior e o contrário resultaria numa freqüência menor. A experiência de Moreley deveria medir alterações na velocidade da luz, em relação à rotação da Terra.

Ora a medição concluiu que não havia alteração na velocidade da luz, mesmo com a rotação da Terra. O éter deveria então ser arrastado com a rotação da Terra. As experiências demonstraram que a velocidade da luz era constante e foram incluídas alterações ad hoc na teoria para sustentá-la.

Com o advendo da teoria da Relatividade os físicos tenderam a desconsiderar a realidade do éter. Hoje a teoria do éter está na história da ciência, mas não é mais posta como uma teoria cientificamente válida. Tanto realistas (que não consideram mais o éter como existente) como não-realistas (que não consideram a teoria do éter eficaz para algum motivo, como a predição) não aceitam mais a referida teoria.

Outra teoria que seria interessante citar é a teoria do flogisto. Neste mesmo site já falei da teoria do flogisto que fora substituída pela teoria da existência do oxigênio (e a existência e eficácia da teoria do flogisto foram colocadas em dúvida).

Como podemos notar a mudança da preocupação restrita, alteraram a forma de encarar a realidade e estas teorias deixaram de estar num escopo científico. Historicamente estas sempre serão teorias científicas refutadas, mas no âmbito de uma ciência atual ela não mais se enquadra em certos aspectos.

Se durente a época do éter eu questionasse se haveria a possibilidade de um cometa inundar o éter com um veneno e nos matarmos, seria uma possível pergunta para uma pesquisa científica. (Esta idéia está presente num incrível livro de Conan Doyle, uma ficção em que o cometa Haley banha nosso planeta com um veneno que tora o ar irrespirável, atravéz do éter). Hoje, entretanto não está no escopo específico de ciência, pois o éter foi refutado.

O mesmo aconteceria com postulados a respeito do flogisto. Ao mudar o que Thomas Kuhn chamaria de “paradigma”, ou seja uma forma do mundo ser enxergado e de se ter ciência com isso, alguns problemas deixariam de serem científicos ou de terem interesse pontual na ciência.

Claro que isto tudo é muito volátil, mas o que quero expor é que: idéias correntemente científicas podem deixar de ser científicas, embora ainda historicamente o sejam. O interesse também fica prejudicado, pois no paradigma estaria orientada a imagem de ciência e a imagem de natureza, que tratam dos aspectos ontico-epistemológicos dos interesses científicos.

Desta forma parece que os escopos restritos podem, sim, aos poucos mudar o escopo geral (paradigma) e alterar a necessidade do que é científico. Uma mudança paradigmática, ou seja no escopo geral, muda também uma série de escopos menores.

Livro de Thomas Kuhn

Livro de Thomas Kuhn

Thomas Kuhn em seu livro “A estrutura das revoluções científicas” estabelece que a ciência não progride de forma linear e sim são punhados de mudanças paradigmáticas que por vezes não dá nem para comparar como uma “sucessão”. Cada paradigma, para ele, carrega uma série de enfoques no mundo.

Poderá, embora em diversos paradigmas, algo ficar preservado? Creio que sim e explicitei nos primeiros artigos desta série: acredito que o mundo sempre seja o comum. Mas necessito tempo para refletir melhor sobre isto e este tema será alvo de outras e futuras postagens de artigos.

Arnaldo Vasconcellos.

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  1. KonstantinMiller
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