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Num tempo qualquer

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Certa vez olhei (estava sonhando muito provavelmente) ao meu pulso. Eu tinha um lindo relógio e seus ponteiros giravam num compasso diferente do que eu queria, ou pensava que deveria.
Se precisão era o requerido para ser um bom relógio esse talvez não me serviria para muita coisa. Mas notei que seu compasso era binário e que cada tic, era um tum de meu coração.
Coração este que as vezes não saberia distinguir o outro tum, por estar atrelado a outros corações, como se um fio interligasse a todos os outros e a cada puxão fosse o causador de meu e de seu tum.
E a cada tum, era o meu tic, tac. Então, assustado, sentei ao chão, quando sob uma luz tênue pude perceber, daqueles que perto de mim passavam, que seus tic e tacs, ou tum, eram de diferentes ritmos, em distintos tempos.
Envergonhei-me da minha necessidade de precisão comum, que de tão comum me tornara só mais um.
Meu tempo, era o “meu tempo” e eu seguia minha vida conforme o tempo, grande ou pouco, me estivesse ainda a contar. O meu ritmo era um e não poderia me pautar pelo que via além do meu; embora eu tenha notado que o causador de meu tempo, meu coração, poderia interagir com os demais nesse compasso.
Levantei e passo a passo explorei o ambiente: as coisas aconteciam, repetiam, em ciclos, num tempo incessante, de forma tão intermitente que, já convicto, pude notar: tenho meu tempo, você tem o seu, embora demos tanta importância ao nosso tempo comum.
E, a cada segundo gasto, é um pouco a menos de mim, e de você; a ponto que devemos deixar-nos completar aos poucos de nossos tuns, tiques, taques para compormos nossa harmonia, por vezes desregulada em uma dissonância de nossa existência; essa tal esquecida no dia-a-dia.
Que meu tempo, meu segundo, possa, um dia tocar o seu. E que deste escrito, talvez, seja o elo tão raro de se ter.

Arnaldo Vasconcellos

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