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O Falseacionismo Ingênuo e a solução fantástica (Série pseudociências – Parte 3#)

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Karl Popper

Karl Popper

Para começar esta postagem, vou fazer uma analogia, que já usei em conversas em outros blogs. Lógico que este exemplo encerra apenas parte do que quero dizer e não é completo, mas tento elucidar um pouco sobre a complexidade das teorias no processo científico.

Imagine que você está num quarto escuro. Em pleno escuro. Sabe que apenas existe um interruptor para acender uma luz. Você inicia uma série de hipóteses:

1) Deve existir ao menos uma lâmpada neste quarto.

2) Se existir ao menos uma lâmpada, ela deve ser acionada por um interruptor.

3) O interruptor deve ficar numa das paredes do quarto.

Você então começa a tatear o quarto. Aparentemente está longe das paredes. Então começa a tatear objetos em busca de uma parede. Encontra um sofá e portanto deduz que atrás deste sofá deve existir uma parede. Chega a parede (confirmando sua hipótese). Tateando a parede descobre na parede subsequente uma cortina.

Deduz que atrás da cortina deve existir uma janela e ao abrir irá iluminar, mesmo que parcialmente, o quarto ajudando a achar o interruptor. Para sua felicidade sua hipótese auxiliar está corroborada e existe uma janela. Entretanto ela está trancada e não pode ser aberta.

Em seguida continua a tatear até achar uma porta. A mesma está trancada. Deduz que perto da porta deve existir um interruptor. Para seu desânimo você não encontra interruptor.

A partir de então deve tomar uma decisão,  o fato de não encontrar um interruptor não é sinal de que ele não exista.

a) ele pode existir próxima a esta porta e não tateei corretamente.

b) ele pode não existir próxima a esta porta e estar próxima a outra.

c) ele pode não estar próxima a nenhuma porta.

d) ele pode não existir.

Poderia falsear logo aí toda a minha “teoria”, ou poderia refazer apenas as hipóteses que estão com problemas. Como podemos perceber existe dois extremos pessimistas: se eu descartar logo de primeira corro o risco de estar no caminho certo e mudar repentinamente, ou estar no caminho errado e tentar continuar insistindo num caminho que não representa verossemelhança com o mundo e gastar tempo com algo que nada irá me resultar.

Popper desenvolveu uma teoria da ciência, que ao invés da verificação de uma teoria, o cientista deve tentar falseá-la. Uma teoria falseável é plenamente científica. Quando observações vão contra a teoria a mesma é falseada. Caso não corram contra a teoria, ela é corroborada.

Ora, o falseacionismo ingênuo é aquele em que acredita-se que uma ou qualquer observação contrária é capaz de falsear uma teoria. O falseacionista ingênuo (ou dogmático) poderia tachar excessivamente uma alteração ad hoc (uma alteração após observação) na teoria.

Entretanto Popper não era um mero falseacionista ingênuo. Existe um problema da demarcação: até que ponto é lícito alterar ad hoc teorias para que se sustentem. E Popper sabia deste problema. Não é acertado colocar o pensamento de Popper como um falseacionista ingênuo, como pode-se pensar numa primeira passagem.

O falseacionista ingênuo acredita, de certa forma, que toda a teia de teoria científica relaciona-se com dados observacionais.

Mas não é bem isso que encontramos na ciência. Podemos encontrar teorias conectadas a outras teorias e estas a outras e estas últimas sim a dados observacionais. Não só de correspondência vive a ciência, mas sim também de coerência entre teorias.

Ora, pode acontecer de hipóteses auxiliares serem refutadas num experimento (ou observação), mas um centro teórico ainda parecer coeso.

Imre Lakatos

Imre Lakatos

Por este motivo, um outro pensador, Lakatos, desenvolveu uma filosofia em que existem programas de pesquisa científica. Elas podem possuir um núcleo duro que é mais coeso e difícil alteração e extremidades de hipóteses auxiliares que podem ser alteradas conforme a confrontação.

Pode acontecer ainda uma teoria não ser correta e realmente acontecer uma refutação no cerne da mesma.

Como podemos, então, demarcar o procedimento a adotar? Creio que o falseacionismo ingênuo, apesar de, aparentemente, ser fantástica a sua solução (refutou qualquer coisa, descarte) não é plenamente válida. Descobrir a natureza requer paciência e muito cuidado. Da mesma forma modificar eternamente uma teoria, face as confrontações, pode acabar por deixá-la totalmente disforme.

Participo do pensamento em que os dois extremos não são bem vindos:

a) alterar uma teoria demais pode ser sinal claro de que a mesma não está funcionando bem, portanto deverá ser bem analisada se suas alterações são em hipóteses profundas, se mantém coerência, se as obsevações (se puderem ser) repetidas reportam o mesmo grau de refutação, etc;  então esta teoria é seria candidata a ser falseada e uma “salvação” da mesma pode torná-la pseudociência (e este é um caminho comum nas pseudociências).

b) Achar que toda a ciência está relacionada de forma direta a uma observação. E que uma observação contrária pode já refutar TODA uma teoria, sem antes analisar a natureza da observação, a qualidade da mesma, se a refutação é ou não a nível auxiliar.

Penso que uma teoria errada, acaba no passar dos anos não se sustentando.  Encontramos isto na história da teoria do éter e no surgimento da teoria da relatividade.

Deve-se ter um meio termo entre o salvador de teorias e o falseacionista ingênuo (por mais fantástico que este último possa parecer).

UPDATE (OBS)

Encontrei algumas pessoas com pensamento de cunho de falseacionismo ingênuo que considerariam que “hipóteses auxiliares” seriam formas de “minimizar a importância da descoberta científica” (ver link supracitado). De antemão: hipóteses auxiliares não reduzem a importância da descoberta científica, apenas descrevem o funcionamento da dinâmica científica que o falseacionista ingênuo pode deixar passar despercebido.

Arnaldo Vasconcellos.

UPDATE 17.11.10

Pronto, depois de publicar este e outros artigos, mostrando que o uso errôneo e não popperiano do falseacionismo, como encontrado no blog “A Lógica do Sabino” o mesmo modificou sua postagem (atualizou) sem indicar quando e onde houveram atualizações (como eu faço aqui neste blog). Pronto criou um frankstein em sua postagem original, acusando-me de ingenuidade, só pra responder e não querer ficar por baixo… É óbvio que fazer tais atualizações não explícitas para parecer como se fosse uma postagem original é desonestidade. Ocorrem deturpações do que é o falseacionismo, do que são hipóteses-auxiliares e, obviamente, o indivíduo faz isto só pra garantir que irá convencer leitores inadvertidos dos métodos de deturpação do referido blog. Aqui fica o recado: devemos ter muito cuidado na internet com as deturpações de teorias, técnicas e conceitos.

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