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A garantia social da ciência (Série pseudociências – Parte 6#)

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Olhando amplamente todo o leque de pseudociências, pergunto-me “o que fez com que um tipo de explicação não-científica tente se passar por ciência?”.

É claro, como muitos ja apontaram, como Carl Sagan, citado no início de nossa série de ensaios sobre pseudociências, existe uma séria deficiência na alfabetização científica.

Essa deficiência permite que explicações não-científicas passem como científicas; assim como também é possível encontrar pessoas com uma certa fobia ao que e científico. Por que?

Os fóbicos da ciência relacionam os maus usos dos produtos da ciência e tecnologia como se fosse a própria ciência.  Esquecem que ela é um instrumento, assim como outras áreas plenamente humanas. O uso dos produtos científicos e tecnológicos beiram a instrumentalidade: usar um martelo para lesar uma pessoa não significa dizer que o martelo é “mau”.

O valor maléfico ou benéfico é dado aos produtos dela e não a si mesma.  A confusão entre empregos lesatórios, dos produtos de uma ciência e a própria ciência, é uma das fontes de fobia científica.

Claro que a coisa não é tão simples assim, alguns ainda podem argumentar que o procedimento científico pode empreender resultados que lesariam. O estudo de drogas em animais, por exemplo, podem ser uma lesão a animais.

Mas este é um caso centrado na ética da conduta de pesquisa. O fóbico da ciência, quando admite sua maleficidade, a admite por geral. A generalisa. E pega casos centrados na ética da conduta de pesquisa e generalisa como um todo. Por este motivo deve existir o estudo ético na ciência. Entretanto o argumento do fóbico parece ser truncado: não encontramos em todo o tempo atos que poderiam ser considerados lesatórios num estudo científico. Caso um fóbico da ciência ainda afirme que, em última instância, todo ato de estudo científico leva ou pode levar a lesões a outrém, posso ainda imaginar que este argumento não é muito forte: poderia ser extendido para toda capacidade de raciocínio, não só à ciência, e por último ao ser humano e suas decisões diárias (não vejo essa linha de raciocínio, de que a ciência seria má por possibilitar lesões mesmo que em decorrência de um estudo não lesatório, como uma linha de crítica válida; parece uma crítica externa e ela cabe tanto no que é conhecimento, quanto no que for humano – e assim o homem seria lesatório por natureza e tudo o que produzisse).

Portanto, de uma maneira ampla, o argumento do fóbico parece nascer de uma confusão entre uma escolha realmente lesatória (construir uma arma  com conhecimento técnico-científico e aplicá-la) e uma escolha não lesatória, mas que poderia levar a uma lesão futura (o estudo da combustão de certas substâncias).

Um teste com uma bomba nuclear - Fonte: Wikipédia

Um teste com uma bomba nuclear - Fonte: Wikipédia

A deficiência na alfabetização científica (e não somente nela, mas em muitos campos do conhecimento) pode permitir este tipo de fobia. Não estou falando da crítica à ciência (a ciência como qualquer outro âmbito humano está passível a crítica; e ao meu ver deve estar sempre sobre o crivo do olhar crítico), mas estou a remeter-me ao ato fóbico, quase doentio, da negação do que é ciência ou científico (como se ela fosse uma personagem maléfica de uma história).

A mesma deficiência supracitada, permite com que muitas pessoas aceitem tipos explicativos que não se embasam no método científico, mas que se passam (e se vendem) facilmente como uma “ciência”.

Por qual motivo?

Sou levado a pensar, que este motivo relaciona-se com o fato de que a ciência (para os não fóbicos) responde algo com uma certa precisão. E isto é passado de uma forma às vezes acrítica permitindo uma falsa idéia de absolutização da ciência; absolutização tal que está relacionada com o detrimento da idéia de “método científico”. Foca-se os resultados precisos (ou relativamente precisos, dependendo do caso) da ciência e esquece-se de esclarecer a natureza da própria ciência: ela começa a passar como uma revelação inventiva sem nenhum critério contextual acerca de seus produtos teóricos (esquece-se o que é o método). O caminho (método em grego é caminho) científico é apagado em função da chegada ao resultado de seu caminho.

Esse esmaecimento do método científico – e esquecimento – acaba por levar apenas uma garantia que a ciência falar algo, que no mínimo é verossimilhante ao mundo. Essa é uma garantia social e não é relacionada ao método científico. Relaciona-se com uma má divulgação do que é a ciência.

Quando um cientista emprega o método científico, logicamente está em busca de uma garantia, para teorizar sobre o mundo. Entretanto essa garantia é metodológica. Existe um método que agirá como um mecanismo permitindo que o mínimo do que podemos apreender fenomenicamente esteja teorizado. E, de certa feita, o método científico conseguiu lograr êxito em explicar o mundo, mesmo que gradativamente, pouco a pouco.

E, de uma certa forma, este êxito relaciona-se com os avanços tecnológicos permitidos pelos produtos das pesquisas científicas.

A garantia que um físico busca, ao analisar partículas em um acelerador, é de ordem metodológica. Mas, existe uma garantia social, adquirida pelo êxito da ciência frente ao seu método, que é repassado sem se importar com aquilo que proporcionou o estabelecimento de um mínimo de garantia de padrões naturais: o método.

Uma deficiência nos estudos de ciência (e em outros campos, como a filosofia, creio também) permitem que a garantia social seja extremamente influente.

Essa garantia é uma espécie de tão somente uma credibilidade àquilo que recebe o carimbo de “científico”.

Analisando as pseudociências, ao longo desta série de artigos, notamos que as mesmas se usam do nome de ciência para usufruir desta garantia social, embora não empreguem o método (o que geraria a garantia metódica). Se empregassem o método, suas asserções  poderiam ser refutadas.

Pode até ser que indivíduos que desenvolvam pseudociências façam sua prática sem más intenções: pode ser que eles participem do desconhecimento do método como fonte, ou que tenham uma semântica diferente do que é “ciência”, e por este motivo ainda empregam suas áreas como “científicas”.

Mas, de fato, com ou sem má intenção, categorizar como “científica” é buscar por uma credibilidade, de uma rotulação com uma garantia social.

E isto é um problema. Acaba-se por vender algo como ciência, que não emprega o método científico. Por este motivo creio ser muito importante saber e questionar: o que é a ciência, como ela se dá e do que ela se preocupa?

O uso da garantia social por uma pseudociência, é sem uso da garantia metódica. Torna a própria garantia social uma garantia vazia. Acaba não garantindo uma aproximação epistêmica do que é o mundo. E, repito, isto é um problema muito grande. Problema grande o suficiente para que continuemos a pensar no mesmo; em alternativas para saná-lo e possibilidades para clareá-lo.

Uma dessas possibilidades, que vislumbro, a priori, é pura e simplesmente a educação em sua melhor qualidade.

Arnaldo Vasconcellos

Ciência, Educação, Epistemologia, Gerais, Teoria da Ciência , , , , , , , ,

  1. 26, Janeiro, 2010 a 02:40 | #1

    Prezado Arnaldo, estou gostando muito de seus artigos sobre pseudociência e epistemologia. Como já te disse é uma área que gosto muito.

    Sobre a facilidade que os não-fóbicos demonstram em comprar “gato por lebre” e aceitar e propalar a pseudociência como ciência, penso que vai além de uma resposta com “certa precisão”. Penso que o motivo principal seja conforto. Ou seja, o não-fóbico que compra pseudociência como ciência e repercute crendices, simpatias e um monte de besteira com “ares” científicos, simplesmente o faz porque aquilo responde suas expectativas ou possuem explicações que vão ao encontro do que querem ouvir e lhe causa conforto.

    Uma das maiores “sacadas” hipotéticas para quem insiste em ver sentido na vida, é postular a reencarnação. É uma hipótese, sem dúvida. Uma boa hipótese. Ela dá cabo de uma série de coisas que não tem sentido nem explicação e se encaixa como uma luva para que aceitemos a morte (que é algo tão absurdo) de maneira mais amena. Mas independente da função psicológica ou social que uma crença dessa tem, postulá-la através de uma suposta “ciência espírita” é de uma má-fé estratosférica. Não é ciência. É uma boa crença e que funciona para quem crê, mas não é ciência.

    Uma das coisas que eu fico mais abismado nos pseudocientistas é que, ao verem que não têm como cumprir o método científico para corroborar suas teorias (já que são teorias fechadas que não permitem depreendermos predições para serem refutadas), passam a criticá-lo ao invés de adequarem-se a ele. Eles têm a esperança que alguém elabore um método em que seja aceito como conhecimento científico sem exigência de demonstração empírica.

    Nesse aspecto as suas indagações são as mesmas que as minhas. Oras, porque cargas d´água eles querem que sejam chancelados como científicos suas crenças? O que muda para eles ter a chancela de ciência ao que eles fazem e funciona para eles? Você responde bem dizendo que é a garantia social que os fazem procurar essa chancela. Mas penso que vá além. Ela tem peso, de certo. Mas a preocupação deles, a meu ver, está em submissão de todo conhecimento à sua cosmovisão. Muito mais importante que o respaldo social, é esse respaldo vindo da chancela que “até” científico o conhecimento deles é.

    É por esse motivo que eles não procuram se adequar ao método científico e tentam mudar o método científico para atender aos seus propósitos. Isso é temerário.

    Mas não pense com isso que eu julgue o método científico infalível ou absoluto. Ele é falho e atende a um conjunto de intencionalidades que nem sempre é benéfico à humanidade. Há muito o que ser discutido, mas essa discussão vai além da própria ciência, ela envolve a própria possibilidade de conhecimento humano e essas intencionalidades manipulatórias que sempre puxarão para seu próprio lado os rumos do conhecimento.

    Particularmente penso que poderemos ir muito mais longe quando desvincularmos a validação científica do desdobramento tecnológico e mercadológico do que se pesquisa. Mas pensar sobre isso é pensar sobre nosso sistema, e consequentemente, mexer em vespeiros ideológicos e políticos.

    Grande abraço

    Gilberto Miranda Jr.
    http://blog.gilbertomirandajr.com.br

  2. 28, Janeiro, 2010 a 00:43 | #2

    @Gilberto Miranda Junior
    Olá Gilberto. Agradecido pelos comentários.

    Concordo com seus comentários em diversos pontos.
    Quando diz:
    “Sobre a facilidade que os não-fóbicos demonstram em comprar “gato por lebre” e aceitar e propalar a pseudociência como ciência, penso que vai além de uma resposta com “certa precisão”. Penso que o motivo principal seja conforto. Ou seja, o não-fóbico que compra pseudociência como ciência e repercute crendices, simpatias e um monte de besteira com “ares” científicos, simplesmente o faz porque aquilo responde suas expectativas ou possuem explicações que vão ao encontro do que querem ouvir e lhe causa conforto.”

    – Bem, o conforto é justamente o que a garantia social pode nos permitir. É muito confortável receber um rótulo de “é científico” em nossas crenças; independentes de quais sejam. O oposto é inversamente proporcional: é muito desconfortante para uma grande maioria de pessoas que crêem em algo e têm isso negado pela a ciência. Algumas não se importam (por diversos motivos), mas muitas ficariam chocadas; e talvez chocadas com a própria ciência.

    Diz ainda:
    “Uma das maiores “sacadas” hipotéticas para quem insiste em ver sentido na vida, é postular a reencarnação. É uma hipótese, sem dúvida. Uma boa hipótese. Ela dá cabo de uma série de coisas que não tem sentido nem explicação e se encaixa como uma luva para que aceitemos a morte (que é algo tão absurdo) de maneira mais amena. Mas independente da função psicológica ou social que uma crença dessa tem, postulá-la através de uma suposta “ciência espírita” é de uma má-fé estratosférica. Não é ciência. É uma boa crença e que funciona para quem crê, mas não é ciência.”

    – Ora, tenho palpite que “sentido da vida” e crenças religiosas são matérias de fé; embora suas esferas explicativas possam tangir algumas esferas da explicação da ciência, elas são apenas no máximo tangíveis.
    Doutrinas religiosas em boa parte tratam de assuntos sobre-naturais e com foco além da ciência. Entretanto a garantia social que a ciência acaba por gozar em nossa atualidade é altamente atraente para explicações que queiram alcançar esse conforto dado por esta garantia social.
    A reencarnação é uma explicação de cunho religioso. Com alguns toques poderia ser usada metafísicamente. Entretanto não acho que seja uma explicação científica. Concordo com você quando diz que é uma hipótese, chega a ser atraente. Mas o que eu disser a respeito de seu campo (se existe ou não existe) é matéria de fé.
    Rotular algo não científico como científico é propor uma solução psicológica e social tanto quanto a função que a própria fé possa vir a ter: tenho o palpite que uma fé mais viva deveria ir além de fatores psicológicos e sociais; mas não podemos negar a existência deles para a grande maioria das pessoas (e isso é uma característica bem humana); porém o conforto, e sua busca (bem humana) nos pregam peças como é a questão deste artigo: a pseudociência.
    Aqueles que postulam que sua crença é uma ‘ciência’ das duas uma: ou estão realmente participando de uma má-fe (e isso pressupõe que saibam o seu erro), ou é fruto de uma distinção não muito clara entre o que é e o que não é ciência (e é desse erro de distinção que meu artigo trata, pois problemas no ensino sobre ciência permite essa possibilidade). Não creio que todas pessoas usem de má-fé ao entitularem suas crenças como científicas. Acho que muita gente o faça por uma distinção mal vista: e esse problema poderia, ao meu ver, ser corrigido com o ensino de melhor qualidade sobre assuntos científicos e, quem sabe, epistemológicos.
    Quando alguem denomina sua fé de científica, em minha análise, ou é de má-fé (quando sabe o que é ciência, mas quer vender seu discurso), ou é de ingênua-fé (quando não fez uma distinção clara do que é ciência, seu foco e assim aceita crenças doutrinárias como sendo ciência). Cá entre nós, não estou criticando nenhuma fé aqui, apenas acho que aqueles que leiam este blog sintam-se mais a vontade de delinear o que pode ser ciência. Pessoas podem continuar acreditando em suas crenças (são livres), desde que equívocos como estes sejam vistos com mais crítica e saibam a diferença entre uma e outra. Portanto discordo quando diz que é por má-fé; acho que é mais acertado dizer que existem aqueles que fazem por má-fé; mas muitos fazem, aceitam e/ou propagam por desconhecimento, ou, como chamo “ingênua-fé”.

    Diz ainda: “(…)Mas a preocupação deles, a meu ver, está em submissão de todo conhecimento à sua cosmovisão. Muito mais importante que o respaldo social, é esse respaldo vindo da chancela que “até” científico o conhecimento deles é.”.

    – Concordo plenamente. Mas a chancela de “até” científico é uma característica da garantia social. Conforta ter sua cosmovisão como aceita científicamente. Essa é a engrenagem.

    Diz:
    “É por esse motivo que eles não procuram se adequar ao método científico e tentam mudar o método científico para atender aos seus propósitos. Isso é temerário.”

    – Concordo. Procurar o método científico é aceitar imagens de mundo e de ciência que o próprio método está embebido. Fazer isso seria restringir sua crença e te-la possivelmente testada e, se falseada, descartada; perdendo a garantia social.

    Disse, também:
    “Mas não pense com isso que eu julgue o método científico infalível ou absoluto. Ele é falho e atende a um conjunto de intencionalidades que nem sempre é benéfico à humanidade. Há muito o que ser discutido, mas essa discussão vai além da própria ciência, ela envolve a própria possibilidade de conhecimento humano e essas intencionalidades manipulatórias que sempre puxarão para seu próprio lado os rumos do conhecimento.”

    – Também não julgo o método científico infalível. Não o é. Mas nos ajuda bastante a saber sobre aquilo o que pudermos saber, sobre aquilo que está fenomenicamente dado. Geralmente digo que o método científico é um instrumento. Algumas pessoas ficam horrorizadas, mas é um instrumento para sabermos melhor sobre o mundo. Com um óculos podemos ver melhor, se tivermos algum problema de visão; com um telescópio podemos ver o que estaria além de nossa capacidade visual; com o método científico podemos teorizar melhor sobre aquilo que nos é dado em fenômenos.
    Por este motivo a intencionalidade está relacionada com o problema do que julgamos ser as coisas no mundo. Essa intencionalidade faz sim efeito no que não é científico, no que não é científico e busca sê-lo e, também, no que é pesquisado cientificamente (cientístas são humanos e é possível que hajam “puxões” do “rumo do conhecimento” por alguns; e é por este motivo que o método deve continuar ser empregado, pois nenhum puxão poderia durar por muito tempo se ele for confrontado metoicamente, palpito). E este problema também é contornável com a mesma solução do das pseudociências uma boa educação geral, que ensine os contornos científicos e possibilitem uma boa crítica ao recebermos algo dito como científico (seja uma pseudociência, ou uma teoria do tido “sardinha pro meu lado”). Talvez eu seja um otimista ao pensar assim.
    Mas é tão incrustado no humano a questão do conforto. Talvez relacione-se com o hábito… Se for estruturalmente humano, será difícil. Mas não acredito ser estruturalmente humano; possa estar incrustado, mas não sei se é de sua estrutura. Neste caso a alternativa da educação poderia ser eficaz.

    Disse, ainda:

    “Particularmente penso que poderemos ir muito mais longe quando desvincularmos a validação científica do desdobramento tecnológico e mercadológico do que se pesquisa. Mas pensar sobre isso é pensar sobre nosso sistema, e consequentemente, mexer em vespeiros ideológicos e políticos.”

    – Sim, acho que a validade científica deve estar além do desdobramento tecnológico (e acho que está muito além, pois ela nos permite falar de coisas do mundo e elas não precisam estar de acordo com um futuro mercado ou tecnológico). Seria muito perigoso aceitar pesquisas que apenas sejam ditadas por uma possibilidade tecnológica. Mas tenho uma hipótese que a garantia social se alimente muito com este desdobramento tecnológico; pois a tecnologia pode passar a tornar pesquisas científicas mais palpável para alguns leigos que não se importariam com seus desdobramentos não-tecnológicos: enfim, a garantia social atinge justamente nesse conforto, cuja tecnologia ajuda a confortar (e o mercado entra neste ponto).Mas não é somente esse desdobramento tecnológico que está em jogo: tem toda uma visão de mundo embarcada nisso.
    Em outras palavras, apesar da validade científica não estar vinculada necessariamente com seus desdobramentos tecnológicos, os mesmos desdobramentos nos causam um efeito profundo de satisfação e conforto com um conhecimento pesquisado. Este é o ponto em que a garantia social se alimenta; e ela se torna uma fonte muito atraente para discursos não científicos que queiram se utilizar desse conforto.

    Abraços,

    Arnaldo Vasconcellos.

  3. 28, Janeiro, 2010 a 03:10 | #3

    Poxa, Arnaldo, fico muito contente comsua resposta. vejo que o que suspeitava (de que temos pontos em comum em nossos pensamentos) se consolida como um fato. É claro que haverá coisas que discordaremos, mas essa aproximação inicial ajuda até nas futuras discordâncias.

    Entendi melhor e concordo com a questão da garantia social. Daria até para incluir nela, a própria tradição e cultura. Inovações científicas que chocam tradições culturais arraigadas são mal vistas e malditas como pseudociências sem serem. O Criacinismo não prolifera apenas porque ele precisa de respaldo ou garantia social. Ele primeiro nega a cientificidade da Teoria da Evolução para se encaixar nas brechas que inventa. É um caminho diverso das outras pseudociências que postulam o estatutu de científicas. As outras não negam a ciência para tentar entrar, mas o criacionismo sim.

    Eu concordo com seu otimismo. Além do método (e isso inclusive faz com que ele melhore), a criticidade científica é importantíssimo para filtrar o lance de “puxar sardinhas”. Mas esse “puxar sardinhas” vai além de desejos pesoais dos cientistas e está atrelado a cultura e garantia social.

    Tenho um livro de em casa chamado Estratégias Sexuais de Mary Batten. Ela recoloca a fêmea num papel nunca antes pensado na Seleção Sexual. Até então, as explicações que privilegiavam os machos na reprodução e preservação genética era científico e incontestável. Mas o que ela viu sempre existiu, mas uma máscara ideológica histórica impediu pesquisadores anteriores de considerar. Podemos dizer que esses pesquisadores fizeram pseudociência só porque não viram o que ela viu? Claro que não. E não houve incremento tecnológico que possibilitasse o que ela viu. Ela viu o mesmo cenário, os mesmos dramas, mas adotou uma perspectiva diferente que pode quantificar e demonstrar. Ampliou a ciência, trouxe mais conhcimento, mas não podemos dizer que o anterior estava errado, mas sim que estava sob uma perspectiva que não abarcava toda sua potencialidade.

    A questão do Olhar científico é algo que poucos abordaram. Disucto em meu blog a questão do determinismo e do indeterminismo e do natual e cultural. Se puder dar uma olhada, ele fala um pouco sobre isso…

    http://blog.gilbertomirandajr.com.br/2009/04/facas-gumes-e-reflexoes.html

    Na nota final eu digo:

    “Em meu entendimento, cada ciência, na construção de seu método científico, tem como meta principal a tentativa sistemática de neutralizar intencionalidades que interfiram na aferição de resultados. Mas o método não garante a direção em que o olhar do pesquisador estará voltado na construção dos nexos que darão corpo teórico explicativo ao fenômeno observado. Um dos balizadores é o resultado, mas ele pode dar suporte às mais inverossímeis teorizações, que serão descartadas somente quando nossa capacidade de observação aumenta. Outro balizador que controla o primeiro, é a aderência a um corpo teórico já consolidado e robusto. Isso significa que uma teoria que não tem respaldo em outra já consolidada, dando continuidade a ela, tende a ser desacreditada com mais facilidade que outra, que chega aos mesmos resultados, mas é aderente a um corpo teórico já consolidado. Tudo isso, de certa forma, dá coerência mas engessa a ciência, e o avanço parece ser muito mais lento do que poderia. Isso daria até um outro artigo.”

    Grande abraço e parabéns pelo Blog…

    Gilberto

    • 29, Janeiro, 2010 a 00:32 | #4

      Olá Gilberto.

      Estou agradecido com seu elogio. De qualquer forma, parece, realmente que temos pontos em comum em nossa conversa. Discordâncias são invevitáveis, mas o importante é não parar o diálogo, para que possamos progredir em nossos pensares.
      Em relação a cultura e tradição, sim, pensando por este ângulo, pode sim, estarem relacionadas com a garantia social. A questão das inovações científicas serem mal vistas foi abordada por Thomas Kuhn. Seriam os paradigmas que relacionariam questões dadas como científicas e o que estaria neste perfil.
      É plausível pensar que algumas inovações possam ser tomadas como pseudociências, numa maldição equívoca de sua natureza. Entretanto, ao analisar sobre as pseudociências, uma coisa que me saltou aos olhos foi a menção de que são científicas e não adoção ao método científico. Tudo bem, podemos alegar que este método está balizado em visões de mundo e de ciência (e basicamente imagens de mundo e de ciência formam o instrumental do método científico; pois necessitam de uma base de cosmovisão). Mas o ponto que é inquietante nas supostas pseudociências não é se elas são uma nova forma de encarar o que seria posto como científico, ou de encarar um paradigma científico. O paradigma não parece ser uma coisa escolhida individualmente. Suas tessituras estariam sim relacionadas a uma posição de cosmovisão (e passíveis do “puxar sardinha”), mas um paradigma parece funcionar num contexto social. Pois bem, uma pseudociência “x” não seria necessariamente uma protociência ou uma ciência em um proto-paradigma. Ela assume a garantia de um determinado paradigma, mas não assume seu método. É como se um conjunto de pressupostos de cosmovisões gerassem uma garantia metódica e por isso haveria um impacto chamado de garantia social. Não é minha última palavra sobre o assunto, pois ainda estou experenciando tudo isso, mas parece-me que uma “legítima” (e é difícil falar em legítima, pois é difícil demarcá-la) pseudociência assume contrato com uma garantia social, mas não há pacto com o método que gerou tal método.
      Lógico que, como muitas coisas acontecem em nosso mundo, é possível que uma protociência seja demarcada como pseudocientífica, devido a critérios paradigmáticos. Mas, ao que percebo, pontualmente uma pseudociência está relacionada com uma garantia social de um determinado paradigma que ela não é capaz de se manter viva caso tente aceitar o método científico no qual ela esteja embasada. Realmente é um assunto muito grande; devemos pensar com muito cuidado cada um destes pontos abordados.

      Vou ser bem honesto. Tento deixar em minhas pesquisas epistemológicas, tudo o que admito como verdade (dentro dos limites do que é humanamente possível, lógico; mas enquanto puder neste sentido estar, tentarei) em suspensão e pensar acerca destes pontos. É uma liberdade que nos é facultada, e que acho bem relevante fazê-la com zelo (é facultada a todos, mas acho que é um instrumental muito importante aos que estudam sobre o conhecimento). Estou afirmando isso, pois por mais que eu tenha uma posição inicial ao criacionismo, estou o estudando. Estou tentando compreender a natureza e o mecanismo do criacionismo, mesmo achando algumas incoerências.
      E nos meus atuais estudos sobre o cracionismo, cheguei a alguns pontos que me fazem concordar com você: sim o criacionismo nega certos pontos (e os criacionistas ainda mais) que são dados já como científicos para poderem estabelecê-lo; por exemplo: proteína do colágeno, questão da validade dos fósseis, datação radiométrica etc.
      Apesar de encontrar alguns problemas ao tentarem inutilizar vários pontos da ciência (e que depois podem vir a utilizá-la, sem um critério do que pode ser válido) é importante prestar atenção em suas críticas, para que não se recaia no problema da falta da crítica ao se aceitar sempre todos os pontos como uma “infalibilidade metódica”. Mas o fato de poder ver seus argumentos para que não caiamos na ingenuidade da infalibilidade metódica, não é este um argumento interno e estrutural contra o método científico atual; ele funciona bem dentro dos limites que lhe são impostos.
      Que esse mecanismo que você descreveu sobre o criacionismo aconteça, estou de acordo; embora tenha que pensar mais acerca e refinar a explicação de como se procede esse mecanismo. Agora, outra coisa imporantante salientar é que, simplesmente, não sei se o criacionismo seria um único tipo de pensamento a fazer este mecanismo.
      E isso me deu uma interessante ideia; tipos de pseudociências: aquelas que tentam subverter outros campos atualmente científicos e outros que as aceitam (mas todos eles participando do grupo lógico que não aceitam o método científico, com “medo” de se anularem). Acho que irei escrever algo relacionado a isto. O que achas?

      Você disse: “Eu concordo com seu otimismo. Além do método (e isso inclusive faz com que ele melhore), a criticidade científica é importantíssimo para filtrar o lance de “puxar sardinhas”. Mas esse “puxar sardinhas” vai além de desejos pesoais dos cientistas e está atrelado a cultura e garantia social.”

      – Concordo plenamente ao olhar por esta perspectiva. Até porque existe influências individuais assim como coletivas. Agora a dinâmica entre as individuais e as coletivas (serão elas apenas somas individuais?) é campo para uma nova discussão, que deve ter uma dedicação dada.

      Você disse: “Tenho um livro de em casa chamado Estratégias Sexuais de Mary Batten. Ela recoloca a fêmea num papel nunca antes pensado na Seleção Sexual. Até então, as explicações que privilegiavam os machos na reprodução e preservação genética era científico e incontestável. Mas o que ela viu sempre existiu, mas uma máscara ideológica histórica impediu pesquisadores anteriores de considerar. Podemos dizer que esses pesquisadores fizeram pseudociência só porque não viram o que ela viu? Claro que não. E não houve incremento tecnológico que possibilitasse o que ela viu. Ela viu o mesmo cenário, os mesmos dramas, mas adotou uma perspectiva diferente que pode quantificar e demonstrar. Ampliou a ciência, trouxe mais conhcimento, mas não podemos dizer que o anterior estava errado, mas sim que estava sob uma perspectiva que não abarcava toda sua potencialidade”

      – Parece ser um livro bem interessante. Concordo muito com você nesta passagem.
      Realmente o que esta sra fez, realmente não faz o que seus predecessores praticassem pseudociência, como você afirma. Eles continuaram praticando ciência. Só que a alteração incluída com sua reflexão não era uma alteração ilícita: por meio da crítica de uma ideologia que estaria a engessar o produto original do método, permitiu reabrir a mobilidade da mesma teoria. Vou dar um exemplo não muito bom [favor desculpar a extensividade do exemplo, baseada no que tem me dito], e talvez considere acrítico, mas julgo ser relevante: se uma teoria T aceita que os homens determinam o valor sexual de suas proles (cromossomo x ou y), sendo que vamos supor, hipoteticamente, que este resultado além de acordo com observações cromossômicas estejam embebidas em uma visão machista. O que que a visão machista nesta hipótese teria feito? Restringido saber que um fator externo a teoria cromossômica esteja envolvido. Agora vejamos que após essa amarra ideológica tenha-se descoberto papeis hormonais que possam estimular o nado de espermatozoides com y ou x por parte da fêmea? Uma ideologia machista talvez não deixasse passar esta possibilidade, já uma pesquisa despojada de valor machista poderia incrementar a teoria cromossomica ficando mais verossimilhante a realidade. Portanto, faço as suas palavras as minhas quando dizes “Ampliou a ciência, trouxe mais conhcimento, mas não podemos dizer que o anterior estava errado, mas sim que estava sob uma perspectiva que não abarcava toda sua potencialidade”. E acho que a palavra ideal dita por você foi “potencialidade”. Ela se relaciona muito quando eu falo em uma teoria estar mais verossimilhante.

      Vou ler com cuidado o seu artigo apontado. Mas de qualquer forma, estou de pleno acordo com o trecho destacado:
      ““Em meu entendimento, cada ciência, na construção de seu método científico, tem como meta principal a tentativa sistemática de neutralizar intencionalidades que interfiram na aferição de resultados. Mas o método não garante a direção em que o olhar do pesquisador estará voltado na construção dos nexos que darão corpo teórico explicativo ao fenômeno observado. Um dos balizadores é o resultado, mas ele pode dar suporte às mais inverossímeis teorizações, que serão descartadas somente quando nossa capacidade de observação aumenta. Outro balizador que controla o primeiro, é a aderência a um corpo teórico já consolidado e robusto. Isso significa que uma teoria que não tem respaldo em outra já consolidada, dando continuidade a ela, tende a ser desacreditada com mais facilidade que outra, que chega aos mesmos resultados, mas é aderente a um corpo teórico já consolidado. Tudo isso, de certa forma, dá coerência mas engessa a ciência, e o avanço parece ser muito mais lento do que poderia. Isso daria até um outro artigo.””

      Parabéns pelo artigo e pelas reflexões. Estas reflexões levantadas por ti são de muita validade para mim e realmente estão de muito acordo com o que tenho pensado e desenvolvido.
      Obrigado pelos comentários,

      Abraços,

      Arnaldo Vasconcellos.

  4. 28, Janeiro, 2010 a 03:12 | #5

    * estatuto, quis dizer rs….

  5. 8, Fevereiro, 2010 a 02:37 | #6

    Prezado Arnaldo, baseado em nossa conversa que enveredou para a questão do criacionsimo, fiz um artigo em meu blog para discutir o ensino do criacionismo em aulas de ciência, abordando os aspectos epistemológicos que discutimos aqui. Se puder, agradeceria muito seus comentários. Abraços…

    http://blog.gilbertomirandajr.com.br/2010/02/o-ensino-do-criacionismo-em-aulas-de.html

    Gilberto

  1. 13, Fevereiro, 2010 a 03:20 | #1
  2. 3, Março, 2010 a 00:49 | #2
  3. 5, Março, 2010 a 03:59 | #3
  4. 22, Maio, 2010 a 03:45 | #4