A suspensão do juízo como heurística

Diversas vezes tenho esbarrado em alguns blogs (alguns de cunho religioso) [*]com pessoas usando de suas crenças para pensarem e analisarem acerca de diversos temas.

Muitas vezes pedi a suspensão dos juízos (religiosos incluídos) e nem sempre fui muito bem compreendido. Um dos argumentos apresentados, por algumas pessoas religiosas com quem conversei, é que se tal pessoa crê fielmente em algo ela deve inundar-se completamente a ponto de poder fazer-se um bom crente. Como expus em alguns blogs, vejo que existe um problema nesta conduta.

Argumento, assim que a suspensão dos juízos é uma boa heurística para se fazer pensar diversos temas que, dentro de cosmovisões determinadas, estaríamos limitados. Lógico que existe o limite do que é humanamente possível fazer de suspensão.

Há um argumento escondido, por parte dos que não aceitam uma suspensão, de como se ao suspender juízos fossemos nos tornar traídores em uma determinada classe de pensamentos (seja religiosa, científica ou filosófica).

Uma boa maneira que encontrei é tentar pensar em diversas hipóteses. O artigo que utilizei o exemplo de Sagan do “dragão em minha garagem” foi um exemplo. Mas houve quem leu de forma teológica, enquanto eu tratava apenas de uma situação hipotética, para depois poder analisar os resultados e trazê-los a tona.

Fazer isso não é deixar o pensamento em compartimentos estanques. Não é, pois o que deixa o pensamento estanque e engessado é justamente trancá-lo em cosmovisões, que cada vez mais pedem que apertemos nossas faculdades do entendimento, a fim de não representar uma suposta “traição”.

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Fazer esta suspensão é pensar que cosmovisões podem estar relacionadas, também, com a nossa falibilidade e atuar neste exercício (de suspendê-las) é crucial para que possamos romper os limites que engessam e compartimentam nossos pensares. É aumentar a possibilidade de compreender o mundo que nos está dado fenomenicamente e possibilitando uma investigação mais profunda, que ultrapasse a mera opinião, doxa e assuma um viés mais compromissado com saber com mais verossimilhança o mundo em que vivemos.

E essa suspensão é válida em todos os campos: religiosos, científicos e filosóficos. Alguém que faça isso não estará despedaçando-se.

Devemos pensar seriamente nisto. Pois se o que tenho como verdadeiro é realmente verdadeiro e se o que há no mundo for de uma possível cognoscibilidade, é possível que, ao fazer a suspensão, eu possa permitir a um pensamento mais livre chegar a um nível mais verossimilhante; esta pesquisa mais verossimilhante, que irá confirmar, negar ou retificar (dentre várias hipóteses) possivelmente as cosmovisões que trago em mim mesmo.

Portanto, não me parece ser estanque ao fazer, dentro dos nossos próprios limites, este exercício investigativo. E muito menos isso denota uma traição às nossas cosmovisões. É, acima de tudo, um compromisso (ou um dos compromissos) em buscar a verdade dentro do limite em que pudermos saber, sem nos deixar levar pelo medo que poderia pura e simplesmente nos impedir de olhar um mundo com maior riqueza de detalhes e com maior profundidade de matiz (um religioso que faça isso não será um religioso de fim de semana ou despedaçado; será apenas alguém compromissado com algo que não seja o medo de falhar com o que acredita. O mesmo é válido para outras situações que não apenas o religioso).

UPDATE (08.10.10) : Assim, tenho que a suspensão do juízo, uma faceta muito clara do ceticismo é possível sim de aplicação. E sua aplicação resume numa metodologia para teste do conhecimento, reforma e restruturação do mesmo. Como uma heurística.

Arnaldo Vasconcellos

[*] Posso citar os blogs. Não o fiz por uma certa cauleta ética.