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A heurística da suspensão é mais uma cosmovisão?

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Ao escrever o ensaio “A suspensão do juízo como heurística” havia me perguntado sobre a possibilidade desta suspensão (inclusive a religiosa) ser possível e se ela poderia ser elencada como uma outra cosmovisão. Por este motivo, afirmei que deveria ser feito dentro da possibilidade do que for humanamente possível. E esse é o ponto. Mesmo assim ainda com certas dúvidas e precisando dialogar, cheguei como quem nada queria e comecei expor minhas dúvidas à minha esposa a fim de perceber seu viés acerca do assunto; uma visão diferente da minha. De certa forma, ela chegou justamente no ponto de minha dúvida e conversamos o possível no prelúdio de minha ida ao trabalho.

Também mantive conversa com Vanessa Meira, uma blogueira que estou tratando o assunto. E com base nas seguintes conversas, notei certas objeções ao método heurístico que comentei na postagem supracitada:

1) Suspender juízos de forma completa é impossível. Somos humanos e sempre estamos sujeitos a cosmovisões.

2) O ato de suspender juízos para investigar o mundo é uma cosmovisão. Portanto seria uma cosmovisão que tentaria sobressair-se as demais.

Pois bem, ao escrever originalmente o ensaio supracitado, deixei bem claro que a suspensão deve ser feita, se for feita, “dentro dos limites humanos”. E que esta suspensão não tem em si a consequência de uma “traição” à sua cosmovisão.

Existe uma diferença muito grande em supor uma suspensão de seus valores religiosos (e outros se necessário, para uma investigação) dentro do limite em que você puder e pedir uma suspensão total. Sim, total é impossível, por isto mesmo já estava implicito no meu artigo citado quando dito “humanamente possível”.

Quanto ao ato da suspensão ser uma cosmovisão não se tem muito para fugir, pois toda empreitada humana é tomada por imagens tácitas assumidas. A ciência, como já abordamos em outros ensaios é tomada por imagens de natureza.

Entretanto é difícil determinar se a “suspensão dos juízos” é de fato uma cosmovisão ou se ela precisamente apenas participa de uma. Há diferenças neste quesito.

De qualquer forma se for uma cosmovisão, poderíamos indagar se não estamos trocando uma cosmovisão por outra, e assim neste argumento há uma alegação de falta de efeito por trocar duas coisas de uma mesma categoria.

Vamos supor um exemplo bem infantil, mas bastante alusivo: imaginemos que precisamos, por algum motivo, recolher amostras de uma água. Seja de rio, de mar,  filtro etc. Podemos tentar fazê-lo com as mãos e isso não será muito eficiente. Tento um copo, mas percebo que este copo está furado. Não obterei muita amostra. Agora com um copo mais adequado poderei fazê-lo com mais precisão. Sei que o exemplo não é bom, mas estou trabalhando uma categoria geral (recipiente; sim a mão em concha agiria como um recipiente). Estou trocando um recipiente por outro, por mais excêntrico que o seja. Será que então é inútil trocá-lo, pois estou trocando coisas de mesma categoria geral? Aparentemente não, pois por mais que sejam de mesma categoria, existem alguns elementos desta categoria que são mais apropriados que outros.

Da mesma forma trocar uma cosmovisão por outra que peça que, ao máximo que pudermos, suspender o que temos certo como certo e errado como errado e que já julgaríamos ser de fato, não se traduz uma troca sem efeitos. Os mínimos juízos suspensos poderiam ser eficazes, denpendendo do caso, numa heurística.

O fato de trocar uma cosmovisão que me “diga x é y e não toques nisso” em uma que permite um levantamento da dúvida metódica, permite suspeitar se x é realmente y. Pode ser que, de fato x não seja y e com este procedimento, que julgo ser heurístico, permita-me a descobrir.

Isso lembra um bocado que René Descartes teria desenvolvido. Embora ele apelasse uma dúvida central para manter algo que fosse indubitável (a prórpria dúvida, que depois iria assegurar de sua existência como ser pensante) e depois tenha sido influenciado por perspectivas escolásticas (mostranto, de certa feita, uma influência de outras cosmovisões), nos deixou um legado importante: sobre a dúvida metódica.

René Descartes

René Descartes

Não é porque somos seres que trabalhamos com cosmovisões que a substituição de uma por outra será algo errado e impossível. Propor que não devemos fazer tal troca por ser de mesma categoria geral é um equivoco argumentativo, como pudemos apreender acima.

Uma coisa que seria de muito interesse e importância numa heurística da suspensão dos juízos, dentro dos nossos limites, é que a dúvida estaria centrada neste processo. Permitindo um procedimento investigativo para procurar analisar possibilidades. Se com o mesmo processo descobrir algo mais cerne que a própria dúvida no processo heurístico, ele mesmo se permite de autocrítica: poderia ser deixado em suspensão em detrimento de um método heurístico que vislumbrasse o algo mais cerne que a dúvida do método proposto atualmente no artigo supracitado.

Em outras palavras, a suspensão deveria ser feita como método heurístico. Para se apreender o que for possível apreender com nossos aparatos cognitivos, dentro de nossa possibilidade. A suspensão, igualmente, deveria ser efetuada dentro de nossos limites. E a mesma metodologia heurística permitiria, que, SE descoberto algo que permita uma melhor heurística na busca da verdade que não seja a dúvida de forma metódica, ela mesma poderá ser suspensa. Não haveria problema.

Um problema é que talvez, como minha esposa teria afirmado, tal método não pudesse ser universalizável. Mas andei a pensar e notei que talvez a sua não-universalidade pode ser real, mas isso não garante que não seja realizável (ou utilizável). Pode ser não universal, mas poderia ser utilizável por muitos; desde que seu processo seja entendido. Mas ainda tenho dúvidas deste ponto e terei que analisar melhor. Poderia ser um processo individual com muitos indivíduos.

Seria mais uma forma que estaria relacionada com o contexto de criação de teorias, para analisar as possibilidades que pudermos vislumbrar.

Portanto não se trata de manter um juízo intacto. Mas sim de pensar criticamente sobre o que for possível, inclusive do próprio juízo de suspendê-lo. E isso não traduz nenhuma alienação, como afirmou Vanessa Meira (ou burrice, como disse ainda outro blog). É, de certa forma uma forma de pensar criticamente sobre o que nós temos de disponível e de evitar que aceitemos algo verdadeiro, só porque foi o dito ser verdadeiro. Se o que for dito verdadeiro for verdadeiro puder ser analisável por nossa investigação, então não há o que temer ao efetuarmos tal investigação.

E isso poderia evitar muitos (pré)juízos .

Arnaldo Vasconcellos

Ciência, Cognoscibilidade, Epistemologia, Filosofia, Gerais, Teoria da Ciência, teoria do conhecimento , , , , , , , , ,

  1. 30, Janeiro, 2010 a 14:49 | #1

    Olá Arnaldo.

    Concordo com você ao sugerir a dúvida e o ceticismo como método. Escrevi sobre isso algumas vezes no blog. A cosmovisão biblico-cristã não é resistente ao ceticismo metodológico (indivíduos e instituições cristãs podem ser, incoerentemente com o cristianismo).

    A minha reação foi condicionada por conversas e debates anteriores. E também pela suspeita de que o teu discurso é direcionado ao público errado. Cristãos sempre ouvem isso nas universidades, sempre são instruídos a abrirem mão, e a minha geração foi condicionada a isso como o cãozinho de Pavlov. E quem defende e ensina o teu discurso “suspenda os juízos” nas universidades são os naturalistas devotos.

    As tuas palavras aos cristãos são como “faça regime para emagrecer” aos ouvidos de quem já está abaixo do peso.

    Vc me disse que convicções religiosas podem ser perigosas na busca do que é cognoscível. Foi aí que o meu detector de discurso “faça-o-que-eu-digo-enquanto-eu-mesmo-não-faço” disparou. Perdoe-me se me precipitei.

    Convicções religiosas… convicções filosóficas…

    Repare na popularidade de Sagan, Dawkins, Harris entre universitários.

    Pra mim, eles são bem convictos.
    Pense sobre isso.

    • 31, Janeiro, 2010 a 00:03 | #2

      Olá Vanessa,

      É bom saber que compreendeu que eu sustento a dúvida como método e que qualquer pessoa, seja cristão ou não possam assumí-lo com método.
      Você disse: “A minha reação foi condicionada por conversas e debates anteriores.”

      – Bem, esse é o problema do rótulo
      disse ainda: “E também pela suspeita de que o teu discurso é direcionado ao público errado.”
      – Espero que todos sejam o público alvo.
      Disse ainda:
      “Cristãos sempre ouvem isso nas universidades, sempre são instruídos a abrirem mão, e a minha geração foi condicionada a isso como o cãozinho de Pavlov.”
      – Penso que deve-se haver uma simetria; se é proposto ao que é cristão tal exercício ele não se mostrará nocivo também a um não cristão. A dúvida metódica pode ser um excelente instrumento heurístico. Concordo com você quando se mostra indignada quando a usam como retórica. Afirmo prontamente que a dúvida metódica deve ser usada heurísticamente e não evasivamente.
      Você ainda diz: “E quem defende e ensina o teu discurso “suspenda os juízos” nas universidades são os naturalistas devotos.””
      – Bem, se alguem afirma e cumpre, bom. Se alguem afirma apenas evasivamente, é um discurso vazio (e indepedente se ou não naturalista é de deixar indignado).
      Você diz:
      “Vc me disse que convicções religiosas podem ser perigosas na busca do que é cognoscível. Foi aí que o meu detector de discurso “faça-o-que-eu-digo-enquanto-eu-mesmo-não-faço” disparou. Perdoe-me se me precipitei.
      Convicções religiosas… convicções filosóficas…”

      – Por este mesmo motivo afirmo que o método proposto é cabível também a preconcepções filosóficas. De qualquer forma não precisa pedir desculpas pela precipitação. Uma pessoa que fizesse tais asserções de forma evasiva seria realmente de indignar.

      Quanto a popularidade de Sagan, Dawkins etc etc, acho que devemos lê-los, assim como qualquer outro, com o crivo da crítica, independende de suas convicções ou popularidades. Como toda e qualquer pessoa falam coisas interessantes, importantes e cometem equívocos. São humanos. Agora o que falarem de importante deverá ser analisado como tal e o que falarem como equívoco deverá ser encarado como equívoco (como qualquer outra pessoa, independende de sua popularidade, viés, cosmovisão ou convicção – prestanto atenção nas idéias, em suas conexões e sua construção).

      Abraços,

      Arnaldo.

  2. 1, Fevereiro, 2010 a 20:50 | #3

    Arnaldo,

    Um ceticismo construtivo, por assim dizer? Todavia, será que o ceticismo levará a algo propositivo, ou afirmativo? Isso será possível? Você não acha que o ceticismo tende a relativizar tudo, desconstruindo o absoluto e nada criando, senão um certo modelo de desespero existencialista?

    Abraço,

    Ricardo

    • 1, Fevereiro, 2010 a 23:12 | #4

      Olá Ricardo,

      Obrigado por seus comentários.
      “Ceticismo construtivo”, não tinha pensado nessa nomenclatura. Entretanto o que escrevi não está ligado a um ceticismo por puro ceticismo. É, acima de tudo, uma utilização metódica (aliás, parece-me que o ceticismo em-si tem um valor maior quando utilizado para questionar o que tomado como trivial – pode ser um ótimo instrumento para a descoberta). Além do mais a igualdade entre ceticismo e relativismo é um equívoco. São conceitos diferentes com propostas diferentes.
      E mesmo que houvesse uma igualdade em que a variável relativismo fosse idêntica ao ceticismo, o que descrevi nas postagens não é um relativismo. É uma forma de evitar que o dogmatismo (de diversos tipos) possam interferir num processo investigativo.
      Quanto ao desespero existencialista, bem, não sei se entendi muito bem a sua colocação, entretanto o problema da existência, parece-me, é algo inerente a nós humanos. Os caminhos que apontam para o desespero são múltiplos; e isso não seria argumento para evitarmos usar uma metodologia de cunho epistemológico com o medo de descobrirmos quem somos. Talvez possa me explicar melhor sobre este “modelo de desespero existencialista”; estou disposto a conversar sobre o tema.

      Abraços,

      Arnaldo.

  3. 5, Fevereiro, 2010 a 18:12 | #5

    Olá Arnaldo,
    tivemos um entrave ontem no blog do Sabino rsrsr
    Novamente, creio que há interpretações ligeiramente equivocadas de ambas as partes.
    Suspenda os teus juízos metodologicamente e dê uma lida nesse artigo:
    http://vanessinhameira.blogspot.com/2010/01/mau-igual-o-pica-pau-quem-disse.html

    Abraços

    • 5, Fevereiro, 2010 a 23:09 | #6

      Olá Vanessa,

      Bom ter sua visita novamente.
      Sim, tivemos uma pequena discussão, mas não julgo que tenha sido algo ruim.
      Saiba que tentei interpretar da melhor forma possível, tentando sempre suspender, o meu possível de preconcepções e tentando praticar o princípio da caridade.
      Pode ter certeza, visitarei seu blog e farei minha suspensão. Deixarei um “alô”.

      Abraços,

      Arnaldo.

  4. 13, Fevereiro, 2010 a 14:55 | #7

    Prezado Arnaldo

    Eu fico impressionado a cada post seu, pois identifico em você muitas dúvidas e reflexões que também são minhas. Você toca em pontos muito interessantes nessa série de artigos sobre a heurística da suspensão de juízo e, embora eu não esteja atualmente escrevendo sobre isso, em breve publicarei um artigo sobre a questão de abordagem epistêmica sobre teleonomia estrutural que envolve bem esse aspecto.

    Diante das questões que você coloca, gostaria de tecer alguns comentários e saber sua opinião sobre eles. Vamos lá…

    1 – Uma postura heurística, seja lá por qual viés, sempre será uma postura de aproximação a um problema, via tentativa e erro, cercando-o através da submissão de tentativas a testes de validade frente ao problema a ser resolvido. Você concorda com essa visão? Se concordar, decorre daí que independente de uma postura de suspensão de juízo, qualquer rigidez cosmovisionária não irá problematizar um fato, e sim dar-lhe respostas, encaixando-o em um corpo teorético já constituído, ou seja, uma cosmovisão.

    Quando há uma cosmovisão que não seja mera hipótese de trabalho (ou seja, que não seja mero aspecto heurístico), ela contaminará de tal forma a observação que cairemos no positivismo, isto é, no verificacionismo e não no falsificacionismo. A diferença é fundamental. Uma abordagem heurística procurará sempre o que refuta a hipótese para descartá-la, ao passo que a abordagem cosmovisionária procurará sempre o que confirma para aceitá-la.

    Percebe a diferença? Em meu entendimento, uma abordagem cosmovisionária restrita é excludente de uma abordagem heurística, independente da possibilidade de se suspender juízos ou não. Resumindo, a postura heurística já pressupõe uma cosmovisão de que nenhuma cosmovisão possa se sobrepor às evidências que refutem uma abordagem qualquer. Combatemos algo (pressupostos cosmovisionários), assumindo um que, sob nossa perspectiva, possui maior virtude epistêmica.

    2 – Por outro lado, a suspensão de juízo parece-me ser parte integrante de qualquer heurística, mesmo que qualquer tentativa heurística traga a idiossincrasia ideológica do pesquisador. Ilusão seria imaginar (em um idealismo fantasioso) que alguém fosse capaz de suspensão total ou de uma neutralidade absoluta. Não é e você sabe disso, deixando claro não só sem eu texto, mas na resposta que deu ao Ricardo Mamedes.

    Talvez tenhamos que especular metaheurísticamente a possibilidade de, internamente, o pesquisador sempre se perguntar e lançar hipóteses de trabalho sobre sua própria visão e postura diante dos fatos e o quanto sua interpretação estaria contaminada de suas crenças e valores. A autocrítica como metaheurística parece-me ser fundamental, porém tudo isso se reduz a uma disposição prévia do pesquisador, a qual método algum daria conta; portanto, também cosmovisionária.

    3 – Não nos iludamos que, seja lá a força da disposição em direção à suspensão de juízo, somos e sempre seremos sujeitos históricos embrenhados em simbólicas que funcionam como lentes. Isso, de forma alguma, respalda-nos ir contra a tentativa de suspensão, mas nos deixa claro o limite dela para que não nos iludamos e para que construamos sempre novas abordagens possíveis em diversas direções. Iludirmos-nos que seja possível uma suspensão completa de juízo é desde já fazer um juízo que engessa e enclausura nossa visão dentro dessa ilusão.

    O que nos resta? Arrisco a dizer que o que nos resta é somente uma tentativa continuada de suspensão, garantida sobretudo pela diversidade de indivíduos diferentes se constituindo como vetores multidirecionais de abordagens, cada um se iludindo que fez uma suspensão absolutamente neutra, mas constituindo conjuntamente um juízo maior (um Logos) que constrói continuamente reinterpretações da realidade. Isso desfaz qualquer conceito estrito de verticalização e/ou hierarquização da ciência. Desalentador para os positivistas ou iluministas de plantão.

    4 – Penso em outra problematização também a partir do que escrevi. Sendo a heurística uma aproximação via tentativa e erro, dizer que nossos juízos devam ser suspensos, não pode significar dizer que devamos abrir mão de hipóteses de trabalho. A suspensão de juízo dentro da heurística não está aí. Você julga provisioriamente algo e somente no teste você suspende o juízo para formular contra-hipóteses que a refutaria. Se essa suspensão não for ao menos sincera, suas contra-hipóteses serão tendenciosas e você confirmará equívocos e tendenciosidades. É nesse ponto que entra, na pesquisa científica, a crítica cruzada, de outras cosmovisões que trarão contra-hipóteses mais robustas para que sua hipótese seja testada de fato.

    Nossa, escrevi demais… mas é isso que fascina em ciências: mesmo na impossibilidade de sermos neutros completamente, ou de ninguém ser, é na diversidade e na crítica cruzada que vamos fazendo uma grande heurística em busca de todas as verdades possíveis. Isso não é fascinante?

    Em suma, como você mesmo disse, só nos resta procurar, contextualmente, o melhor “recipiente” ´para colher a amostra da realidade que queremos. Mas a definição sempre será “social”, na medida em que a verdadeira virtude epistêmica está na crítica cruzada que só a ciência permite.

    De resto, em geral, religiosos não buscam nada além daquilo que já encontraram, ou seja: só buscam confirmação. Isso é substancialmente anti-científico, mesmo que eles, com razão, aleguem que todos façam isso. Sim, todos fazem, mas uns fazem encarando isso como defeito, eles fazem encarando isso como virtude. Enrtende?

    Abraços e parabéns pelas reflexões e respostas…

    Gilberto Miranda Junior

  5. 13, Fevereiro, 2010 a 15:00 | #8

    Ahhh reforçando… Eu disse:

    “O que nos resta? Arrisco a dizer que o que nos resta é somente uma tentativa continuada de suspensão, garantida sobretudo pela diversidade de indivíduos diferentes se constituindo como vetores multidirecionais de abordagens, cada um se iludindo que fez uma suspensão absolutamente neutra, mas constituindo conjuntamente um juízo maior (um Logos) que constrói continuamente reinterpretações da realidade. Isso desfaz qualquer conceito estrito de verticalização e/ou hierarquização da ciência. Desalentador para os positivistas ou iluministas de plantão.”

    Complemnto: para os religiosos também. Eles têm como valor fundamental daquilo que pensam, a verticalização e hierarquização da realidade a partir da tradição que abraça.

    É isso…

  6. 13, Fevereiro, 2010 a 20:02 | #9

    Acabei de publicar o artigo, se puder dá uma lida, amigo… Abraços e bom final de semana…

    http://blog.gilbertomirandajr.com.br/2010/02/acaso-aleatoriedade-e-proposito-parte-1.html

  7. 14, Fevereiro, 2010 a 23:55 | #10

    @Gilberto Miranda Junior
    Olá Gilberto,

    Bem vamos analisar seus comentários. Você me pede para posicionar-me perante a alguns pontos levantados, por ti levantados.

    Você disse:

    1 – Uma postura heurística, seja lá por qual viés, sempre será uma postura de aproximação a um problema, via tentativa e erro, cercando-o através da submissão de tentativas a testes de validade frente ao problema a ser resolvido. Você concorda com essa visão? Se concordar, decorre daí que independente de uma postura de suspensão de juízo, qualquer rigidez cosmovisionária não irá problematizar um fato, e sim dar-lhe respostas, encaixando-o em um corpo teorético já constituído, ou seja, uma cosmovisão.

    – Ora, sim uma postura heurística sempre é uma aproximação ao problema; não vejo muitos problemas nisto.

    Você continua:”

    Quando há uma cosmovisão que não seja mera hipótese de trabalho (ou seja, que não seja mero aspecto heurístico), ela contaminará de tal forma a observação que cairemos no positivismo, isto é, no verificacionismo e não no falsificacionismo. A diferença é fundamental. Uma abordagem heurística procurará sempre o que refuta a hipótese para descartá-la, ao passo que a abordagem cosmovisionária procurará sempre o que confirma para aceitá-la.

    – A priori levanto a questão que a suspensão pode acabar sendo fruto de uma possível cosmovisão, entretanto ela deverá ser crítica, inclusive a si mesma (e portanto a torna um processo heurístico, a meu ver, mais cristalino). Sobre a distinção de verificacionismo e falseacionismo dentro desta abordagem, não tenho absoluta certeza se o verificacionismo poderia ser equacionado como uma cosmovisão apenas em busca de confirmação (eu deveria fazer um aprofundamento maior no termo apresentado); mas a sua afirmação é muito interessante. Inclusive tenho encontrado muitas pessoas (algumas nas quais a postura motivou a escrever estes artigos) em que buscam apenas confirmar suas crenças e não necessariamente fazer uma aproximação problemática; e enxergo que isto é um problema muito sério (e acaba que algumas destas mesmas pessoas querem usar da ciência, mesmo que de forma deturpada, como modo confirmatório de suas crenças).

    Você disse:”

    2 – Por outro lado, a suspensão de juízo parece-me ser parte integrante de qualquer heurística, mesmo que qualquer tentativa heurística traga a idiossincrasia ideológica do pesquisador. Ilusão seria imaginar (em um idealismo fantasioso) que alguém fosse capaz de suspensão total ou de uma neutralidade absoluta. Não é e você sabe disso, deixando claro não só sem eu texto, mas na resposta que deu ao Ricardo Mamedes.
    Talvez tenhamos que especular metaheurísticamente a possibilidade de, internamente, o pesquisador sempre se perguntar e lançar hipóteses de trabalho sobre sua própria visão e postura diante dos fatos e o quanto sua interpretação estaria contaminada de suas crenças e valores. A autocrítica como metaheurística parece-me ser fundamental, porém tudo isso se reduz a uma disposição prévia do pesquisador, a qual método algum daria conta; portanto, também cosmovisionária.

    – Sim é cosmovisionária, mas ela busaria um elo crítico com todas cosmovisões e consigo mesma. Deixei claro que a suspensão total é impossível (devido ao nosso carater humano), mas suponho que o que pudermos fazer de suspensão é importante, mesmo que seja o mínimo (e isto poderia se enquadrar perfeitamente no que você afirmou ser uma disposição do pesquisador).
    É muito interessante a forma que você delineia que esta autocrítica metaheurística seja ato do pesquisador, (de cunho até volitivo, quem sabe…) e não necessariamente uma parte integrante de um método. Eu diria até que, vendo por este ângulo, concordo com você. Entretanto mesmo sendo uma disposição do pesquisador, julgo que ela possa ser tomada de forma metódica. Veja bem ser tomada de forma metódica por um pesquisador não significa que ela faça parte de um método científico, plenamente falando; mas, agora vejo isso (motivado por seu comentário) talvez seja altamente auxiliar num método principal. E esse fator coadjunvante seria muito importante num contexto de criação teórica, evitando contaminações que poderiam invalidar uma teoria no processo do contexto de justificação (no falseamento); ora a aproximação com a suspensão evitaria que criassemos teorias que não se aproximariam o bastante, em algum aspecto, com a verdade, fazendo-a ser refutada depois. Talvez além de um coadjunvante seja também uma postura para com a descoberta.

    Você disse:”

    3 – Não nos iludamos que, seja lá a força da disposição em direção à suspensão de juízo, somos e sempre seremos sujeitos históricos embrenhados em simbólicas que funcionam como lentes. Isso, de forma alguma, respalda-nos ir contra a tentativa de suspensão, mas nos deixa claro o limite dela para que não nos iludamos e para que construamos sempre novas abordagens possíveis em diversas direções. Iludirmos-nos que seja possível uma suspensão completa de juízo é desde já fazer um juízo que engessa e enclausura nossa visão dentro dessa ilusão.

    – Concordo plenamente.

    Você continua:”

    O que nos resta? Arrisco a dizer que o que nos resta é somente uma tentativa continuada de suspensão, garantida sobretudo pela diversidade de indivíduos diferentes se constituindo como vetores multidirecionais de abordagens, cada um se iludindo que fez uma suspensão absolutamente neutra, mas constituindo conjuntamente um juízo maior (um Logos) que constrói continuamente reinterpretações da realidade. Isso desfaz qualquer conceito estrito de verticalização e/ou hierarquização da ciência. Desalentador para os positivistas ou iluministas de plantão.

    – Concordo! Perfeito. Não sei se já te contei, mas como resultado dessas pesquisas que venho apresentando no blog, suspeito que a ciência não seja um processo hierárquico, mas sim “co-dependencial”. Isso não é ruim, de certa forma, mas apresenta apenas uma outra forma em que a ciência poderia estar trabalhando seu longo e contínuo processo de tentativa e erro em busca de teorias mais eficazes. É uma dinâmica muito interessante.

    Você disse:”

    4 – Penso em outra problematização também a partir do que escrevi. Sendo a heurística uma aproximação via tentativa e erro, dizer que nossos juízos devam ser suspensos, não pode significar dizer que devamos abrir mão de hipóteses de trabalho. A suspensão de juízo dentro da heurística não está aí. Você julga provisioriamente algo e somente no teste você suspende o juízo para formular contra-hipóteses que a refutaria. Se essa suspensão não for ao menos sincera, suas contra-hipóteses serão tendenciosas e você confirmará equívocos e tendenciosidades. É nesse ponto que entra, na pesquisa científica, a crítica cruzada, de outras cosmovisões que trarão contra-hipóteses mais robustas para que sua hipótese seja testada de fato.

    – Concordo. Uma suspensão deve ser realmente sincera. Uma crítica cruzada é uma etapa a mais na busca por essa robustez teórica. Julgo que esta heurística gira mais em torno do processo de criação, enquanto o método científico (o falseacionismo, por exemplo) estaria mais relacionado à justificação (embora esses delineamentos NÃO sejam estanques, e irei me dedicar a este ponto num futuro artigo), ou seja apesar de que eu as analise assim, pode ser que seu enfoque entre criação e justificação se interponham.
    Num artigo recente (Pode uma teoria científica representar posicionamento religioso?) digo o seguinte “Tecnicamente o método científico deve ser usado para evitar tais processos de parcialidade (embora sempre possam ocorrer, os processos de parcialidade tendem a diminuir com um método rigoroso que funcione não somente com um ou outro indivíduo, mas com toda uma comunidade envolvida no processo científico).”. Portanto concordo com você.

    Você continua:”

    Nossa, escrevi demais… mas é isso que fascina em ciências: mesmo na impossibilidade de sermos neutros completamente, ou de ninguém ser, é na diversidade e na crítica cruzada que vamos fazendo uma grande heurística em busca de todas as verdades possíveis. Isso não é fascinante?

    – Sim é realmente muito fascinante! E muito importante, porque uma busca pela verdade deve começar, a meu ver, com uma espécie de aceitação que nossas visões podem ser falíveis. E isso representa, ainda a meu ver, um compromisso maior com a verdade do que apenas ditar coisas como já sendo verdades entoadas por alguns e ecoadas por muitos.

    Você continua:”

    Em suma, como você mesmo disse, só nos resta procurar, contextualmente, o melhor “recipiente” ´para colher a amostra da realidade que queremos. Mas a definição sempre será “social”, na medida em que a verdadeira virtude epistêmica está na crítica cruzada que só a ciência permite.
    De resto, em geral, religiosos não buscam nada além daquilo que já encontraram, ou seja: só buscam confirmação. Isso é substancialmente anti-científico, mesmo que eles, com razão, aleguem que todos façam isso. Sim, todos fazem, mas uns fazem encarando isso como defeito, eles fazem encarando isso como virtude. Enrtende?

    – Entendo. Não sei se só religiosos fazem isso (e também não sei se todos fariam isto), mas que muitos fazem posso concordar. E fazer isso (não buscar o confronto e apenas tentarem confirmar o que aceitam) é algo que devemos tentar evitar, pois dificilmente somos os portadores da verdade, não possuímos esta exclusividade. Mas aqueles que acreditam que não fazer o que foi citado é uma virtude, o fazem assim, porque muitas vezes quando acreditamos em algo somos impelidos a atitudes, o que faz o a crença não somente um fenômeno psicológico frente a questões epistemológicas, mas também um fenômeno social. E socialmente humano.

    Gilberto, gosto muito de seus comentários. Muito obrigado por eles, forte abraço;

    Arnaldo Vasconcellos.

  8. 14, Fevereiro, 2010 a 23:56 | #11
  9. 14, Fevereiro, 2010 a 23:57 | #12

    @Gilberto Miranda Junior

    Vou ler seu artigo. Até mais,

    Arnaldo.

  1. 23, Outubro, 2010 a 15:00 | #1