A heurística da suspensão é mais uma cosmovisão?

Ao escrever o ensaio “A suspensão do juízo como heurística” havia me perguntado sobre a possibilidade desta suspensão (inclusive a religiosa) ser possível e se ela poderia ser elencada como uma outra cosmovisão. Por este motivo, afirmei que deveria ser feito dentro da possibilidade do que for humanamente possível. E esse é o ponto. Mesmo assim ainda com certas dúvidas e precisando dialogar, cheguei como quem nada queria e comecei expor minhas dúvidas à minha esposa a fim de perceber seu viés acerca do assunto; uma visão diferente da minha. De certa forma, ela chegou justamente no ponto de minha dúvida e conversamos o possível no prelúdio de minha ida ao trabalho.

Também mantive conversa com Vanessa Meira, uma blogueira que estou tratando o assunto. E com base nas seguintes conversas, notei certas objeções ao método heurístico que comentei na postagem supracitada:

1) Suspender juízos de forma completa é impossível. Somos humanos e sempre estamos sujeitos a cosmovisões.

2) O ato de suspender juízos para investigar o mundo é uma cosmovisão. Portanto seria uma cosmovisão que tentaria sobressair-se as demais.

Pois bem, ao escrever originalmente o ensaio supracitado, deixei bem claro que a suspensão deve ser feita, se for feita, “dentro dos limites humanos”. E que esta suspensão não tem em si a consequência de uma “traição” à sua cosmovisão.

Existe uma diferença muito grande em supor uma suspensão de seus valores religiosos (e outros se necessário, para uma investigação) dentro do limite em que você puder e pedir uma suspensão total. Sim, total é impossível, por isto mesmo já estava implicito no meu artigo citado quando dito “humanamente possível”.

Quanto ao ato da suspensão ser uma cosmovisão não se tem muito para fugir, pois toda empreitada humana é tomada por imagens tácitas assumidas. A ciência, como já abordamos em outros ensaios é tomada por imagens de natureza.

Entretanto é difícil determinar se a “suspensão dos juízos” é de fato uma cosmovisão ou se ela precisamente apenas participa de uma. Há diferenças neste quesito.

[.meuadsense] De qualquer forma se for uma cosmovisão, poderíamos indagar se não estamos trocando uma cosmovisão por outra, e assim neste argumento há uma alegação de falta de efeito por trocar duas coisas de uma mesma categoria.

Vamos supor um exemplo bem infantil, mas bastante alusivo: imaginemos que precisamos, por algum motivo, recolher amostras de uma água. Seja de rio, de mar,  filtro etc. Podemos tentar fazê-lo com as mãos e isso não será muito eficiente. Tento um copo, mas percebo que este copo está furado. Não obterei muita amostra. Agora com um copo mais adequado poderei fazê-lo com mais precisão. Sei que o exemplo não é bom, mas estou trabalhando uma categoria geral (recipiente; sim a mão em concha agiria como um recipiente). Estou trocando um recipiente por outro, por mais excêntrico que o seja. Será que então é inútil trocá-lo, pois estou trocando coisas de mesma categoria geral? Aparentemente não, pois por mais que sejam de mesma categoria, existem alguns elementos desta categoria que são mais apropriados que outros.

Da mesma forma trocar uma cosmovisão por outra que peça que, ao máximo que pudermos, suspender o que temos certo como certo e errado como errado e que já julgaríamos ser de fato, não se traduz uma troca sem efeitos. Os mínimos juízos suspensos poderiam ser eficazes, denpendendo do caso, numa heurística.

O fato de trocar uma cosmovisão que me “diga x é y e não toques nisso” em uma que permite um levantamento da dúvida metódica, permite suspeitar se x é realmente y. Pode ser que, de fato x não seja y e com este procedimento, que julgo ser heurístico, permita-me a descobrir.

Isso lembra um bocado que René Descartes teria desenvolvido. Embora ele apelasse uma dúvida central para manter algo que fosse indubitável (a prórpria dúvida, que depois iria assegurar de sua existência como ser pensante) e depois tenha sido influenciado por perspectivas escolásticas (mostranto, de certa feita, uma influência de outras cosmovisões), nos deixou um legado importante: sobre a dúvida metódica.

René Descartes

René Descartes

Não é porque somos seres que trabalhamos com cosmovisões que a substituição de uma por outra será algo errado e impossível. Propor que não devemos fazer tal troca por ser de mesma categoria geral é um equivoco argumentativo, como pudemos apreender acima.

Uma coisa que seria de muito interesse e importância numa heurística da suspensão dos juízos, dentro dos nossos limites, é que a dúvida estaria centrada neste processo. Permitindo um procedimento investigativo para procurar analisar possibilidades. Se com o mesmo processo descobrir algo mais cerne que a própria dúvida no processo heurístico, ele mesmo se permite de autocrítica: poderia ser deixado em suspensão em detrimento de um método heurístico que vislumbrasse o algo mais cerne que a dúvida do método proposto atualmente no artigo supracitado.

Em outras palavras, a suspensão deveria ser feita como método heurístico. Para se apreender o que for possível apreender com nossos aparatos cognitivos, dentro de nossa possibilidade. A suspensão, igualmente, deveria ser efetuada dentro de nossos limites. E a mesma metodologia heurística permitiria, que, SE descoberto algo que permita uma melhor heurística na busca da verdade que não seja a dúvida de forma metódica, ela mesma poderá ser suspensa. Não haveria problema.

Um problema é que talvez, como minha esposa teria afirmado, tal método não pudesse ser universalizável. Mas andei a pensar e notei que talvez a sua não-universalidade pode ser real, mas isso não garante que não seja realizável (ou utilizável). Pode ser não universal, mas poderia ser utilizável por muitos; desde que seu processo seja entendido. Mas ainda tenho dúvidas deste ponto e terei que analisar melhor. Poderia ser um processo individual com muitos indivíduos.

Seria mais uma forma que estaria relacionada com o contexto de criação de teorias, para analisar as possibilidades que pudermos vislumbrar.

Portanto não se trata de manter um juízo intacto. Mas sim de pensar criticamente sobre o que for possível, inclusive do próprio juízo de suspendê-lo. E isso não traduz nenhuma alienação, como afirmou Vanessa Meira (ou burrice, como disse ainda outro blog). É, de certa forma uma forma de pensar criticamente sobre o que nós temos de disponível e de evitar que aceitemos algo verdadeiro, só porque foi o dito ser verdadeiro. Se o que for dito verdadeiro for verdadeiro puder ser analisável por nossa investigação, então não há o que temer ao efetuarmos tal investigação.

E isso poderia evitar muitos (pré)juízos .

Arnaldo Vasconcellos