Início > Ciência, Epistemologia, Filosofia, Gerais > Pode uma teoria científica representar posicionamento religioso? (Série “Do que a ciência se preocupa” Parte 7#)

Pode uma teoria científica representar posicionamento religioso? (Série “Do que a ciência se preocupa” Parte 7#)

image_pdfimage_print

Ultimamente tenho lido diversos outros blogs. Pude constatar que existe, de uma certa maneira, a idéia que aceitar um determinado ramo da ciência, ou ainda uma determinada teoria, seria coadunar com certos preceitos religiosos (ou não-religioso),  valores (costumes) estabelecidos. É como se uma moral baseada num posicionamento religioso estivesse envolvido ao adotar uma teoria científica. Refleti por um tempo sobre o assunto e encontrei que, possívelmente, se trata de um grande equívoco.

Tomemos como exemplos duas teorias. A teoria do Big Bang e a teoria moderna da evolução. Para algumas pessoas, aceitar a teoria da evolução (ou do Big Bang), ou ainda trabalhar com ela é aceitar uma espécie de ateísmo.

Começo a pergunter-me o porquê destas afirmações. Aparentemente a resposta parece estar envolvida com o fato de que as teorias científicas em questão não estão associadas a preceitos religiosos determinados, ideiais de uma cosmovisão baseada em crenças determinadas. Desta feita para alguns adeptos religiosos aceitá-la é trair seu ideário religioso. E isso não convém para os mesmos que usam o argumento apresentado.

Levando em consideração as reflexões do artigo A garantia social da ciência (Série pseudociências – Parte 6#) parece que é atribuído, por parte dos que utilizam estes argumentos uma moralidade na teoria, como se a teoria carregasse consigo ideais puramente morais. Talvez este fato curioso tenha um mecanismo parecido com o da pseudociência, só de caráter contrário (visa a denegrir o funcionamento de uma determinada teoria, por não ser conveniente com alguma crença específica).

Vejam bem, não estou dizendo, ao longo do blog, que durante o desenvolvimento de uma teoria, que um indivíduo não deixe rastros de suas cosmovisões para desenvolvê-la. Isto pode ocorrer. Entretanto, refleti que isto é preferível não acontecer (ver os artigos “A suspensão do juízo como heurística” e “A heurística da suspensão é mais uma cosmovisão?“).  Tecnicamente o método científico deve ser usado para evitar tais processos de parcialidade (embora sempre possam ocorrer, os processos de parcialidade tendem a diminuir com um método rigoroso que funcione não somente com um ou outro indivíduo, mas com toda uma comunidade envolvida no processo científico).

Claro que a idéia de ciência tem consigo imagens tácitas do que é o mundo, e que elas possam ordenar a imagem de uma ciência específica. E uma questão que pode ocorrer disto é: se é imagem por imagem, porque não aceitar uma imagem tácita que aceite valores morais determinados? Esta questão já foi abordada num dos artigos supracitados, mas voltamos a falar dela pois é preciso explicitar que a questão é estruturalmente diferente (suspender juízos religiosos, morais, filosóficos e até mesmo científicos, dentro da possibilidade que o psicológico permitir; isso será uma possibilidade de criação de novas funções teóricas sem amarras do preconceito). Entretanto na estruturação de uma ciência existe uma imagem de ciência embasada numa imagem de natureza – funcionando num mecanismo girado pelo método.

O ponto é, se for eu fazer uma investigação, deverei evitar que minhas convicções (e no caso mencionado no título deste artigo seriam as convicções morais) venham a interferir num contexto de criação teórica (e que depois, se interferida, servirá de ponte num contexto de justificação).

Em outras palavras, a “heurística” proposta é para a livre criação de teorias.  Seria um equívoco aliar nossas convicções morais como forma investigativa de uma teoria (criação, reformulação), ainda mais tentar mantê-la num contexto de justificação.

Ora, uma imagem de natureza permite imagens de ciência. Assim o indivíduo que estiver praticando uma determinada ciência, participa de imagens de ciência que constituem um método determinado. E este, que por sua vez determina o escopo do que é estudado. Assim a heurística apresentada nos artigos, já citados, é para evitar que preceitos que não participem do escopo venham a retirar do processo investigativo o foco do que é estudado.

Enfim, uma ciência que trata de coisas naturais, deve portanto estar enfocada, nada mais coerentemente, com o que é natural. E o seu método é moldado para que funcione com esta classe de elementos epistemológicos (o que for naturalmente dado).

Desta feita, parece plausível que uma suspensão de juízos, dentro da possibilidade, evitaria choque do que eu poderia acreditar ser tomado como certo ou verdeiro, mas que chocaria no procedimento de “fazer uma determinada ciência”.

Por este motivo uma teoria científica, de ordem a tratar do natural, parece incompatível com teores religiosos ou teores ideológicos que não estejam em seu escopo simples, curto, mas profundo que é estudar algo de ordem natural e fenomenicamente detectável.

A questão é complexa, sim, e merece uma reflexão maior, mas durante esta minha reflexão, julgo que uma teoria científica, assim como um método que a define, são instrumentais para entender o mundo que estamos envolvido. Não estou afirmando que sejam os únicos meios, mas estou afirmando que, dentro do puzzle que uma determinada ciência pode representar, o que é funcional é aquilo que está alinhado ao seu método (e consequentemente à sua imagem primordial de natureza). Em outras palavras, a suspensão dos juízos seria até, se executada no máximo, onde o método enfoca pictoricamente a imagem de natureza que ele (método) pertence; este procedimento estaria relacionado, primariamente, ao contexto de criação, mesmo que sendo uma só etapa do processo criativo (o confronto com crenças pode até ser uma outra etapa do processo criativo; mas manter-se suspenso parece evitar que até este confronto nos faça pender para preceitos não aceitos pela imagem de natureza envolvido num método [e portanto passa a ser do contexto de justificação, secundariamente]). Fazer além do enfoque pictórico do método, durante a etapa criativa, já não seria totalmente científico, pois estaria fora do puzzle; poderia ser filosófico, talvez.

Assim, uma teoria que trate do início do universo observável, ou uma teoria que trate da origem e multiplicidade de espécies biológicas são maneiras, instrumentos, para explicar aquilo que nos é dado de forma fenomênica. É, portanto, uma forma de tratar coisas que são possíveis de predizer em aparição, fenomênica. E estes instrumentais estão relacionados a um mecanismo pictórico do método.

Então, uma teoria bem categorizada, podemos dizer, bem formada, dentro do método empregado, é um instrumento cujas características morais do indivíduo não são necessariamente empregadas para o funcionamento da mesma.

Não importa se quem está desenvolvendo teoricamente o big bang ou a teoria da evolução é ateu, teísta, deísta ou agnóstico. O que estará em jogo no puzzle do método são características que poderão gerar previsões, estas tais que poderão ser testadas sob a luz do método científico.

Para tentar elucidar mais, criei uma ilustração sobre as imagens de natureza e de ciência, frente a ampla cosmovisão contida pelo indivíduo que porventura possa estar envolvido com o trabalho de uma determinada teoria:

Imagens de Ciência x Imagens de Natureza x Cosmovisões latu sensu

Imagens de Ciência x Imagens de Natureza x Cosmovisões latu sensu

Portanto parece um equívoco quando encontro pessoas dizendo que se eu aceito a teoria da evolução estou aceitando preceitos, costumes, morais ateístas. A teoria é bem “seca” neste quesito. Tratar a existência de Deus não está em seu escopo – é algo sobrenatural, e portanto fora do escopo natural da ciência. É um equivoco dizer que um instrumental que não trabalha com estes termos é um maquinário ateísta.

Indivíduos diferentes podem fazer interpretações religiosas diferentes de uma teoria científica. Alguem que acredite em Deus pode pensar que a evolução é um meio divino de alterar as coisas. Uma outra pessoa pode achar que aceitar a evolução é sinal de ateísmo latente etc. Entretanto interpretações sobre a teoria não são a própria teoria. Por sermos humanos é possível que venhamos as vezes padecer destas interpretações, mas elas não representam o que é a teoria (o escopo das teorias científicas são restritos a uma determinada área de estudo).

Arnaldo Vasconcellos

Ciência, Epistemologia, Filosofia, Gerais , , , , , , , , ,

  1. Guilherme Schitz
    6, Junho, 2010 a 20:37 | #1

    Mto bom o texto. Parabéns!

  2. 3, Fevereiro, 2011 a 08:57 | #3

    Arnaldo:

    Sim, eu aceito que se pode racionalmente incorporar a teoria da evolução num teismo em que deus criou o processo evolutivo.

    Embora a teoria da evolução preveja o aparecimento de formas mais complexas a partir de outras mais simples, desde que passe o tempo suficiente.

    Isto enfraquece muito o argumento teista de precisarmos de uma justificação para a aparente organisação do cosmos, quanto mais de esta ter de ser logo com a potencia máxima “deus”.

    Naturalmente que pode haver uma realidade para além da cientifica. Ainda não sabemos tudo. Mas não há outra maneira de o saber. (adivinhação? )

    …Continua lá no post do ensaio sobre o incomunicavel

    • 4, Fevereiro, 2011 a 13:55 | #4

      Olá João,

      Respondi primeiro lá… rsrs.
      Enfim, não se trata de advinhação. É como eu disse lá no seu blog “É suspender o juízo de afirmar sua real existência e apenas trabalhar com as hipóteses, SE existir ou SE não existir”.

      De qualquer forma se fortalece ou enfraquece o argumento teísta é um tema para uma investigação da filosofia da religião e que não estou totalmente a par.

      Entretanto, mesmo o evolucionismo podendo ser encaixado numa visão teísta, eu argumento que ela é independente de qualquer visão religiosa, seja teísta ou atéista (qualquer uma mesmo, até ao agnóstico). Pois não será este o seu objetivo.

      Por isso a crítica a alguns blogs, principalmente aqueles criacionistas que vivem batendo na tecla dizendo que o evolucionismo é um instrumento e estratagema de ateístas e que se eu der crédito ao evolucionista logo deverei pertencer ao grupo lógico dos ateus… Claramente esta argumentação que alguns (não são todos) criacionistas usam é puramente retórica e falaciosa.

      Até mais,

      Arnaldo.

  1. 31, Agosto, 2010 a 17:42 | #1