Início > Ética, Filosofia, Gerais, Natureza > Exploração Animal e o vegetarianismo

Exploração Animal e o vegetarianismo

image_pdfimage_print

Desde pequeno sempre gostei muito de animais. Sempre me considerei uma pessoa que não os odeia, nem que os querem incomodar; mas nos últimos tempos deparei-me com questões a respeito da exploração animal.

Como carne, ou pelo menos como uma quantidade reduzida frente a diversas pessoas que conheço, mas não sou vegetariano. Pelo menos atualmente, ainda não.

Certas vezes nos deparamos com os paradoxos humanos, e a exploração animal é mais um de nossos terríveis paradoxos incluídos na nossa “humanidade”: amamos diversos animais, mas fazemos mal, rechaçamos suas autonomias como seres vivos com sentidos e reações.

Minha esposa é vegetariana, e extremamente consciente. Tenho uma ótima amiga que também é vegetariana. As atitudes das mesmas são plenamente condizentes com aqueles que se dizem amarem os animais e não adeptos da exploração animal. E eu? Como carne de vez em quando, mas não tenho uma predileção muito grande por isso. Será que sou condizente com o que penso (que a exploração animal é absurda e cruel)?

Ora, este assunto tem-me incomodado. Isso é bom, não é de nenhum modo ruim que este assunto me ocupe a cabeça. Mas, estou preparado para apenas viver de vegetais? (não que seja monótono, pois o que como hoje já é maioria vegetais e sei que existe uma diversidade grande no cardápio; mas estaria, eu, pronto para largar outros derivados, como o leite?) Os argumentos de alguns vegetarianos, de que não somos onívoros parece um tanto precário (existem diversos vegetarianos que argumentam que somos herbívoros natos e que deveríamos apenas ser isto; são um pouco exagerados, embora possa ter algum punhado de razão).

O que acho? Somos onívoros, não por natureza imutável. Talvez, na escala evolutiva, ser onívoro foi algo muito bom para progredirmos. Não somos nem carnívoros natos, nem herbívoros. Creio que podemos escolher, desde que evoluímos para esta condição de onívoro a escolha foi possível. Creio que a pergunta certa seria: agora, do jeito em que vivemos, ser onívoro é bom?

Sabemos o excesso de carne contribui para problemas cardíacos. Também sabemos que uma vida plenamente vegetariana é cara e nem todos podem viver ainda deste modo; embora esta última afirmação seja baseada na forma em que nosso mercado se constrói (é comprovado que “produzir” vegetais para alimentação per capta pode ser mais barata do que “produzir” carne; coloco em aspas, pois não gosto muito da palavra “produzir” em relação a estes seres, mas é assim que acabamos por tratar dentro do mercado).

Comer carne, dentro do ponto de vista puramente da saúde pode ser prejudicial? Sim, e os excessos nos matam. Posso comer carne de forma saudável? Sim, em poucas quantidades, recomendam nutricionistas.

Agora outra pergunta: É necessário comer carne? Somos onívoros e não herbívoros (muito menos carnívoros). Isto significa que POSSO ESCOLHER comer apenas vegetal. Posso. Meu corpo pode. Se os argumentos de que somos estritamente herbívoros fossem corretos, poderíamos morrer com um único pedaço de carne ingerida. O status de onívoro me garante o fato de poder escolher SER VEGETARIANO.

Mas, voltanto ao assunto central: E se eu não escolher ser vegetariano? Se eu não me sentir preparado, poderei ainda assim ser coerente contra a exploração animal?

A exploração animal é o uso massivo e extremamente abusivo dos animais: precisamos deles para tudo e vivemos embrenhados numa dependência única. É uma escravidão o que fazemos com os animais, com a diferença que comemos os escravos no final.

Existem pessoas, que, orgulhando-se, maltratam animais para se divertirem. Algumas pessoas caçam, outras machucam lentamente. É terrível saber que agentes de coleta de lixo (vulgarmente chamados de lixeiros) podem jogar um cachorro dentro de um caminhão de lixo com compartimento compactador, só para se divertirem com os gritos do cão sendo esmagado pelo artefato humano.

É terrível saber que milhares de frangos que nascem mal-formados (por culpa de nossos produtos químicos para que crescam rapidamente) são triturados vivos e feitos de ração para os que são mais bonitos. É igualmente horrível descobrir que usam substâncias para deixá-los mais amarelos, como o formol. É um abuso enorme o tráfico de animais, e as modificações que fazem em pássaros comuns para vendê-los como animais raros.

É inacreditável o que se faz para se conseguir um fígado distendido para preparar um patê foie gras.

Isto, meus caros, é a exploração animal.

E eu aqui. Em pleno final de semana. Trabalhando, tenho de comprar comida. Praticamente qualquer loja que compro tem carne incluída. É difícil evitar os caminhos da exploração animal, mas não é impossível (com um pouco de coerência e força de vontade, podemos fazer isto).

Agora, outra pergunta: Se eu criar um frango em casa, com uma vida tranqüila, bem melhor do que a dos frangos de granja, e um dia abatê-lo: isto é exploração animal? Posso comê-lo sem a culpa adicional de tê-lo explorado?

Se posso escolher ser ou não vegetariano, possuo a prerrogativa de escolher outras coisas neste âmbito; como escolher a procedência do que vou comer e daquelas irei boicotar por serem frutos de exploração. Acha impossível? Mas é o que, justamente, fazemos se encontramos gasolina em cartel, gorduras trans em alimentos, sojas transgênicas. Porque, então, escolher a procedência da carne dá tanta preguiça? É claro que podemos REDUZIR nossa cota de carne e VERIFICAR a PROCEDÊNCIA desta mesma. Não é impossível, apesar de ser difícil por causa do modo em que a nossa sociedade se organiza. Se comerçarmos logo, rapidamente empresas irão também se adaptar a nós – o que devemos fazer é começar.

Se posso escolher ou não comer carne, posso, antes disso, escolher de onde vem o que vou comer. É uma prerrogativa simples.

Posso ser contra exploração animal e mesmo assim ser RIGOROSAMENTE um cosnciente boicotador de carnes, lojas, marcas que sejam produto de exploração animal.

A acusação apelativa “ou você pára definitivamente de comer, ou gosta da exploração animal” não é verdadeira. É uma falácia em que nos é imposta a condição de um “OU” exclusivo, uma dicotomia que não é real. Afinal, muitos ecologistas ainda usam combustíveis fósseis e nem por isto deixam de ser contra a redução de carbono. Devemos estar aptos a perceber que não podemos reduzir qualquer argumento a dicotomias exclusivas.

Podemos reduzir nossa emissão de carbono, podemos diminuir o uso de combustíveis fósseis. Podemos reduzir o consumo da carne e de produtos (xampus, sabonetes etc) frutos de exploração animal. Podemos mostrar que matar um gato a pauladas não é nada interessante.

Não preciso ser, necessariamente, vegetariano para ser contra a exploração animal, mas preciso ser CONSCIENTE quanto for consumir o que provenha de animais. Sei que é um tanto subjetivo o quanto consumir, mas boicotar empresas que exploram animais é bem mais fácil.

Lógico, que o mais coerente possível, é deixarmos combustíveis fósseis de lado, não poluírmos mais o meio ambiente e, no âmbito dos animais, deixarmos de comê-los. Assim, assumo que quem é vegetariano pode ser PLENAMENTE coerente com a idéia de ser contra a exploração animal (não sou contra o vegetarianismo).

Entretanto, o que proponho é que podemos consumir, pouco, sem sermos contraditórios: desde que a cada vez que consumirmos nos demos conta de onde vem, qual o método utilizado para chegar a esta forma, não acreditar em anúncios em que girafinhas felizes anúnciam carnes (girafas não comem carne!) ou que porquinhos adorem doar suas costelas.

Ser onívoro é escolher. Se podemos escolher ser vegetarianos, podemos antes escolher “se” comer ou não. É um pressuposto. Pressuposto este que pode ser aplicado.

É lógico que se eu me tornar vegetariano, serei plenamente coerente contra a idéia da exploração; mas enquanto não consigo fazer de uma vez (se eu chegar a tornar) posso ser coerente, como alguém com consciência do que escolhe e da origem. Boicotar não é sinal de fraqueza, mas sim de reconhecer que eu poderia me frustrar ao tentar de uma vez. Tenho meu rítmo.

O mundo precisa de pessoas conscientes de suas escolhas. Isto se aplica àqueles que nunca querem deixar de comer carne, àqueles que reduzem sua cota de carne e buscam saber qual a procedência de seus derivados, e, claro, àqueles que são vegetarianos – precisamos, definitivamente de pessoas com argumentos racionais. Acho que o vegetarianismo é uma medida muito nobre, seja por saúde própria, ou contra o que acontece com os animais: e esta medida tão nobre precisa de pessoas que tenham argumentos muito fortes, de seus ideiais.

Arnaldo Vasconcellos

Ética, Filosofia, Gerais, Natureza , , ,

  1. 5, Abril, 2009 a 15:21 | #1

    Arnaldo, é interessante como você escreveu um texto repleto de argumentos coerentes mas ao mesmo tempo algumas (poucas) tentativas de justificar sua opção por seguir comendo carne, ainda que seja, como mencionou, em pouca quantidade.

    Gostaria que considerasse uma correção: a exploração animal pode ser exercida sobre o indivíduo e não somente em casos de incidência massiva como citou.

    Discordo quando você diz que é possível ser coerente alguém que está em contra a exploração e maltrato animal e ainda assim consome carne em alguma quantidade: os animais devem ser vistos como indivíduos e não como uma massa de elementos onde se pode extrair uma fração e manter-la viva. Quando você come um pedaço de carne um animal morreu para que isso acontecesse e sim, há responsabilidade nisso.

    A produção de carne “orgânica”, referida por alguns defensores como alternativa no fim acaba no mesmo mal: a morte. Em seu texto há exatamente essa conclusão por isso acredito que já tenhas idéias muito claras e te falte apenas algum insight para tornar-se vegano que me parece que virá naturalmente, apenas desejo que seja logo pois muitas vidas serão poupadas por sua parte.

    Todos temos que fazer alguns sacrifícios por determinadas opiniões que defendemos, assim é com questões familiares, econômicas, sexistas ou de saúde. No que se refere ao respeito a vida de outros animais não será diferente: você deve decidir se acha coerente matar um animal apenas pelo prazer que pode proporcionar na sua boca.

    Parabéns pelo texto e pelas reflexões.

    • 29, Outubro, 2009 a 16:55 | #2

      Agradeço a leitura do post, bem como seus comentários.

      Creio que sejam relevantes. Terei uma atenção especial no seu contra-argumento sobre a “carne-orgânica”.

      Concordo quanto aos sacrifícios que temos que fazer para defesa e coerência com nossos ideais. Prestarei bastante atenção aos seus contra-argumetos. Não tenho uma conclusão definitiva a respeito e espero escrever mais sobre o assunto.

      Abraços,

      Arnaldo.

  2. 22, Fevereiro, 2010 a 16:50 | #3

    Olá, Arnaldo!

    Estou escrevendo uma série de textos em meu blog, nos quais tento explicar a concatenação de raciocínios que me levou a concluir que a única escolha coerente com o que acredito é o veganismo.
    Se interessar, vai lá: http://inspira-acao.blogspot.com

    Abraços

    • 22, Fevereiro, 2010 a 22:13 | #4

      Olá Oksana,

      Interesso-me sim. Pode deixar que irei ao seu blog ler seus artigos.
      Obrigado pelo comentário.
      Sinta-se a vontade em comentar.

      Abraços,

      Arnaldo Vasconcellos.

  3. Maria
    6, Março, 2010 a 09:16 | #5

    Gostei das suas análises, sou bióloga, e acredito que somos onívoros sim por natureza, como nossos primos simios, o consumo ocasional de carne só nos favorece. O cuidado com o bem estar dos animais é fundamental para nossa consciência e sensibilidade, o respeito pelo ser vivo deve ser integral, tanto pelos animais, como vegetais, fungos etc.
    Deixo duas questões para análise: Se todos os seres humanos da face da terra se tornassem vegans o que ocorreria com o meio ambiente, os animais selvagens, plantas e todo o complexo ecossistema do planeta, teríamos condições de alimentar todos, haja vista, que os vegetais fornecem menos calorias que um bife. Teríamos o mesmo respeito pelos animais silvestres quando teríamos que aumentar as áreas cultivadas?

    Segundo, o que os vegans pensam sobre as plantas carnívoras? Ou insetos não merecem nosso respeito?

    Abraço.

    • 7, Março, 2010 a 02:18 | #6

      Olá Maria!

      Obrigado pelos seus comentários.
      É, advogo que o consumo da carne ocasional não é problemática. Tenho lido os argumentos dos veganos a respeito da não-massividade dos indivíduos (como o exposto pelo sr Jonas em comentário anterior), e ainda estou pensando a respeito; embora atualmente ainda considere que a escolha da decisão de consumo consciente de carne e suas origens (reduzindo a conta e verificando a procedência do local [e como este trata os animais]) é uma escolha coerente e válida.

      Você diz:
      “Deixo duas questões para análise: Se todos os seres humanos da face da terra se tornassem vegans o que ocorreria com o meio ambiente, os animais selvagens, plantas e todo o complexo ecossistema do planeta, teríamos condições de alimentar todos, haja vista, que os vegetais fornecem menos calorias que um bife. Teríamos o mesmo respeito pelos animais silvestres quando teríamos que aumentar as áreas cultivadas?”

      – Bem, o argumento dos vegetarianos, e não só dos veganos, é que a área útil de cultivo na verdade diminuiria, ao invés das longas áreas desmatadas para pasto. Portanto eles dizem que aconteceria é justamente o contrário. Apesar disto não tenho dados concretos para afirmar se de fato isso diminuiria ou aumentaria a área de natureza devastada para alimentar toda a população da Terra.

      Você disse:
      “Segundo, o que os vegans pensam sobre as plantas carnívoras? Ou insetos não merecem nosso respeito?”

      – Eu não sei o que eles pensam acerca disto. Plantas carnívoras agem por instinto capturando insetos para fazerem uma espécie de “adubo” (não seria bem “comer” no sentido estrito da palavra) e paralelamente animais carnívoros comem carne por que sua natureza digestiva está assim equiparada e é de seus instintos. Agora isso é uma questão estruturalmente diferente da que eu propus no artigo, sobre a coerencia contra a exploração animal, mesmo consumindo carne.

      Muito obrigado por seus comentários,

      Arnaldo.

  1. Ainda sem nenhum trackback.