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Vida “artificial” e suas possibilidades éticas

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Neste dia último dia 21, nos noticiários do mundo correu o anúncio do desenvolvimento de uma célula sintética. Logo um alvorosso sobre o impacto do desenvolvimento desta experiência surgiu: alguns noticiaram como o surgimento de vida artificial, outros já rebateram que não é necessariamente a criação de vida artificial e sim criação de uma molécula sintética (no caso o DNA) com efeitos fenotípicos na célula hospedeira (ver este link e este).

Tão logo a experiência foi divulgada as primeiras repercussões das possibilidades éticas começaram a surgir. O Vaticano se pronunciou e apresentou preocupação com estas mesmas possibilidades (ver link). Entretanto as possibilidades éticas vislumbradas pelo clero está mais relacionada com o impacto religioso que isso pode causar, e a interpretação logo perpassa o tom comum do “brincar de Deus”, pois além do viés ético há o viés teológico envolvido na interpretação do mesmo.

Como já comentamos em outros artigos neste blog (ver link), o desenvolvimento científico não é necessariamente algo bom ou ruim, por si mesmos, mas a sua aplicação é que pode ser determinada dentro de um esquema polarizado, entre bem e mal, por exemplo.

O desenvolvimento de uma célula ‘sintética’, salva todas as discussões tecnicas relativas à biologia, envolvidas neste experimento (se é vida artificial ou não, se é uso de vida com moléculas sintetizadas), não é por si mesma boa ou má. A sua aplicação – se serão produzidas armas biológicas poderosíssimas, ou se bactérias que possibilitarão o desenvolvimento de remédios – é sim aplicação que podem ter análises, de uma forma ou de outra, polarizadas.

Analisar as possibilidades éticas de experiências como estas não é algo sem importância. Todo ato humano, inclusive as pesquisas científicas, são sujeitas a liberarem novas possibilidades, sejam construtivas ou destrutivas. Confortantes ou alarmantes. E de toda forma são fascinantes.

A filosofia ética é então uma ferramenta muito útil, principalmente num mundo em que muito se fala das possibilidades e ao mesmo tempo a reflexão sobre as mesmas começa-se a caducar, a viciar-se em certas opiniões idiossincráticas ou cosmovisões pop.

Para que um feito de tamanha importância seja usada como artefato de discursos religiosos, ou ainda de discursos tecnocráticos é um passo. Passo menor ainda é que a irracionalidade nos faça a pender a pensamentos viciosos de teorias conspiratórias ou congêneres. Interpretações fora do escopo da pesquisa original, bem como interpretações tendenciosas são quase que esperadas (como possíveis interpretações ampliadas e forçadas a favor de um  design inteligente ou ainda uma interpretação como se fosse prova cabal de inexistência divina [1]); no entanto é necessário refletir sobre as possibilidades éticas deste e de outros ramos da ciência, respeitando o escopo do estudo das mesmas. Não que questões como estas últimas (fora do escopo da experiência) devam ser evitadas (elas são possíveis e abrem um novo leque no pensar de algumas de nossas inquietudes, no entanto não são a única instância reflexiva), mas que estes tipos devam ser claramente identificado como possíbilidades de interpretação e não como necessariamente significados prepoderantes dos procedimentos técnicos – mas este é outro ponto, que não irei abordar neste artigo [2].

O que quero realmente abordar aqui é em relação aos efeitos de aplicações que girem em torno destas técnicas. Refletir sobre tais efeitos de forma consciente e respeitando todas as possibilidades éticas envolvidas, sem a necessidade de cairmos em deturpações do real efeito da técnica envolvida (ver este link).

Lógico que não precisa ser filósofo para discutir as possibilidades éticas de tais experimentos; mas parece-me tão claro quanto é precioso, e tão fundamental, é o ramo da ética (e o sub-ramo da bioética). Verificar e pensar sobre as condutas e suas relevâncias para com o outro é muito importante, mesmo que para a criação de normas que norteiam as próprias experiências, ou mesmo para refletirmos sobre o futuro e o presente de um mundo que nos cerca, com as prováveis aplicações que surgirão (e até mesmo das possíveis interpretações) a partir desta e de outras técnicas já existentes (seja a clonagem, os transgênicos etc).

Arnaldo Vasconcellos

Notas

[1] – Não falei isto a esmo. A indagação foi trazida da seguinte forma no G1, já citado, e que representa formas de algumas pessoas a reagirem com a notícia:

O Vaticano demonstrou preocupação de que os cientistas desejem “brincar de Deus”. O dilema é: as bactérias sintéticas são prova definitiva de que a vida não precisa de uma força especial ou, pelo contrário, darão fôlego aos simpatizantes do Design Inteligente? Afinal de contas, o trabalho em questão pode ser também chamado de “ciência da criação 1.0”.

Representa aqui formas de pensar de algumas pessoas, frente ao estardalhaço jornalístico.

[2] – O que eu quis dizer basicamente neste trecho é que  existem muitas discussões fora do escopo da pesquisa que ambicionam ser interpretações cabais sobre o desdobramento que estas experiências podem oferecer (interpretações religiosas, filosóficas ou ainda mesmo ideológicas). O que deve ficar claro é que são desdobramentos a partir de pontos específicos. Eu citei isto porque não é incomum o uso indevido de casos como estes em certos argumentos que necessitam de interpretações da experiência (ou técnica) fora do escopo científico da mesma para tentar comprovar o próprio argumento (que por vezes pode até ser pseudocientífico). Mas este não é o foco deste artigo.

Já a reflexão ética, embora seja um desdobramento a respeito das mesmas experiências, é algo relacionado com as possibilidades de suas aplicações em relação às nossas condutas.

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