Palestra sobre a comunicabilidade molecular bacteriana

Ou como as bactérias falam…

Este vídeo explica de forma muitíssimo interessante sobre como as bactérias podem se comunicar quimicamente e sobre a estratégia de novos antibióticos.

Muito interessante. Com legendas em diversos idiomas.  Pode escolher o português no botão “view subtitles”. Ví o vídeo originalmente no blog “Ciências da Natureza – AL“.

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Muito bom mesmo! Vale a pena assistir e compartilhar este vídeo.

Arnaldo Vasconcellos




O que é então o criacionismo?

A Criação de Adão - Afresco de Michelangelo Buonarroti - Capela Sistina

A Criação de Adão - Afresco de Michelangelo Buonarroti - Capela Sistina

Este artigo é uma resposta ao: “o que o criacionismo não é?” (1).

Durante conversas com um colega, foi feita a sugestão que eu fizesse uma leitura do referido artigo de Michelson. A leitura serviria como uma permuta de análise de artigos.

O artigo O que o criacionismo não é, escrito por Michelson Borges, estabelece que no ano de Darwin (2009) a teoria da evolução estaria sofrendo ataques, alguns bem fundamentados e outros não. Embora não exponha largamente no artigo quais seriam todas as supostas críticas bem fundamentadas ao evolucionismo  – o foco do artigo não é falar sobre evolucionismo, mas sobre o que o criacionismo não pode ser considerado. O autor diz o seguinte:

Todos sairiam ganhando se se deixassem de lado motivações ideológicas e fossem verificados – sob o melhor rigor científico – os fatos e em que aspectos eles favorecem esse ou aquele modelo. (Borges, M. In: o que o criacionismo não é?)

Concordando com suas palavras acerca da suspensão dos valores ideológicos, efetuando uma espécie de suspensão aos meus valores creditados tentarei ser o mais analítico possível quanto ao artigo e alguns comentários acerca do mesmo.

O autor do artigo, logo deixa claro qual será sua abordagem. Irá mostrar o que, supostamente, o criacionismo não é:

Por isso, é necessário desfazer alguns mal entendidos repetidos por gente que adora uma boa polêmica. Eis alguns deles: (idem)

O autor, portanto inicia suas explicações, clareando melhor acerca do que não é criacionismo, sob sua visão.

Coloco que é sob sua visão pois lendo com cuidado notei que certas explicações não são totalmente eficazes para salvar o criacionismo como teoria plenamente científica. De um âmbito geral o artigo é bem escrito, tem um espírito que não me parece enganatório, pois parece esclarecer sobre o criacionismo, mas efetivamente está envolto numa visão de mundo determinado.

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O autor lista alguns mal entendidos sobre o criacionismo (segundo o mesmo) e esclarece sobre cada um. O primeiro deles é o que diz que o “criacionismo é anticientífico”. Acompanhe as palavras de Michelson:

Para Earl Aagaard, professor de Biologia da Universidade Adventista do Sul, em Collegedale, Tennessee, EUA, a fonte de discórdia reside em especulação histórica. “Os cristãos em geral, e os adventistas em particular, têm muito pouca dificuldade com os resultados empíricos da ciência”, diz Aagaard. “As disputas (…) se manifestam no lado histórico das coisas – em Arqueologia, Paleontologia, Geologia, etc., onde o procedimento consiste em coligir dados e então narrar uma história para explicá-los.” (Idem)

Neste trecho o autor cita Earl Aagaard e existe uma clara intenção em deixar a discussão como apenas possibilidades interpretativas do problema, pois nesta citação fica clara que o problema é como coligir os dados e tratá-los historicamente.

Em seguida o autor cita outro senhor, Nahor Neves que teria criado um resumo esquemático das seguintes áreas: evolucionismo, criacionismo e design inteligente (mais a frente questiono a extração do design inteligente como algo não criacionista).

O trecho é este:

Nahor Neves de Souza Jr. é geólogo e doutor em engenharia pela USP. Como professor e pesquisador universitário, nos últimos 26 anos (metade deles dedicados ao ensino e à pesquisa em duas conceituadas universidades, USP e Unesp), ele tem procurado conhecer em profundidade os três modelos principais: evolucionismo, criacionismo e a teoria do design inteligente. Esse estudo específico e comparativo o induziu a buscar definições mais precisas e epistemologicamente mais corretas para os modelos em questão. Ele elaborou um esquema bastante sintético, mas esclarecedor, a respeito dos três paradigmas:

Evolucionismo = conhecimento científico + naturalismo filosófico
Criacionismo = conhecimento científico + teologia bíblica
Design inteligente = conhecimento científico + argumento teleológico (idem)

Ora, a primeira coisa que saltou-me às vistas neste esquema é a sua simplificação.  Outro fato patente é de utilizar para os três a seguinte fórmula: “conhecimento científico + x”. Conhecimento científico é tratado neste esquema como uma constante. É estranho, pois o autor trata que cada tema (evolucionismo, criacionismo) como paradigmas, mas parece esquecer que “paradigma” orienta também, na visão do filósofo Thomas Kuhn (um dos resposáveis pela inserção to verbete paradigma em teoria da ciência) o que neste esquema é tratado como “conhecimento científico”.

O que seria então este conhecimento científico que o sr. Nahor Neves diz e Michelson endossa? O que então orientaria algo a ser “científico”?

Portanto, para o autor parece ficar claro que o evolucionismo, criacionismo etc não são teorias científicas, pois seriam teorias com um suposto cunho metafísico somado a conteúdos científicos (NOTA: Embora o conteúdo científico seja baseado em paradigmas, segundo Kuhn, e portanto tenha imagens tácitas de natureza e ciência, como abordamos em outros artigos, essas orientam o método seja em ontologias ou epistemologias tácitas; já no esquema apresentado parece existir uma constante ‘conhecimento científico’ somado a uma metafísica, o que não é sinônimo das imagens tácitas por um simples motivo: as imagens de natureza/ciência, embora de cunho “metafísico”, orientam já o que é conhecimento científico e determinam o seu método; assim a fórmula não seria uma soma de constante “conhecimento científico” + concepção ‘metafísica’. Este seria um erro estrutural da formulação apresentada). Podemos notar mais claramente esta posição do autor, de que não são teorias científicas, no seguinte parágrafo:

Esse esquema ajuda a compreender que os três modelos têm um componente científico e outro metafísico. Segundo Nahor, “qualquer paradigma que busca compreender eventos pretéritos únicos e irreproduzíveis (cientificamente não testáveis ou não falseáveis), utilizará, necessariamente, argumentos científicos e metafísicos na construção de modelos. Ou seja, os três paradigmas considerados [existem outros, como o criacionismo islâmico, o criacionismo progressivo, o evolucionismo panteísta, o evolucionismo teísta, etc.] podem, genericamente, ser assim definidos: uma associação entre conhecimentos científicos e conhecimentos metafísicos. Portanto, nenhum desses paradigmas (ou estruturas conceituais) deveria ser traduzido como uma teoria científica (ou seja, um conjunto conciso de afirmações que explicam um conjunto abrangente de fenômenos, na definição do físico Urias Takatohi). Da mesma forma, o evolucionismo não deveria ser confundido com filosofia (ou naturalismo filosófico), bem como o criacionismo não seria sinônimo de religião (ou conhecimento bíblico)”.(Idem). [Grifo meu].

Entretanto, neste mesmo parágrafo o argumento que retira o caráter de teoria científica aos três elementos apresentados, é utilizado para, sutilmente, tentar retirar o criacionismo do sinônimo de religião.

A observação esquemática é interessante, mas é preciso deixar mais claro: afinal o evolucionismo é científico ou não para o autor? E os outros temas como o design inteligente e o criacionismo, são científicos ou participam do mesmo critério do autor?

Algo interessante para se salientar é que a citação dada do físico Urias Takatohi que teoria científica seria “um conjunto conciso de afirmações que explicam um conjunto abrangente de fenômenos” que poderia ser classificada, sob a mesma ótica do esquema, como algo “naturalista”. Pelo menos no contexto empregado é apenas isso que podemos extrair desta frase. O mesmo pode-se dizer das palavras de Nahor, pois para este ao analisar eventos pretéritos, impossíeis, para ele, de serem testados (e neste ponto pode-se entrar um outro problema relacionado ao binômio testabilidade/observação) é, na melhor das hipóteses uma postura com uma imagem de natureza tácita naturenaturalista, pois a testabilidade e a observação compreendem testes/observações de elementos presentes e/ou explicáveis numa dada natureza. Mas neste ponto é que mora a questão: Michelson disse que nenhum dos “paradigmas” apresentados podem ser concebidos como uma teoria científica dentro dessa definição de teoria científica. Ora se a definição apresentada de teoria científica é empregada de uma forma naturalista (no sentido que a natureza será explicada por base em processos naturais ) como que uma fórmula do tipo “conhecimento científico + naturalismo filosófico” não pode ser empregado como ciência? O evolucionismo não se propõe a explicar um fenômeno (origem das espécies) ou um conjunto deles? Sim, o evolucionismo explica com bases naturais o surgimento das espécies. Entendam que estou enfatizando que se formos utilizar o esquema apresentado e o crivo do que é “teoria científica” apresentada no artigo de Michelson podemos sim considerar o evolucionismo uma teoria científica. Se certa ou errada é outra análise.

Para deixar ainda um pouco melhor a discussão, sugiro a leitura do verbete “Naturalismo” no Dicionário de Filosofia, de Ferráter Mora. Lá é possível encontrar a definição lato sensu (palavra, inclusive, de múltiplas sutilezas de definições):

(…) atitude filosófica, ou a doutrina filosófica, (…), que avaliam ser a Natureza e as coisas que nela há as únicas realidades existentes. (…) [NOTA: o link não possui o livro completo. Favor ver livro físico].

Mas também é possível encontrar explicações sobre pseudonaturalismo etc. Portanto para fins de estudo nos deteremos na definição lato sensu e suas variações (embora a discussão ao tema seja interessantíssima, o suficiente para desmascarar a igualdade que alguns criacionistas põem entre naturalismo, materialismo e ateísmo, dentre outras coisas – mas isto é campo para outro possível artigo).

Voltando aos outros “paradigmas” que Michelson cita en passant, como o evolucionismo teísta ou o panteísta, percebemos que não são abordados no esquema. Mas imagino que o evolucionismo panteísta seria na dada formúla “conhecimento científico + naturalismo filosófico + panteísmo”. Ou ainda o teísta “conhecimento científico + naturalismo filosófico + teísmo”. Talvez nestes esquemas não devem ficar claro que existem pontos que devem ser apagados ao unirmos mais de um destes elementos (até porque um evolucionista teísta deveria excluir alguns preceitos do suposto naturalismo; se formos seguir a lógica de que estes paradigmas são todos enquadrados numa mesma categoria).

Aparentemente a classificação do esquema é muito simplista e como abordado no parágrafo anterior não deixam claro se com a soma de “paradigmas” podem haver perdas de características entre si ou se todas são somas pura e simplesmente.

A simplicidade do esquema a meu ver esconde uma riqueza muito maior. Faço a seguinte divisão que é um tanto instrumentalista, mas creio funcionar bem: teorias científicas são instrumentos. Se eu sou um cientista que utiliza o evolucionismo e contribuo descrevendo comparações entre proteínas de diversas espécies estou publicando e trabalhando sobre a teoria científica, que é o evolucionismo moderno, estou aperfeiçoando o cabedal instrumental que a teoria representa para enterdermos a natureza. Entretanto se debruço sobre essa teoria e analiso filosoficamente sobre a possibilidade de que uma crença específica (no caso poderia estar a me referir na crença em Deus) estar relacionada com a teoria não é necessariamente uma teoria científica – isto significa que seu eu sou um evolucionista e decido tomar uma posição chamada de “evolucionismo teísta”, aceitando que a evolução não exclui a minha crença em Deus, eu não estou praticando ciência (e nem aperfeiçoando a teoria da evolução), mas sim estarei aceitando e praticando uma posição metafísica, de como encaro os magistérios da ciência que pratico para com os da religião que posso vir a acreditar. Deixa explicar melhor: se um dado cientista que publica seria e regularmente artigos evolucionistas tratando do ponto em que a aleatoriedade é ponto possível para engendrar multiplicidade em espécies, este está trabalhando com uma teoria científica. Agora se o mesmo acredita em Deus e acredita que a aleatoriedade pode ser “instrumento” de Deus executar tal feito está fazendo um uso instrumental da teoria científica com base em sua crença. Este último seria considerado um pensamento evolucionista teísta, mas nem por isso seria ciência – o escopo destas duas são diferentes.

Imaginemos outro caso. Estevão é um cientista. É físico. Trabalha com a teoria de multiplas dimensões. Se em seu íntimo acredita que outras dimensões podem ser habitadas por anjos, não é esta última crença uma teoria científica – não é falseável e não é coerente com outras instâncias falseáveis. Humanos podem fazer ciência e podem facilmente pensar sobre ciência utilizando seus produtos juntamente com suas crenças de forma, isso porque nós humanos possuímos uma capacidade concatenadora de idéias muito grante (que nem sempre corresponderão necessariamente à realidade, entretanto é uma característica muito peculiar).

A teoria é mais um produto científico e portanto analiso que os “paradigmas” citados por Michelson não são realmente teorias científicas, pois não são falseáveis, mas o crivo usado por Michelson do que é teoria científica parece não se aplicar ao evolucionismo, ou o esquema falha brutalmente. O evolucionismo é teoria, mas também pode ser usado como um “paradigma” que orienta pensamentos e conclusões filosóficas (em lato sensu, conforme a capacidade concatenadora que afirme acima, e isto pode acontecer em qualquer teoria). Entendam, pode ser usado. Toda teoria científica pode ser usada; em última instância quero afirmar que são usáveis. O fato de que podemos usar como paradigma de nossas conclusões não demonstra que seja a melhor forma de fazer uso. Não é incomum muitas deturpações aos usos deste tipo (inclusive o surgimento de pseudociências com este tipo de uso), mas também é interessante a multiplicidade de idéias que se podem surgir com tal ato. Entretanto não podemos confundir uma coisa com outra. É necessário deixar as coisas claras neste âmbito.

Da mesma forma uma crítica endereçada a um paradigma desses não é uma crítica direta a uma teoria científica. É no máximo uma crítica externa à teoria. Criticar um ideal evolucionista panteísta é em última análise criticar a própria idéia de panteísmo orientada por uma visão evolucionista. Não é aplicável à teoria da evolução em si. Teorias científicas devem ser criticadas a nível de teoria (e este é um ponto que repito muito em minhas conversas).

Inclusive ideiais que usam teorias científicas são muitos e profusivos: um ideal de evolucionismo teísta poderia incorporar facilmente ideais de design inteligente e criacionistas (se considerar que a aleatoriedade pode ser um instrumental de uma inteligência seja exterior ou interior – no caso do panteísmo), e este fato não faz com que o evolucionismo teísta (ou o panteísta) seja mais teoria científica do que o criacionismo: ambos são interpretações de fé.

Entretanto Michelson parece saber disso, acima citado (que teorias devem ser criticadas a nível de teoria); coisa que pode ser esclarecida na seguinte passagem:

O “ano de Darwin” ainda promete muita discussão mal focalizada. Os mal entendidos continuarão sendo impressos e veiculados por parte de pessoas que recusam se enfronhar no âmago da questão. Que os criacionistas não repitam esse erro. Grande parte deles não conhece muita coisa sobre as teorias evolucionistas e tenta combatê-las, o que torna normalmente seus argumentos frouxos e falaciosos. [Grifo meu].

Mas, voltando às classes de paradigmas, até então Michelson não deixa claro se aplica a todas as classes, como paradigmas de idéias ou se são realmente ciência. Apesar de sabiamente indicar que uma crítica deva ser a nível de teoria (como eu muito falo nos blogs que visito) o autor não deixa claro sua posição aos supostos paradigmas apresentados (se todos não podem ser teoria científica, ou se uma ou outra o é.

O fixismo

Em seguida no artigo, o autor irá trabalhar com a afirmação de que os criacionistas são fixistas. No texto diz o seguinte:

Essa é uma afirmação tão incorreta quanto aquela que diz ser o homem descendente do macaco (os darwinistas geralmente não afirmam isso). Os criacionistas bem informados entendem que Deus dotou os seres vivos da capacidade de variação, o que lhes permite sobreviver em ambientes diferenciados. A isso chamam de “microevolução”, ou “diversificação de baixo nível”, nas palavras do biólogo e diretor do Geoscience Research Institute, Dr. James Gibson.

Para o Dr. Aagaard, “se as populações não fossem capazes de ‘evoluir’ em resposta ao fato de o clima tornar-se mais seco, ou mais frio, ou quaisquer outras mudanças que têm ocorrido, então a extinção total seria o provável resultado”.

Assim, segundo a visão criacionista, Deus criou os tipos básicos (“espécies”) de seres vivos e eles “evoluíram” de forma mais ou menos limitada (a tal “árvore da vida” proposta por Darwin estaria para os criacionistas mais para um “gramado”). Extrapolar e dizer que todos os seres vivos descendem de um mesmo ancestral unicelular comum (“macroevolução”), isso, sim, embora teoricamente plausível, não tem sido empiricamente demonstrável.

Apesar do exposto pelo autor, na história dos movimentos criacionistas existiram pessoas com pensamento fixista (seja por interpretação literal da bíblia, ou por desconhecimento da teoria que querem previamente atacar).

Mesmo assim a afirmação do autor é relevante. Não podemos generalizar e colocar todos criacionistas no mesmo saco e falar “são fixistas”. Existe uma multiplicidade enorme nos movimentos criacionistas e alguns deles realmente aceitam preceitos de microevolução. Mas será que aceitar a microevolução é realmente dixar de ser fixista? Pois bem, se, por outro lado interpretarmos o que é fixismo de um modo mais stricto sensu veremos que ser fixista pode ser não aceitar mudança de espécie (e não apenas mudança na espécie). Desta feita aceitar microevolução em detrimento da macroevolução é um tipo, mesmo que gradual, de fixismo.

Mas se interpretarmos fixismo como ausência de mudança, completa, realmente existem criacionistas que não se encaixam no termo. De qualquer forma parece haver uma gradação da doutrina fixista. E dentro desta gradação é importante lembrar que já existiram e podem ainda existir alguns criacionistas participantes do fixismo stricto sensu e já existiram e podem ainda existir participantes do fixismo lato sensu, visto que o movimento criacionista é diversificado.

O que parece ser mais acertado é não generalizar, mas querer extirpar que alguns participaram ou ainda participem do fixismo é um pouco de exagero.

Na definição da Wikipédia fixismo é:

Fixismo era uma doutrina ou teoria filosófica bem aceita no século XVIII. O fixismo propunha na biologia que todas as espécies foram criadas tal como são por poder divino, e permaneceriam assim, imutáveis, por toda sua existência, sem que jamais ocorressem mudanças significativas na sua descendência. Um dos maiores defensores do fixismo foi o naturalista francês Georges Cuvier.

O fixismo na geologia, sustenta que os continentes teriam se mantido estáveis e fixos em seus lugares atuais através de toda história geológica. Essa corrente de pensamento antecede historicamente a teoria proposta por Alfred Wegener em 1912, da deriva contiental, que propõe que os continentes tenham se movido ao longo das eras. Atualmente a deriva contiental é aceita na forma da teoria das tectônica de placas, mas o fixismo geológico persistiu sendo defendido por um considerável tempo até que o acúmulo de evidências eventualmente favoreceu a aceitação científica da deriva continental. (FIXISMO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2009. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Fixismo&oldid=16300360>. Acesso em: 3 mar. 2010).

Criacionistas odeiam Darwin e a evolução

Seguindo a mesma linha da seção anterior também parece ser forçoso extirpar todos os criacioniostas de um “ódio”, porque é possível que alguns façam debates motivados por um ódio. Ainda mais quando no desconhecimento da teoria estão, apenas para sustentar suas crenças. E como já citado, existe uma passagem no texto que o autor assume que existem debates fora de foco, e portanto baseados em desconhecimento – para estes é plausível que, em face no desconhecimento parcial ou total, façam suas críticas com um ódio. Entretanto é mais forçoso ainda querer que todos eles devam necessariamente odiar, pois parece que estamos imputando uma infantilização; o que sabemos ser errado (e parece que é este último pensamento de generalização que o autor combate acertadamente).

O mais certo é, julgo, considerar que não precisa ser um ódio a motivar os criacionistas, embora alguns possam padecer deste ítem. Mas, mesmo assim, não podemos generalizar. Talvez, na melhor interpretação possível, os que podem efetuar debates por ódio o façam por equívoco ou desconhecimento da teoria da evolução.

O autor diz o seguinte:

Segundo o biólogo Tarcísio da Silva Vieira, mestre em Química pela Universidade de Brasília, professor universitário de Química Orgânica e membro colaborador da Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), simpatizantes do modelo criacionista que tenham tido formação acadêmica entendem a importância da teoria da evolução e reconhecem a contribuição dada por Darwin à comunidade científica. “Entendemos que há aspectos no evolucionismo fundamentados, os quais são úteis para a compreensão de muitos fenômenos naturais, assim como para a interpretação de dados. A esses aspectos nenhum criacionista que tenha formação científica se opõe. Porém, como em toda teoria, há alguns pontos no evolucionismo que não são sustentáveis e devem ser questionados, seja por um cientista ou por um estudante de ciências”, pondera.

Os palestrantes da SCB deixam isso evidente no trabalho que vêm realizando no País. “Por isso”, diz Tarcísio, “quando escritores desprovidos de conhecimento do que é o modelo criacionista afirmam que as teses defendidas pelos simpatizantes do criacionismo vão contra o desenvolvimento de vacinas e antibióticos, ou mesmo contra o desenvolvimento científico, estão sendo desonestos.”

A bióloga Márcia Oliveira de Paula, doutora em microbiologia e presidente do Núcleo de Estudos das Origens (NEO), do Centro Universitário Adventista (Unasp, campus São Paulo), arremata dizendo que “a teoria da evolução não consegue explicar a origem da vida por processos naturais, a partir de matéria não viva; também não consegue explicar a origem da informação genética de sistemas irredutivelmente complexos; não consegue explicar o aumento de complexidade que teria acontecido nos organismos durante o processo evolutivo, ou seja, não consegue explicar a origem de novos órgãos, sistemas de órgãos e novos planos corporais. Em relação ao registro fóssil, a teoria da evolução não consegue explicar a Explosão Cambriana [surgimento repentino de formas de vida complexas no registro fóssil]; e também não consegue explicar a falta de formas de transição entre os principais grupos de organismos”.

O que ocorre, de fato, é que, como já visto, criacionistas se opõem a aspectos do darwinismo e não têm motivos para “odiar” Darwin – ou qualquer outro ser humano. Além do mais, o que a maioria das pessoas diz que Darwin disse ou é lenda urbana, ou é derivado da teoria darwinista, e não do próprio punho dele.

De qualquer forma, fica registrado o intuito do autor a esclarecer a abertura de um debate epistemológico, que julgo ser importante e que também defendo, que é assumir, em outras palavras as limitações científica (e ao meu ver também a falibilidade humana) e discutir os pontos em que a teoria evolucionista possui supostas lacunas. Este seria uma forma legítima. Porém não vejo que esta abertura meta-científica, epistemológica, possa representar uma legítima substituição do evolucionismo pelo criacionismo. Até porque o debate das limitações não fica somente em uma teoria; qualquer possibilidade humana de teorizar possui lacunas devido ao seu escopo de estudo (E isso não constitui argumento para sua inferiorização, visto que uma ciência ou teoria ter limites não é sinônimo em falhar em seu escopo – este último sim é motivo para troca, ver por exemplo a história do éter).

Particularmente acho importante a discussão dos limites e escopos das ciências e suas teorias (e por isto escrevo neste blog), mas isto não é argumento suficiente para uma necessária substituição, como já abordado, visto que a própria ciência trabalha em retrabalhar seus tecidos teóricos, até certo grau.

Criacionistas creem no Deus das lacunas

O autor afirma:

Essa acusação faz parecer que os criacionistas colocam Deus como explicação para todas as questões não respondidas em ciência, dando a impressão de que são pesquisadores acomodados.

Não necessariamente. Significa que existem pontos que, dentro de uma metodologia com explicação do natural estes assumem explicações sobrenaturais. Afirmações que podem ser tomadas como incompatíveis com o método empregado na ciência em que está se trabalhando.

(…)Ao contrário disso, segundo Tarcísio, “investigar a natureza e fazer ciência é uma motivação deixada pelo próprio Deus ao ser humano. (…)

Esta é uma afirmação de fé. Um cientísta panteísta poderia afirmar que é uma tarefa dada pela natureza. Um cientísta antropocentrista poderia afirma que é uma tarefa que naturalmente existe em função de nós humanos. Um outro cientísta ateu pode afirmar que é simplesmente uma tarefa de sua profissão. Da mesma forma um cientísta teísta pode afirmar também ser uma tarefa de sua profissão. Um cientísta x pode afirmar ser sua competência ética. Esta é uma afirmação de cunho religioso e não procede para explicar o porque o criacionista não crê em um Deus das lacunas.

O criacionismo afirmando que não temos como reduzir a complexidade da informação biológica (interpretada por muitos como uma lacuna explicativa) e portanto isto seria conclusão da existência de um Deus, embasa-se justamente na suposta lacuna de uma explicação mais convicente a respeito da multiplicidade e irredutibilidade da informação biológica.

(…)Ao observar um fato que aparentemente se oponha às teses que se acredita estarem corretas, um pesquisador criacionista simplesmente não fecha os olhos ou procura distorcer os fatos para ‘encaixar’ a realidade em sua visão de mundo“.(…) [Grifos meus].

É tendencioso afirmar que pesquisadores não-criacionistas fecham os olhos e distorcem fatos por não se encaixar na teoria. Deve ser de conhecimento geral como a ciência funciona seus trabalhos e retrabalhos teóricos, envolvidos em aperfeiçoar hipóteses auxiliares, e que isto não constitui ilicitude no processo científico (e que é diferente de “distorcer”).

Entretanto a questão de existência de fraude em ciência é um tema que está além deste funcionamento – a ciência, como qualquer outra atividade humana está passível de possuir casos de fraudes, por causa de motivações pessoais dos cientístas; mas isto é estruturalmente diferente de dizer que re-trabalhar teorias (hipóteses auxiliares) sob a luz de novas evidências é necessariamente equivalente a fraudar.

Fraudar um fóssil é uma coisa, discutir conceitos teóricos e re-trabalhar a teoria é outra coisa.

Um exemplo disso foi a descoberta de pegadas humanas com pegadas de dinossauros no leito do rio Paluxy, no Texas, EUA. Depois de algum tempo, conforme explica o Dr. Roberto Biaggi, diretor do Geoscience Research Institute (filial argentina), foi descoberto que as pegadas de dinossauro eram genuínas, mas as humanas, não. Quem descobriu a fraude? Cientistas criacionistas do GRI, mantido pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Seria uma tremenda prova da coexistência entre humanos e dinossauros, mas a honestidade científica sempre deve prevalecer. [Grifos meus].

A existência de um caso como este é ótimo, mas não serve de exemplo que criacionistas devam ser mais éticos que outros cientistas com posições de fé diferentes. Usar isto como exemplo é generalizar. E não constitui explicação do porque o criacionismo não está relacionado com Deus das lacunas.

Essa discussão toda é entre fé e ciência

O autor diz:

Na verdade, conforme explica o biólogo Tarcísio, o verdadeiro embate entre as argumentações evolucionistas e criacionistas está centrado na existência ou não de planejamento e intenção nas coisas existentes. (…)

O Evolucionismo baseia-se em explicar a origem das espécies, sua multiplicidade por meio a bases naturais. Lógico que o criacionista vê nisso um problema, visto que para alguns isto representa um corte com sua crença em uma Ser criador. Embora existam evolucionistas que possam acreditar em Deus, o criacionismo quer pôr isso em formato científico. Então o embate não é somente no “planejamento e intenção de coisas existentes”, em primeiro plano sim, mas também na inserção de uma explicação além-ciência dentro do escopo científico. É como se alguem quisesse explicar a queda dos corpos com uma intenção de um algum tipo de ser (não precisa ser necessariamente Deus) ou algum outro tipo de intencionalidade do mundo em chamar uma pedra ao chão. Esse tipo de pensamento teleológico era de certa forma empregado na física aristotélica.

(…) Dentro desses limites, a discussão poderia ser puramente científica. Enquanto o evolucionismo defende a ideia de acaso e aleatoriedade, buscando explicar a vida como o resultado de causas puramente naturais, o criacionismo defende a ideia de propósito e planejamento, buscando explicar a vida como sendo resultante da ação criadora de um Deus que ainda hoje se relaciona com o ápice de sua criação: o ser humano. [Grifo meu].

Está claro, principalmente na segunda parte grifada, a inserção de fatores de paradigmas sobrenaturais por cima de uma ciência que não possui este tipo de escopo.

O que a mídia popular procura fazer é polarizar a discussão como se tudo se tratasse de ciência versus crendice e irracionalidade. (…)

Historicamente foi este o intuito dos primeiros criacionistas, um embate entre a ciência produzida na época e a fé por eles creditada (portanto não creio que a palavra “crendice” seja acertada em usar).

(…) Para Enézio Eugênio de Almeida Filho, mestre e doutorando em História da Ciência pela PUC-SP e coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente, “essa controvérsia é resíduo do ranço materialista do século 19. A controvérsia no século 21 não é se as especulações transformistas de Darwin contrariam relatos de criação das concepções religiosas, mas se as evidências corroboram Darwin. Elas não corroboram, e aí está o ponto científico que deveria ser abordado ouvindo-se os dois lados publicamente. Elas apontam em outra direção: design inteligente”. [Grifos meus].

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É muito bonito quando afirma que deve-se verificar (e que este seria o atual embate) no fato de evidências corroborarem ou não a teoria da evolução. Mas é importante questionar: qual a gravidade das evidências que, supostamente, não corroboram com a síntese evolutiva? Será que são relacionadas a conceitos centrais da teoria, ou será que são conceitos que são de hipóteses auxiliares, ou ainda de interpretação duvidosa a cerca da não corroboração? É importante saber disto porque também existem muitas evidências que corroboram com a mesma.

Não será tendencioso dizer que, toda e qualquer evidência que a priori enfraqueça uma parte da teoria da evolução tem que ser necessariamente uma evidência que aponte para o design inteligente? Isto pode ser uma afirmação baseada (norteada) na fé. As mesmas evidências poderiam ainda não representar elo lógico a esta teoria. Seria uma generalização.

Os pontos seguintes citados como “desvio” do embate, são todos pontos em que são estudados e possuem certas explicações a respeito.

Criacionistas querem introduzir religião nas aulas de ciências

Dentre algumas afirmações do autor a respeito do conhecimento da laicidade do Estado pelos criacionistas, além da falta de profissionais na área, podemos destacar que o mesmo afirma que não é necessariamente interesse dos criacionistas ensinar nas aulas de ciência, pelo menos no Brasil, o criacionismo. Isso, particularmente, acho bom. Ainda prossegue dizendo que é melhor ensinar criticamente o darwinismo expondo acertos (o que é bom, pois alguns criacionistas põem tendenciosamente a evolução como um emaranhados de erros) e seus erros. Isto seria melhor ainda, pois advogo inicialmente uma posição similar, não somente à teoria da evolução, mas a toda ciência, ensinando que ela não é uma mágica infalível, mas sim uma empreitada humana – e por este motivo acho que a palavra ‘erro‘ equivoca-se, pois teorias podem ter falhas periféricas em seu desenvolvimento.

Portanto acho que melhor, e mais amplo, ainda seria ensinar também o mecanismo metódico que se segue da ciência, para que não se tome falhas periféricas e passíveis de revisão como falhas estruturais (e esse equívoco é muito comum quando é atribuído cosmovisões determinadas para interpretar tais falhas). Assim, seria de muito mais valia ensinar que nem sempre quando apontam uma falha, ela deva ser estrutural. E este é um erro comum entre os interlocutores criacionistas (talvez por um desconhecimento da dinâmica científica, talvez por outros motivos).

Entretanto esta tarefa não seria puramente das aulas de ciências. As aulas de ciência adquirem um papel de propagadoras da ciência. Uma aula nos moldes defendidos por Michelson e, mais amplamente, nos meus moldes seria voltados à epistemologia. A aula de ciência seria aula do que é ciência e quais são as ciências desenvolvidas atualmente; além de suas nuances e curiosidades. Porém admito que é uma tarefa um pouco utópica, mas quem sabe um dia poderá ser realizável?

O autor afirma:

Não existe interesse algum (pelo menos no Brasil), ao contrário do que é divulgado pela mídia, de que as teses defendidas pelo modelo criacionista substituam a teoria da evolução ensinada nas escolas e universidades (tanto é que escolas criacionistas como a Adventista e a Mackenzie incluem os dois modelos em seu currículo). Obviamente, não há nenhuma oposição ao ensino do modelo criacionista em escolas confessionais, uma vez que há abertura constitucional para isso.

Mas ao analisarmos a história do pensamento criacionista nos EUA, damos conta que existem sim movimentos para o ensino criacionista. Não me admiraria se aparecessem adeptos do ensino criacionista, mesmo sem este ser tomado necessariamente como ciência (como demonstrado ao longo deste ensaio).

[meuuol]

Criacionistas querem unir igreja e Estado

Se analisarmos segue a mesma linha do tópico anterior. Pode ser que nem todos criacionistas queiram este propósito, mas se pensarmos é plausível, pela multiplicidade de posição dos criacionistas que exista alguns que queiram tal propósito.

Ele diz:

Recentemente, foi divulgada a notícia da inauguração do cíclotron da empresa Sistemas Médicos Varian, tido como a melhor máquina destruidora de câncer do mundo. O que pouca gente sabe é que o cíclotron (acelerador de partículas utilizado no tratamento à base de prótons) foi inicialmente utilizado pelo Hospital Adventista de Loma Linda, na Califórnia – uma instituição criacionista.

Mas isto não é necessariamente fruto das elocubrações criacionistas. A posição religiosa não é implicação para o desenvolvimento de tecnologia. É independente.

Superficialidade e preconceito

São grandes os desafios do jornalismo científico numa sociedade cientificamente analfabeta. O problema é que, na busca por vender e alcançar o público, esse tipo de jornalismo acaba se tornando muito superficial (com raras exceções).

Concordo. O autor continua:

A superficialidade só perde para o preconceito. O povo que ainda lê alguma coisa está aos poucos sendo condicionado para repudiar os criacionistas como (as “qualidades” que seguem foram todas usadas em reportagens e artigos) fundamentalistas, antiintelectuais, esquizofrênicos, obscuros, e por aí vai (Marcelo Gleiser chama até de “criminoso” quem ensina o criacionismo).

Realmente não podemos generalizar. É ponto sábio, entretanto também devemos olhar criticamente quando são apontadas supostas falhas na teoria da evolução com estardalhaço, sem refletir o mecanismo do funcionamento da ciência, e o que é pior, podendo haver distorções em interpretações de resultados. Os criacionistas são humanos como evolucionistas e ambos podem padecer de problemas éticos. É necessário, portanto, saber o funcionamento da ciência para avaliar cada caso de maneira real.

Conclusão

Concordo de certa forma quando o autor diz que devemos fazer uma reflexão e debater o tema sem preconceitos, e espero que aqueles que tenham o cunho criacionistas ao lerem este artigo que vos faço, eu não seja mal interpretado; pois estou fazendo a minha melhor leitura ao artigo comentado e em minha epoché encontrei pontos falhos no artigo analisado.

Por estes motivos expostos ao longo do artigo, não creio que as alegações levantadas por Michelson possam enquandrar o criacionismo como algo científico. A ciência, como produto bem humano, procura explicar as coisas do mundo, no mundo e com dados que nos estão disponíveis a nível de justificação com bases a coisas no mundo (empiria, coerência entre teorias, falseamento) – norteadas por imagens de ciência e de natureza que muitos alegam ser baseada no naturalismo: pudera, esse corte é efetuado porque a explicação de cunho científica sempre procura ser testável/observável e por conseguinte poderá ser refutável.

Um criacionismo que se baseia em teologia (estudo filosófico de Deus) ou em teleologia (estudo das causas finais) não me parece uma boa alternativa para algo que será refutável por empiria: a teologia e a teleologia não são explicações acerca do que está necessariamente no mundo. Além do mais a teleologia usada no criacionismo é trivial e não é tão sofisticada como pode parecer a primeira vista: parece apontar lógica e necessariamente para um ser fora do mundo. Asserções de seres fora de nosso mundo não são testáveis/observável. O fato de não ser testável não exime a possibilidade de uma existência, mas exime o caráter que o argumento que o utiliza como algo científico. Poderia até afirmar que certos fatores apontam observacionalmente para uma inteligência, mas será que realmente apontam, ou não será apenas uma interpretação devida a uma imagem sobrenatural?

E se não pode ser científico, creio que deve ficar onde está: é religião.

Porque querer transformar uma explicação de cunho religioso em uma tipagem, talvez não verdadeira, de “científica”? Se eu refletir sobre o assunto parece que a questão envolve “garantia”, mas não uma garantia científica, e sim uma garantia social: onde parece ser necessário, para aquele que acredita no criacionismo como algo científico, colocá-lo obrigatoriamente como científico e por isso abusos acontecem.

Isto não significa que um cientista não deva ter fé, ou deva ser necessariamente ser ateu. Isto é de cunho pessoal e o uso que o mesmo atribuir à ciência pela sua fé não é sinônimo de ciência.

O criacionismo científico parece um produto de “marketing” da era em que uma confiança exacerbada na ciência está presente. Está tão presente que o criacionismo, que é uma explicação religiosa por excelência, teve de se curvar a entrar no status de científica. É problemático. As bases de um criacionismo como científico parecem não se sustentar como ciência (assim como entendemos modernamente a ciência), mas seus adeptos tentam de muitas formas colocar como algo necessariamente científico.

Não vejo porque uma pessoa que acredite em Deus não possa fazê-lo ainda que concorde com a teoria da evolução: doxas (opiniões) de cunho religioso podem ser criados e levantados normalmente por mesmos aqueles que trabalham com o que é ciência; pelo simples fato do que é religioso é de cunho pessoal (eu acredito em algo, você pode acreditar em outras crenças) e portanto não é uma explicação fadada a testabilidade empírica (explicações ad hoc são agregáveis à teorias religiosas).

Apesar disto a discussão entre criacionismo e evolução não é inútil. Serve para que possamos avaliar, meta-cientificamente, a respeito da evolução. Pode ser benéfica, desde que respeitada a natureza de fé do criacionismo (e sem usos retóricos que alguns outros criacionistas fazem da evolução dizendo que é uma [sic] “fé ateísta”). Entretanto o mesmo benefício que pode ocorrer contra uma confiança exagerada à ciência e, porventura, no provimento de revisões úteis em conceitos evolutivos (pelo debate entre as partes, que pode ser tomada por qualquer outro ramo; não sendo benefício exclusivo deste debate citado) pode acabar sendo desmantelado e retardado, se falácias forem empregadas e distorções apresentadas acerca do que é ou não produto científico.

Assim, assumir o criacionismo como uma “ciência” em detrimento da teoria da evolução como algo não-científico pode acarretar muito bem a perda deste benefício supracitado. A meu ver, se os debates forem dirigidos como Michelson pede, pode haver benefício, mas desde que, em minha opinião, se assegure o lugar do criacionismo (no seu magistério de fé) para que o mesmo não seja tomado como uma pseudociência.

Por estes todos motivos, ainda continuo me perguntando, mesmo depois de ler o artigo, o que é, de fato, o criacionismo dito “científico”? Uma teoria científica, ou uma teoria religiosa? Se é científica deverá ser testável/observável e refutável. Mas parece não ser refutável.

Então, com base nestes preceitos, o que é mesmo o criacionismo?

O conceito “criacionismo” deve ser tomado mais como algo para destacar – classificar – uma característica religiosa (religiões que professam o mundo como criado por um Criador específico), do que para ser empregada como uma explicação do que é o nosso mundo; pois visto que (desde o esquema apresentado anteriormente) o criacionismo não pretende explicar o nosso mundo físico e sim enquadrá-lo numa explicação que gira em torno de uma cosmovisão anexada a um magistério de fé, sabe lá por qual motivo: seja para tentar justificar a própria fé em prol de uma garantia, ou seja por outro motivo ainda não vislumbrado por este que aqui vos escreve.

Arnaldo Vasconcellos

____________________________

(1) – O artigo foi sugerido por Fabrício Lovato em conversas particulares sobre o criacionismo e evolucionismo.

P.S.: Existem hiperlinks para sites externos e para artigos meus neste blog durante este ensaio. Seria muito interessante a leitura dos mesmos, pois abordam temas que são citados neste ensaio.




O Falseacionismo Ingênuo e a solução fantástica (Série pseudociências – Parte 3#)

Para começar esta postagem, vou fazer uma analogia, que já usei em conversas em outros blogs. Lógico que este exemplo encerra apenas parte do que quero dizer e não é completo, mas tento elucidar um pouco sobre a complexidade das teorias no processo científico.

Imagine que você está num quarto escuro. Em pleno escuro. Sabe que apenas existe um interruptor para acender uma luz. Você inicia uma série de hipóteses:

1) Deve existir ao menos uma lâmpada neste quarto.

2) Se existir ao menos uma lâmpada, ela deve ser acionada por um interruptor.

3) O interruptor deve ficar numa das paredes do quarto.

Você então começa a tatear o quarto. Aparentemente está longe das paredes. Então começa a tatear objetos em busca de uma parede. Encontra um sofá e portanto deduz que atrás deste sofá deve existir uma parede. Chega a parede (confirmando sua hipótese). Tateando a parede descobre na parede subsequente uma cortina.

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Deduz que atrás da cortina deve existir uma janela e ao abrir irá iluminar, mesmo que parcialmente, o quarto ajudando a achar o interruptor. Para sua felicidade sua hipótese auxiliar está corroborada e existe uma janela. Entretanto ela está trancada e não pode ser aberta.

Em seguida continua a tatear até achar uma porta. A mesma está trancada. Deduz que perto da porta deve existir um interruptor. Para seu desânimo você não encontra interruptor.

A partir de então deve tomar uma decisão,  o fato de não encontrar um interruptor não é sinal de que ele não exista.

a) ele pode existir próxima a esta porta e não tateei corretamente.

b) ele pode não existir próxima a esta porta e estar próxima a outra.

c) ele pode não estar próxima a nenhuma porta.

d) ele pode não existir.

Poderia falsear logo aí toda a minha “teoria”, ou poderia refazer apenas as hipóteses que estão com problemas. Como podemos perceber existe dois extremos pessimistas: se eu descartar logo de primeira corro o risco de estar no caminho certo e mudar repentinamente, ou estar no caminho errado e tentar continuar insistindo num caminho que não representa verossemelhança com o mundo e gastar tempo com algo que nada irá me resultar.

Popper desenvolveu uma teoria da ciência, que ao invés da verificação de uma teoria, o cientista deve tentar falseá-la. Uma teoria falseável é plenamente científica. Quando observações vão contra a teoria a mesma é falseada. Caso não corram contra a teoria, ela é corroborada.

Ora, o falseacionismo ingênuo é aquele em que acredita-se que uma ou qualquer observação contrária é capaz de falsear uma teoria. O falseacionista ingênuo (ou dogmático) poderia tachar excessivamente uma alteração ad hoc (uma alteração após observação) na teoria.

Entretanto Popper não era um mero falseacionista ingênuo. Existe um problema da demarcação: até que ponto é lícito alterar ad hoc teorias para que se sustentem. E Popper sabia deste problema. Não é acertado colocar o pensamento de Popper como um falseacionista ingênuo, como pode-se pensar numa primeira passagem.

O falseacionista ingênuo acredita, de certa forma, que toda a teia de teoria científica relaciona-se com dados observacionais.

Mas não é bem isso que encontramos na ciência. Podemos encontrar teorias conectadas a outras teorias e estas a outras e estas últimas sim a dados observacionais. Não só de correspondência vive a ciência, mas sim também de coerência entre teorias.

Ora, pode acontecer de hipóteses auxiliares serem refutadas num experimento (ou observação), mas um centro teórico ainda parecer coeso.

Por este motivo, um outro pensador, Lakatos, desenvolveu uma filosofia em que existem programas de pesquisa científica. Elas podem possuir um núcleo duro que é mais coeso e difícil alteração e extremidades de hipóteses auxiliares que podem ser alteradas conforme a confrontação.

Pode acontecer ainda uma teoria não ser correta e realmente acontecer uma refutação no cerne da mesma.

Como podemos, então, demarcar o procedimento a adotar? Creio que o falseacionismo ingênuo, apesar de, aparentemente, ser fantástica a sua solução (refutou qualquer coisa, descarte) não é plenamente válida. Descobrir a natureza requer paciência e muito cuidado. Da mesma forma modificar eternamente uma teoria, face as confrontações, pode acabar por deixá-la totalmente disforme.

Participo do pensamento em que os dois extremos não são bem vindos:

a) alterar uma teoria demais pode ser sinal claro de que a mesma não está funcionando bem, portanto deverá ser bem analisada se suas alterações são em hipóteses profundas, se mantém coerência, se as obsevações (se puderem ser) repetidas reportam o mesmo grau de refutação, etc;  então esta teoria é seria candidata a ser falseada e uma “salvação” da mesma pode torná-la pseudociência (e este é um caminho comum nas pseudociências).

b) Achar que toda a ciência está relacionada de forma direta a uma observação. E que uma observação contrária pode já refutar TODA uma teoria, sem antes analisar a natureza da observação, a qualidade da mesma, se a refutação é ou não a nível auxiliar.

Penso que uma teoria errada, acaba no passar dos anos não se sustentando.  Encontramos isto na história da teoria do éter e no surgimento da teoria da relatividade.

Deve-se ter um meio termo entre o salvador de teorias e o falseacionista ingênuo (por mais fantástico que este último possa parecer).

UPDATE (OBS)

Encontrei algumas pessoas com pensamento de cunho de falseacionismo ingênuo que considerariam que “hipóteses auxiliares” seriam formas de “minimizar a importância da descoberta científica” (ver link supracitado). De antemão: hipóteses auxiliares não reduzem a importância da descoberta científica, apenas descrevem o funcionamento da dinâmica científica que o falseacionista ingênuo pode deixar passar despercebido.

Arnaldo Vasconcellos.

UPDATE 17.11.10

Pronto, depois de publicar este e outros artigos, mostrando que o uso errôneo e não popperiano do falseacionismo, como encontrado no blog “A Lógica do Sabino” o mesmo modificou sua postagem (atualizou) sem indicar quando e onde houve atualizações (como eu faço aqui neste blog). Pronto criou um frankstein em sua postagem original, acusando-me de ingenuidade, só pra responder e não querer ficar por baixo… É óbvio que fazer tais atualizações não explícitas para parecer como se fosse uma postagem original é desonestidade. Ocorrem deturpações do que é o falseacionismo, do que são hipóteses-auxiliares e, obviamente, o indivíduo faz isto só pra garantir que irá convencer leitores inadvertidos dos métodos de deturpação do referido blog. Aqui fica o recado: devemos ter muito cuidado na internet com as deturpações de teorias, técnicas e conceitos.




Paul Sereno e o “design”

O Paleontologista Paul Sereno

Lí alguns dias atrás uma notícia no Site da Terra, que o paleotologista Paul Sereno teria descoberto uma espécie de mini tiranossauros e teria efetuado afirmações criacionistas.

Pronto! Será um problema de semântica na tradução ou seria que realmente teríamos estes dados conforme o veículo editorial teria afirmado?

Esbarrei no “Observatório da Imprensa“, no qual, exatamente o que estava indagando, estava respondido. Seria um problema de tradução em certos trechos.

Verifiquei que também existia em outros Blogs na net falando a respeito.

A autora da tradução, como pude acompanhar neste link, não é criacionista, entretanto  a sua tradução poderia ser absorvida por um criacionista incauto, além da ambiguidade semântica.

Ao que parece o erro não é uma desonestidade religiosa, mas sim um deslize na tradução. E esse deslize pôde passar despercebido e ser veículado, como aconteceu no site do Terra.

Creio que este é um erro que não se pode deixar cometer em traduções, visto que pode levar uma interpretação errônea na divulgação científica. Talvez esteja superdimensionado, pois muitos nem ligariam para tal fato – mas é algo que pode ser evitado.




Paul Sereno e o "design"

O Paleontologista Paul Sereno

Lí alguns dias atrás uma notícia no Site da Terra, que o paleotologista Paul Sereno teria descoberto uma espécie de mini tiranossauros e teria efetuado afirmações criacionistas.

Pronto! Será um problema de semântica na tradução ou seria que realmente teríamos estes dados conforme o veículo editorial teria afirmado?

Esbarrei no “Observatório da Imprensa“, no qual, exatamente o que estava indagando, estava respondido. Seria um problema de tradução em certos trechos.

Verifiquei que também existia em outros Blogs na net falando a respeito.

A autora da tradução, como pude acompanhar neste link, não é criacionista, entretanto  a sua tradução poderia ser absorvida por um criacionista incauto, além da ambiguidade semântica.

Ao que parece o erro não é uma desonestidade religiosa, mas sim um deslize na tradução. E esse deslize pôde passar despercebido e ser veículado, como aconteceu no site do Terra.

Creio que este é um erro que não se pode deixar cometer em traduções, visto que pode levar uma interpretação errônea na divulgação científica. Talvez esteja superdimensionado, pois muitos nem ligariam para tal fato – mas é algo que pode ser evitado.




Mutação e evolução

Porque tanta confusão em torno da palavra “evolução”?

Na teoria da evolução, a palavra “evolução” não está ligada a uma noção teleológica.

Aristóteles - Filósofo grego

Aristóteles, filósofo grego, teria afirmado, que metafísicamente, existem quatro categorias de causas. Elas seriam: causa material, causa formal, causa eficiente e causa final.

Imaginem um escultor criando uma estátua. Com este exemplo poderemos enquadrar as categorias dadas por Aristóteles. A causa material da estátua é a matéria que ela é formada; neste caso poderia ser o mármore. A causa formal é a forma de estátua imaginada pelo escultor. A causa eficiente e aquela que gera a estátua, neste caso o escultor. A causa final, ou telos, é a finalidade desta estátua.

Pois bem, analisando de forma um pouco mais linguística estas causas metafísicas, veremos que elas possuem conotações semânticas diferentes, por isso podem ser enquadradas em diferentes categorias.

Nos últimos tempos tenho encontrado, seja por parte de criacionistas ou não, confusões semânticas dentro das palavras evolução, mutação etc. Algumas destas confusões podem ser esclarecidas, elucidando nuances semânticas relacionadas a diferentes concepções de causas, a meu ver.

Em debate com alguns criacionistas, consegui detectar certas sutilezas semânticas, que por sua vez alguns daqueles com quem conversei não se deram conta da diferença empregada, transformando alhos em bugalhos.

A língua transmite a respeito de coisas e fatos no mundo e as línguas naturais possuem, naturalmente, ambiguidades.

Este é, inclusive, um dos motivos para que emprego o princípio da caridade.  (Tenho um artigo sobre o assunto).

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O sentido empregado de “evolução” em evolucionismo não é de um telos, ou de um modelo para uma causa final. Evolução é empregada como “mudança” nas características das espécies, por mecanismos que podem ser estudados em teorias e hipóteses científicas.

Quando fala-se que x evoluiu para y não se está dizendo que y já era esperado como um resultado cabal de x. Mas sim que, por este mecanismo da natureza, y veio de x e que agora não seriam mais idênticos, apesar de poderem carregar algumas características em comum.

A palavra evolução sugere melhora frente a um contexto, ou plano de fundo, que é o estado de natureza atual de um habitat. A confusão surge, quando se acha que a palavra “evolução” está solta deste contexto e sugerindo um telos a atingir, independente deste contexto.

Na teoria da evolução, uma espécie que evoluiu, foi por uma mutação aleatória que ocorreu e não foi letal, além de ter a favorecido frente ao ambiente. Por este motivo ela sobrevive. Se o contexto, ou plano de fundo mudar, pode ser que esta mutação (e consequente evolução de espécie) torne-se ineficaz para sobreviver.

Quando alguns criacionistas sugerem o “design inteligente estão sugerindo que existe uma causa eficiente que criou um modelo (design) que seria uma causa formal e de alguma forma modelou espécies com uma causa material (pode ser o verbo, caso seja um criacionismo cristão).

Se, no final das contas, o design inteligente for uma teoria realmente científica, ela pode estar deliberadamente em bases conceituais diferentes do evolucionismo (e portanto em outro paradigma, provavelmente inspirado num paradigma religioso). Entretanto ela terá de passar por um crivo importante: o método científico. Atualmente o design inteligente está envolto em diversos problemas quanto a ser de fato uma ciência.

A crítica ao evolucionismo por base em um argumento que não se dá conta da confusão semântica entre utilizações da palavra evolução no contexto da teoria, torna-se uma crítica externa e que é superficial.

Encontrei este tipo de argumento (contra a evolução) uma certa vez, quando disseram que evolução não significa mutação (com razão, se usar o sentido de evolução como sinônimo de “aperfeiçoar”, lançar a um telos) e que mutação traz somente letalidade ao indivíduo, pois mutações em DNA trariam problemas ao indivíduo o levando a letalidade (premissa falsa).

Mas, se analisarmos melhor, veremos que este argumento surge de uma confusão, também, no fundo, semântica. Bem, examinemos melhor este argumento:

a) Mutação não é evolução (certo, se você está tratando evolução como “aperfeiçoar”. Se tratar como “mudanças diante um crivo do contexto, do plano de fundo da natureza, esta afirmação não é acertada).

b) Mutações sempre levam a letalidade do indivíduo que sofreu a mutação. (hipótese falsa, pois temos casos de mutações que não trazem a letalidade e podem ser re-trasmitidas, como a polidactilia [existência de mais de cinco dedos em pés e/ou mãos] e ainda o caso do recente vírus A H1N1, conhecido popularmente como “gripe suína” que ganhou, num paciente na dinamarca, imunidade ao medicamento tamiflu devido a uma mutação do vírus (1)).

Vírus Influenza

Vírus Influenza

(1) – O vírus também sofreu outra mutação a ponto de mudar levemente uma de suas proteínas, detectada em São Paulo, sem agravamento aparente da agressividade da doença. Portanto existem mutações que podem passar pelo crivo do ambiente e não fazer aparentemente nada, como esta mutação que alterou levemente a produção de uma proteína, ou favorecer o vírus como a mutação ocorrida na dinamarca que deixou o vírus mais resistente ao medicamento tamiflu. Dentro do rol de mutações, existe a possibilidade de indivíduos terem mutações letais, como as doenças genéticas. Assim, uma mutação pode favorecer, nada fazer ou desfavorecer um indivíduo. (NOTA MINHA).

Por sua vez a palavra “mutação” está relacionada a uma mudança em características da espécie, que via de regra, está associada a uma mudança de informação no genoma. Com base em genomas de diferentes espécies pode-se chegar ao grau de parentesco de uma espécie com outras, compartilhando certos trechos genéticos.

Assim notamos que quando alguém utiliza um argumento, como o exposto (que mutação é sinônimo de letalidade), é um erro em identificar que nem todas mutações são letais. Querer igualar o significado da palavra mutação como necessariamente “erro genético letal” é, em suma, um erro.

Problemas semânticos devem ser desfeitos para entendimento e críticas em teorias. Noto que muitos podem passar despercebidos devido ao fato da crítica também estar embasada num conjunto de conceitos de um paradigma.

Portanto, caros leitores, sugiro cuidado com os argumentos que ignoram estas sutilezas – eles podem ser falaciosos e sofismáticos.

Arnaldo Vasconcellos




Dinossauro com características de papagaio

Rapidinha:

Psittacosaurus gobiensis

Psittacosaurus gobiensis

Análises mostraram que Psitacossauros possuem características alimentícias parecidas com a de papagaios e outras aves, além de sua característica morfológica mais óbvia: sua ossatura craniana que possue bico e indica um sistema muscular parecido com o das supracitadas aves.

Imagem demonstrativa entre um Dinossauro Psittacosaurus gobiensis e uma arara

Imagem demonstrativa entre um Dinossauro Psittacosaurus gobiensis e uma arara

O referido dinossauro foi estudado por Paul Sereno, Universidade de Chicago e descoberto em 2001 na Mongólia.
IN OFF: Irei pesquisar mais a respeito para escrever um artigo mais detalhado sobre o fato.

Arnaldo Vasconcellos




Análise ao artigo sobre a pesquisa de Schweitzer

A Análise abaixo é para esclarecer um pouco mais a teoria de Schweitzer, que após publicada, se tornou mal interpretada e um alvoroço intelectual muito utilizada por criacionistas (os grifos são todos meus)(1):

Análise ao artigo “Ciência: Tiranossauro tem colágeno parecido com o de aves modernas” do site: http://www.enciclopedia.com.pt/news.php?readmore=67

“Análises químicas sofisticadas podem ter revelado um dos mistérios que mais intrigam a humanidade: que gosto tinha uma coxinha de tiranossauro. Seria seguro apostar num sabor de frango, dizem cientistas americanos. Ao menos é o que indica a composição da primeira proteína a ser obtida de um fóssil de 65 milhões de anos � o colágeno dos ossos de um Tyrannosaurus rex, cuja composição aparenta ter grandes semelhanças com o presente nos frangos de hoje.”

– O presente artigo faz referência as descobertas de Schweitzer. Aqui, já no início, o artigo mostra as implicações desta descoberta para comparações de tiranossauros e aves: baseada na suspeita de que aves evoluiram de dinossauros.

“Contrariando a idéia de que fósseis tão antigos não passariam de rocha em forma de osso, os pesquisadores conseguiram obter quantidades pequenas, mas significativas, de proteína.”

– Aqui, o autor(a) mostra que a idéia de fósseis antigos sem quantidade de proteína é uma idéia defasada e que podem em certos casos (que imaginam ser mais numerosos) ter proteínas preservadas. Ou seja, contrariaram a hipótese auxiliar de um fóssil antigo sem proteínas. Portanto é possivel as duas possibilidades: somente rocha e com proteínas.

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“E dizem que é possível repetir a façanha com outros fósseis bem-preservados, o que pode, no futuro, revolucionar a compreensão que temos sobre a evolução dos seres vivos.”

– O “revolucionar” não parece ser sinônimo de “refutar”, mas sim de aperfeiçoar a teoria da evolução que está ainda em aberto e sendo aperfeiçoada.

“”Todo mundo sempre assumiu que, em qualquer fóssil com mais de 1 milhão de anos de idade, não haveria mais traços de biomoléculas”, contou em entrevista coletiva a americana Mary Higby Schweitzer, paleontóloga da Universidade do Estado da Carolina do Norte e uma das líderes da pesquisa. “Mas o fato é que o microambiente desses fósseis acabou contrariando essa predição.” Schweitzer e seu colega John “Jack” Horner, da Universidade do Estado de Montana, assombraram o mundo em 2005, quando revelaram ter obtido vasos sangüíneos e células de tiranossauro de um fêmur (osso da coxa) do animal.”

– Ora, parece que a cientista deixa claro quanto a hipótese que parece não coincidir: de que fósseis com esta duração não tivessem mais tais proteínas (informação divulgada em alguns blogs sensacionalistas). Além do mais, os dados empíricos da duração do colágeno não são necessariamente da teoria da evolução, são auxiliares. Mesmo assim podemos assumir que as predições de que a proteína não seria achada era na verdade uma predição aceita temporariamente e não em definitivo – além de ser uma hipótese auxiliar e não necessariamente participar do núcleo duro da teoria.

“O trabalho atual é uma continuação dessa fase de descoberta. Nele, os pesquisadores mergulharam ainda mais nas moléculas componentes do fóssil, em busca de algum traço das proteínas que compunham o osso durante a vida do dino carnívoro. E, para sua própria surpresa, eles conseguiram obter colágeno � um dos principais componentes não-minerais dos ossos, e relativamente resistente à degradação química que normalmente ataca as moléculas dos seres vivos após a morte.”

– A proteína em questão parece ser relativamente resistente, apesar de sofrer degradação. Como veremos na citação abaixo a quantidade encontrada é muito pequena. Isto parece sugerir que o dinossauro é realmente muito velho.

Mas, como veremos na citação abaixo, o ponto da pesquisa é comparar este animal com outros:

“A quantidade de proteína era ridiculamente pequena, mas suficiente para que os pesquisadores, com a ajuda de análises estatísticas sofisticadas, pudessem comparar os fragmentos de colágeno do fóssil com os componentes da proteína encontrados em bichos vivos hoje. (Uma análise parecida também foi feita com um fóssil de mastodonte, primo extinto dos atuais elefantes, morto entre 160 mil e 600 mil anos atrás.)”

– Agora, na citação abaixo, vem o núcleo duro da investigação:

“A comparação foi reveladora: as principais semelhanças do colágeno de dinossauro foram com a mesma proteína encontrada em galinhas modernas. Trata-se da primeira confirmação molecular (e pode-se até dizer genética, já que as proteínas são codificadas pelo DNA) do parentesco próximo entre aves e dinossauros, uma ligação aceita quase universalmente pelos paleontólogos hoje.”

– Ou seja, a teoria leva em consideração que estas proteínas, que são “codificadas pelo DNA” são muito similares a de aves. Isto é mais um dado no mundo que gira em torno do parentesco entre aves e dinossauros; o que é um indício de que as aves podem ser evoluídas de dinossauros.

– Criacionistas que dizem que esta pesquisa é suficiente para refutar o evolucionismo, devem, portanto, estar agora de acordo que esta pesquisa está é correlacionando evolução de espécies e não o contrário.

“No mínimo, o trabalho mostra que é possível “ressuscitar” moléculas dinossaurianas e usá-las para estudar uma série de questões difíceis sobre os bichos, como seu parentesco com animais modernos e extintos ou até sua fisiologia.”

– Este trecho deixa bem claro, quanto a orientação da pesquisa: comparações de animais e seus parentescos.

“O problema é saber se vai ser possível obter outras proteínas entre as 5.000 que compunham originalmente os ossos dos dinos � muitas das quais em pequenas quantidades mesmo em vida. “Conforme a tecnologia for ficando mais sensível no futuro, poderemos tentar responder a essas perguntas”, disse Schweitzer.”

– Fica claro aqui o problema atual de obter essas proteínas em pequenas proporções. Que foi agora possível, justamente pela implementação tecnológica, o que dá esse otimismo a Schweitzer de que detectaremos ainda mais com a tecnologia que deve se aperfeiçoar.

Ainda no artigo vemos:

“Para Jack Horner, o achado pode mudar radicalmente a maneira de os paleontólogos trabalharem. “As pessoas vão começar a buscar espécimes realmente bem preservados, soterrados por várias dezenas de metros de rocha, que não foram expostos à atmosfera ou à água.”

– Fica claro aqui, que o co-autor da pesquisa aponta para uma boa preservação das espécimes e que obedecendo certos critários “soterrado a dezenas de metros”, “não expostos a atmosfera” ajudariam a preservar tais proteínas, mesmo que em pequeniníssimas quantidades. O que corrobora que há um fenômeno (ou conjunto de fenômenos) particular a preservar este fóssil e outros. Este estado pode ter sido o do presente fóssil encontrado.

Ele ainda continua dizendo:

“‘Nessas condições, acho que vamos descobrir que esses fósseis são bastante comuns’, afirma ele. A partir daí, a chave vai ser fazer a extração de moléculas rapidamente, para evitar que elas se desfaçam no contato com o ar. ‘Vamos começar uma busca por esse tipo de fóssil em vários lugares do mundo, de Montana à Mongólia’.”

– Fica claro que ele se remete a um fator de proteção, até porque ao achar tais fósseis devem ser preservados (as suas estruturas protéicas) do contato com o ar.

Não é de se admirar que fósseis possam ser preservados assim seguindo fatores de proteção. Não estaria surpreso se me falare que salamandras preservadas achadas na Espanha estão tão bem preservadas por causa do local onde foram encontradas. (Ver caso das salamandras preservadas em: http://news.nationalgeographic.com/news/2006/07/060725-fossil-bone.html).

Parece ficar claro que a pesquisa de Schweitzer gira em torno de comparar evolutivamente animais (por tratar de proteínas, que são geradas por informações de DNA) do que tentar invalidar a teoria da evolução, como alguns blogs criacionistas tentaram, deturpadamente, dizer.

Caso queiram posso citar os blogs que deturparam o sentido da pesquisa de Schweitzer.

UPDATE

Ainda tenho alguns dados aos blogueiros de plantão que deturparam ao anunciar erroneamente a pesquisa.

Abaixo um trecho do site: http://www.agencia.fapesp.br/materia/10434/divulgacao-cientifica/colageno-de-dinossauro.htm. Este trecho mostra-se muito elucidativo (grifos meus).

Em vez de escavar o fóssil no local, Mary Schweitzer, da Universidade da Carolina do Norte, e colegas removeram a peça junto com a camada de arenito que a envolvia. O bloco foi selado e transportado para o laboratório da cientista, de modo a evitar contaminação.

Essa amostra específica foi escolhida por ter se encaixado nos critérios necessários em relação às condições em que foi enterrada, o que ocorreu rapidamente e em arenito profundo”, disse a pesquisadora.

– Notem que neste trecho acima, a própria pesquisadora demonstra que há uma predição de conservação de tais proteínas (uma teoria auxiliar sobre as condições iniciais da observação).

Ainda no mesmo site encontramos:

Sabemos que, a partir do momento em que o fóssil é retirado de seu equilíbrio químico no qual se encontra há milhões de anos, qualquer resíduo orgânico que esteja preservado imediatamente se torna suscetível à degradação. Quanto mais rapidamente pudermos passá-lo de onde se encontra para o tubo de ensaio, mais chances teremos de identificar tecidos e moléculas originais”, explicou.

– Existe portanto condições iniciais da observação que podem deteriorar tais proteínas. Se o fóssil extraído for preservado com a tecnologia apropriada, tais condições iniciais de observação (existência de proteínas) são conservadas. Continuemos na mesma fonte:

Amostras do fóssil foram enviadas a diversos laboratórios para análises independentes. Os pesquisadores usaram microscopia de tunelamento de elétrons para examinar a aparência e a estrutura dos tecidos. Também usaram espectrometria de massa e testes contra anticorpos para identificar proteínas.

Segundo os cientistas, os resultados das análises indicaram a presença de colágeno cujas sequências de aminoácidos são mais semelhantes às da proteína dos tecidos conectivos de aves do que dos crocodilos, por exemplo. Ou seja, trata-se de mais uma evidência do possível parentesco entre aves e dinossauros.

Comparemos novamente com o trecho que já destaquei, mas cito novamente (grifos meus) do site http://www.enciclopedia.com.pt/news.php?readmore=67:

A quantidade de proteína era ridiculamente pequena, mas suficiente para que os pesquisadores, com a ajuda de análises estatísticas sofisticadas, pudessem comparar os fragmentos de colágeno do fóssil com os componentes da proteína encontrados em bichos vivos hoje. (Uma análise parecida também foi feita com um fóssil de mastodonte, primo extinto dos atuais elefantes, morto entre 160 mil e 600 mil anos atrás.)

A comparação foi reveladora: as principais semelhanças do colágeno de dinossauro foram com a mesma proteína encontrada em galinhas modernas. Trata-se da primeira confirmação molecular (e pode-se até dizer genética, já que as proteínas são codificadas pelo DNA) do parentesco próximo entre aves e dinossauros, uma ligação aceita quase universalmente pelos paleontólogos hoje.

No mínimo, o trabalho mostra que é possível “ressuscitar” moléculas dinossaurianas e usá-las para estudar uma série de questões difíceis sobre os bichos, como seu parentesco com animais modernos e extintos ou até sua fisiologia. O problema é saber se vai ser possível obter outras proteínas entre as 5.000 que compunham originalmente os ossos dos dinos � muitas das quais em pequenas quantidades mesmo em vida. “Conforme a tecnologia for ficando mais sensível no futuro, poderemos tentar responder a essas perguntas”, disse Schweitzer.

Para Jack Horner, o achado pode mudar radicalmente a maneira de os paleontólogos trabalharem. “As pessoas vão começar a buscar espécimes realmente bem preservados, soterrados por várias dezenas de metros de rocha, que não foram expostos à atmosfera ou à água. Nessas condições, acho que vamos descobrir que esses fósseis são bastante comuns”, afirma ele.

Podemos, portanto levar a cabo que:


1) Neste caso, desta pesquisa científica, encontramos:

a) Colágeno pode sim sobreviver a tanto tempo, desde que o fóssil esteja em locais bem conservados – esta é uma premissa que a pesquisadora se apoiou para estabelecer a retirada dos fósseis com a tecnica supracitada.
b) A forma tradicional de retirar fósseis retira o equilibrio químico de certos fósseis, acabando com a pequena quantidade de colágeno existente. O colágeno achado no presente dinossauro foi possível devido a uma nova tecnologia, que retira o fóssil em um grande bloco, para depois cuidadosamente se preservar tais proteínas. (Se esta técnica foi desenvolvida deve haver uma Teoria que prevê a existência destas proteínas, pois aparatos tecnológicos são como teorias “condensadas”).
c) O MAIS IMPORTANTE: o colágeno encontrado aponta para que aves são ligadas genéticamente aos dinossauros – isso é uma evidência do evolucionismo.

Verifico assim que alguns blogs criacionistas que encontrei omitem, deturpam e interpretam mal os dados da pesquisa científica em prol da tentativa de dizer que a teoria da evolução não é consistente. Como podemos ver a presente pesquisa está mais para estabelecer a consistência da teoria da evolução, do que a negar (como quer alguns blogueiros que visitei).

Uma das minhas conclusões pessoais, é que é obvia: não acredite em qualquer mídia que lê. Algus blogs vem deturpando a bel prazer dados – com os mais obscuros objetivos.

  1. A pesquisa original está em www.sciencemag.org, mas para ler tem que assinar a revista.
  2. Os blogs a deturpar são:

(1) – Atenção, visite a pesquisa original e leiam com cuidado. Cuidado com as interpretações maldosas dadas à pesquisa. O fato de utilizar neste presente artigo citações diretas à publicações acerca da pesquisa deve-se ao fato de deixar o assunto mais palatável a um público leigo (público tal, que a meu ver, se tornou alvo daqueles pseudo comunicadores que deturparam a pesquisa original) . Favor ler a pesquisa original assim que possível.

Arnaldo Vasconcellos