Presente

Um dia acordei no passado, e simplesmente não me dava conta disso.

Vi o som, phillips, rodando um LP do PinkFloyd, que hoje está guardado e há muito tempo sem capa.

Consegui ver, com tanta nitidez o rodopiar daquele vinil, que, engraçado eu achava, fazia um movimento que parecia fazer-lhe subir e descer – difícil de explicar, era como se ao rodar as vezes parecia fazer um vai e vem para cima e baixo.

E, ainda lembro, da sensação, uma das primeiras vezes, que sentia enquanto aquilo rodava, e fascinava.

Não entendo como não podia lembrar que é apenas uma velha lembrança. Mas no rodar daquele disco, sentia que estar ali era real – como um retorno eterno, mas sempre com nuances de novidade – daquele simples momento.

De repente, uma sensação voltou a mim. Aquela mesma de satisfação. E só uma simples e sem nenhuma misteriosa sensação – completude.

Daí o tempo pareceu fazer um grande recorte, e como uma grande fenda que se abre – formou-se a sensação de percepção (que ainda não sendo necessariamente acreditada como verdadeira) e pude – agora sim – lembrar de tudo de hoje. Hoje o futuro daquele dia.

E a premonição de hoje, que poderia representar ao passado mostrava o tão certo que aquele disco estava: girava e em cada passo de seu fim estava diferente, mesmo a cada parecido momento.

O bailar que era sua simples ocorrência pareceria muito com a existência de qualquer um: enquanto baila, simplesmente é, simplesmente está ali. No momento em que não mais estiver presente, não haverá mais momento.

Uma sensação de escuro tomou conta. É bom sentir isso. Não é mau. Não é mau mesmo. E assim a ordem natural das coisas voltaram: o passado, mesmo longe e sem mistérios lá. E eu aqui, no que acostumei a chamar, por aceitar essa simples convenção: de presente.




Sobre os cortes e gastos

Ando pensativo estes dias. Quer com as vira-voltas da política. Quer com os acontecimentos – nacionais e mundiais.

Um pensamento as vezes me salta, dos muitos que aqui estão. E que agora destaco.

Em tempos de golpe (que ainda estão se consumando), de mudanças políticas (muitas vezes para pior), da seletividade das mídias em prol de seus editoriais, do mundo (e das guerras do mundo): tudo parece fugaz.

Ideologias cada vez mais dominantes das ações no mundo – de um lado um terrível conflito na Síria, de outro um indivíduo cada vez mais propenso a ser o “endireitador” do mundo, já que tem em suas mãos a famosa máquina de guerras (e essa situação não se resume aqui, sendo, claro, mais complexas e com outros personagens).

Aqui a direita anda fazendo suas “traquinagens”. De um lado um Bolsonaro, ignaro em muitas de suas falas – mas de uma forma implacável de falar – que parece acalentar os sentimentos mais perversos de setores da nossa sociedade que anseia por culpados rápidos para respostas rápidas.

Ainda por aqui também há um Temer, cuja visão distorcida de salvar uma pátria – se for verdade que pensa assim, salvando desta forma um mínimo de si, mesmo que em erro, visto que poderia ser como alguns pensam ser por pura maldade (o que beira a irrealidade, mas não a plausabilidade) – nos põem em riscos de diversos retrocessos. Uma visão deturpada de salvar o mundo – compartilhada com setores mais bizarros e retrógrados do Congresso – pode por fim colocar mais de nós na dor e no sofrimento.

Não acredite nos deuses de alguns jornais – amanhã eles parecem não ser mais adoráveis pelo seu público. Se de um lado um ato questionável pode ser apresentado como louvável, de outro temos a demonização que estrutura uma ainda forma maniqueísta de pensar:

Devemos supor que há acertos e erros, mas isso não coloca em questão relativizar que há visões de mundo questionáveis que geram atos (políticos por exemplo) questionáveis. Não devemos demonizar, nem adorar; mas o certo é que devemos verificar cada ato de forma que coerentemente possamos apontar atos que não farão o bem como aqueles que os atuam imaginariam fazer – assim como apontar visões de mundo, que embora criem em seus portadores a sensação de fazer algo bom, na verdade não são adequadas; para este tipo de análise não precisamos de maniqueísmos: embora possamos nos decepcionar com aqueles que portam as visões de mundo, com as visões de mundo e com os atos.

O governo diz que pretende, com o fechamento das unidades próprias, economizar cerca de R$ 100 milhões anuais. Segundo Fanton, trata-se de uma agenda que visa a restringir os recursos e reduzir a participação do sistema público de saúde de modo a privilegiar os interesses do setor privado.

Ele compara a medida com o plano do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), de fechamento das farmácias das Unidades Básicas de Saúde (UBS) para passar a distribuir medicamentos nas redes comerciais.

Sobre a medida de Doria, o Sindicato dos Farmacêuticos no Estado de São Paulo alertou que a proposta atinge diretamente a população mais pobre das periferias, já que as grandes redes de farmácias concentram filiais nas regiões centrais e mais ricas da cidade.

Vi neste link

 

Bem, numa tacada (independente do editorial da organização lida acima) tiramos a questão, plausível, que uma medida além de reduzir gasto público com remédios, pode privilegiar interesses do setor privado – que para alguém com mentalidade deste tipo alertaria que poderia ser saudável para o equilíbrio do mercado. No entanto, os vulneráveis ondem estão até atingir um equilíbrio de mercado? O mercado sempre é tão bom a ponto de não sofrer dos males que o setor público pode sofrer? Creio que a negativa é bem plausível.

Em outro ponto extraímos que em certas medidas, como a do Dória, que sob o argumento do equilíbrio esquecem daqueles que são vulneráveis e necessitam daqueles remédios – algumas visões de mundo privilegiam certas variáveis em algumas equações que orientam os atos, e ataques, dos cortes, dos gastos, das ofensivas; de cada pequeno ou grande ato.

 




Opinião: Brasília e seus 50 anos

Brasília fez neste último dia 21 seus 50 anos. São cinquenta anos de uma cidade que ainda cresce, mesmo sem espaço aparente.

Congresso Nacional

Congresso Nacional

É uma cidade linda, fascinante. Uma cidade como qualquer outra, mas também uma cidade única, devido aos seus monumentos arquitetônicos, sua história interessante, o povo que aqui mora e os frequentadores de cada quatro anos (que muito aparecem em noticiários, quando envergonham a todos nós).

E como qualquer outra cidade está sujeita a lendas urbanas.

Uma das lendas mais proeminentes, e com ar de pseudociência, é a de Brasília descrita como uma cópia de cidades egípcias e seu fundador como uma cópia faraónica.

Se a lenda for encarada apenas como lenda (e como sátira), é uma ótima pilhéria. Mas a partir do momento que a lenda é utilizada (como pude acompanhar diversas pessoas fazendo isso na internet e em impressos – que irei comentar num futuro ainda não determinado) como uma certeza histórica, portanto com o crivo de científico carimbado surge os ares de pseudociência.

Adeptos da lenda tentam associar a imagem de Juscelino com a de Akhenaton, faraó egípcio e Brasília com a cidade por este último construída, lá no Egito. Seus adeptos usam argumentos mistificados sobre os monumentos de Brasília, como associados às construções egípcias e as histórias de vida de Juscelino com as de Akhenaton. São explicações não muito racionais, mas que fascinam os mais dados ao misticismo, pois nada mais encantador é fingir-se estar num novo Egito (cuja imagem que temos é distorcida por nossas imaginações); imaginar-se lendário, como a lendária imagem que fazemos do incrível Egito. Entretanto não verdadeiro. Não é real a associação, embora tenhamos uma história de construção da nova capital muito mais interessante que a lenda propõe (com detalhes muito mais reais e fascinantes que uma associação lendária).

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E logo ganha-se o crivo; “mas existem correlatos históricos”. E esta é uma frase enganadora. Esconde-se aí uma possibilidade pseudocientífica de enquadrar sob o aspecto de “pesquisa histórica” algo que é uma lenda notável.

Entretanto, em minha opinião, existe algo muito mais interessante e verdadeiro que uma lenda embrenhada de misticismo dada a possibilidades de teorias conspiratórias: é o que acontece no dia-a-dia de Brasília; e isto sim é algo real e verdadeiro – e também perigoso:  o que acontece de verdade, as decisões de nosso país e a nossa reação diante do que se passa.

Desejo assim, ao admitir minha afeição a esta cidade, parabéns. E ficam assim os meus votos de novos e vindouros anos, com consciencia real do que existe, do que foi, sem os laços obscuros de lendas reluzentes (porém falsas) para que possamos mantermos sóbrios sobre o que acontece e o que é decidido.

Catedral Metropolitana

Catedral Metropolitana

Arnaldo Vasconcellos