Equívocos na internet – alhos e bugalhos

Estava eu navegando pela internet, vendo o que os outros também teríam escrito sobre “pseudociências”, visto que estou confrontando minhas idéias, encontrei esta pérola no Yahoo Respostas :

O autor pergunta o seguinte: “Pseudociência – Religião explica-se em Falácias?” e como complemento de sua indagação diz o seguinte:

Falácias são nada mais do que afirmações ignorantes.

Falácias mais famosas:

“Dizem que uma dentre cada cinco pessoas é chinesa. Como é possível? Conheço centenas de pessoas, e nenhuma delas é chinesa.”
(sem comentários)

“Antes das mulheres terem o direito de votar não havia armas nucleares. Logo esta foi a causa de inventar armas nucleares.”
(precisa explicar?)

“Não há evidência contra a existência de Deus, portanto ele existe.”
(o mais comum)

“Efeito placebo nada gente, o cara me cortou com o uma tesoura e estou curado, claro que acredito com todas as minhas forças.”
(se não acreditasse aí sim não seria efeito placebo, dããããã)

Se acharem que foram ofendidos, não posso fazer nada, isto é ciência.

Bem, olhando de perto as afirmações postadas tenho alguns pequenos comentários:

1) Quando o autor diz:

Falácias são nada mais do que afirmações ignorantes.

Eu não apontaria as falácias (um tema que acho muito interessante) como afirmações ignorantes. Sim elas podem ignorar uma relação lógica, entretanto a palavra ignorante pode ser usada de forma pejorativa, como sinônima de “tola”. Algumas falácias, apesar de cometerem um erro lógico, são bem enganadoras. Seria mais preciso dizer que uma falácia não tem apoio lógico suficiente e sim um apoio “psicológico”, pois apela para elementos psicológicos como argumento.

2) Em seguida o autor demonstra 4 argumentos com bases falaciosas. Logo após informa o seguinte:

Se acharem que foram ofendidos, não posso fazer nada, isto é ciência.

Ora, isto não É ciência. Isto é lógica. A lógica pode, e deve, ser empregada na ciência, nos métodos científicos, mas não é sinônimo da ciência como um todo (como concebemos a pesquisa atual). Pode ser empregada em métodos, e conhecer falácias pode nos ajudar evitar alguns equívocos teóricos. Claro que alguns discordarão e dirão: lógica é ciência. Mas não creio que a semântica de “ciência” apontada pelo autor seja a mesma quando dizemos que a lógica seria uma ciência. Devemos primeiro tentar responder o que é a ciência e no que ela se preocupa para depois dizermos se isto é ou não ciência; a lógica neste sentido não seria uma ciência como compreendemos a ciência como hoje.

O mais impressionante é que em seguida temos os seguintes comentários de uma outra autora:

Sendo “Falácia” um argumento inconsistente, fica evidente que a religião é baseada em falácias!!!

Bem, não tenho muita profundidade em religiões. Sei que muitas cometem falácias para argumentarem, mas me pergunto: será demais achar que o fundamento (base, nas palavras da autora) são falácias? Eu não me arrisco a afirmar nada por enquanto em conclusão, tenho que pensar mais sobre o assunto, mas talvez podemos fazer uma hipótese de existir alguma religião que é baseada em um estado de sentimento, um feeling, e neste caso não estaria relacionada com argumentação; para aquele que estaria envolvido na doutrina: sentimentos, feelings, não são argumentos; falácia seria transpor isso para uma argumentação para talvez convencer pessoas a serem da suposta religião, por exemplo. Por isso acho que dizer que TODA religião é BASEADA em falácias é um pouco forçoso. Já afirmar que religiões podem incorrer a falácias ao argumentarem é mais aceitável.

E a mesma continua:

Não só a religião, mas toda a metafísica é pseudociência, por reportar teorias inconsistentes, sem conclusões experimentadas (é física apenas quando um experimento pode ser repetido)!!!

Mas o que seria metafísica? Historicamente a palavra “metafísica” possui diversas conotações. Andronico de Rhodes, editor grego, teria dado este nome aos escritos de Aristóteles que seriam posteriores à física, fisicamente falando na organização das obras (desculpe o trocadilho). Mais tarde metafísica acabou sendo a área da filosofia que trata tudo que está para além de explicações físicas. Mas na filosofia, assim como tudo que é humano, existem mudanças de modas. Por um tempo metafísica também pode significar o mesmo que “ontologia”, ou estudo dos entes, algo realmente bem metafísico.

Dependendo do autor metafísico podemos notar que o mesmo possui argumentos logicamente bem estruturados e outros que podem aqui ou acolá cometer uma falácia. Afirmar que TODA metafísica é falaciosa e desconhecer o que é metafísica e é uma afirmação grosseira.

Outra informação relevante no comentário desta sra é que ela diz que a metafísica é falaciosa por ser:

sem conclusões experimentadas (é física apenas quando um experimento pode ser repetido)!!!

Ora, esta afirmação é que parece falaciosa! Existe a física teórica, que é teoria, e que suas hipóteses auxiliares podem não estar conectadas diretamente a experimentos, mas coerentes com outras hipóteses já experimentadas ou ainda em experimento. Dizer que “física é quando um experimento pode ser repetido” não é uma boa definição. Lógico, esta é a busca do cientista, principalmente se for cientista experimental, experimentar para refutar ou corroborar uma teoria.

Uma teoria pode não conectar-se diretamente, por sua estrutura, a observações diretas, mas isto não torna menos ciência. Lógico que no fundo haverá uma hipótese ligada diretamente a uma observação, mas achar que TODAS hipóteses são conectadas diretamente a observações é ingênuidade.

Houveram mais comentários. Alguns mais sóbrios e outros menos.




Pseudociências – Série de Ensaios (Parte #1)

Nesta semana iniciarei uma série de ensaios a respeito das pseudociências. O que são exatamente as pseudociências? Suas relações com as protociências e o que podemos levantar a respeito das ativas de nosso tempo.

Bem, começamos a respeito delinear o que são exatamente pseudociências.

Em veículos populares, como a Wikipédia, encontramos a seguinte definição de pseudociência:

Uma pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em factos científicos, ou mesmo como tendo um alto padrão de conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.

Em sentido mais lato a pseudociência, diria eu, pode não ser apenas um tipo de informação, mas um conjunto deles (realizando uma doutrina, seja religiosa, cultural, sociológica ou filosófica) que queira se passar por um status de científica, sem adotar o método científico.

Carl Sagan, afirma que as pseudociências, por exemplo, muitas vezes tomam o lugar da ciência, o lugar da sublimidade e da admiração pelo conhecer o que desconhecemos (p. 20, O Mundo Assombrado pelos demônios).

[meuadsense]

Ainda neste livro, Sagan afirma que “Eles [as pseudociências] parecem usar os métodos e as descobertas da ciência, embora na realidade sejam infiéis em sua natureza“(*1) [Grifo meu] (p.30, Idem).

Já, nestes supracitados parágrafos, esclareci o que seria uma outra pergunta: Qual a razão para que crenças, doutrinas e informações independentes sejam colocadas como científicas? Ora, apesar de epistemológicamente podermos tratar a ciência como, em última instância, como um grau de falibilidade ou de probalidade de falibilidade, ela logrou êxito, devido (logicamente) ao seu método que é de constante “conserto” do que é afirmado e adaptabilidade do que está no mundo (ver outros ensaios neste site), e é este êxito que abre portas para uma aceitabilidade, apesar dos contra-ciências existente atualmente, todos nós aceitamos em algum grau o desenvolvimento da ciência. Tentando justamente utilizar este êxito científico como crédito para se sobressair, as pseudociências utilizam (consciente ou inconsciente) afirmações de que seriam ciências. No final das contas essa tentativa de se sair como ciência, por sobre uma existência de “crédito” é uma artimanha retórica.

Talvez por ser este um dos mecanismos das pseudociências encontramos em publicações pseudocientíficas falácias de autoridade como “fulano de tal Ph.D em astrofísica, autoridade no assunto, diz o planeta ‘X’ está chegando!”.

Não é um argumento lógico, mas sim psicológico, apela para a autoridade para se passar como verdadeiro.

Estes tipos de argumentos são encontrados em obras como “O Segredo”, de Rhonda Byrne e no “Quem somos nós?”.

Da mesma forma existe, atualmente, uma caça às pseudociências, como uma caça às bruxas, e uma pergunta surge: toda pseudociência é prejudicial? E uma outra pergunta ainda salta: Toda doutrina ou informação de crença é pseudociência?

Tenho um palpite de que TODA pseudociência, diagnosticada como tal é prejudicial pois estão se passando por algo que não são. São credulidades que podem nos tornar acríticos a diversos tipos de argumentos. Podemos comprar um peixe que não nos fará bem, um peixe apodrecido em forma de uma afirmação enganatória.

E sim há uma busca incessante por parte de muitos em buscar e tipar as pseudociências (apesar do problema da demarcação, que abordaremos em outro ensaio), para que este perigo seja evitado. Entretanto alerto de que esta busca seja efetuada de forma consciente, conhecendo o sucesso científico, bem como suas temporais limitações. Os argumentos contra as pseudociências não podem seguir o mesmo caminho das mesmas: e existem muitos livros vendidos atualmente, de alguns anti-religiosos que pecam em algumas de suas argumentativas.

Devemos conhecer o límite das coisas, partilho este pensar, e desta forma acho importante sabermos o que são as pseudociências, o que é ciência (e outros) para não nos enganarmos e cometermos erros entre o que as diferem. Devemos perceber o perigo da cientificização extrema (devemos saber o limite de nossas atuais afirmações científicas, mas entender o maravilhoso processo do método científico em aperfeiçoar seus estudos); devemos notar quanto é perigoso adotar pseudociências, como um subproduto da cientificização (sim, suspeito que a tecnologização e cientificidade geram males como as pseudociências, estas que abrem portas a muitas afirmações dúbias, preconceitos e manipulações de opiniões).

Mas será que toda doutrina religiosa, filosófica ou informação congênere é uma pseudociência? A resposta é não! Pois analisemos o grupo lógico:

Toda pseudociência é uma informação (ou conjunto de informações, doutrina).

Afirmar isto não abre margem para que eu inverta a afirmação dizendo que todo grupo de doutrinas são pseudociências. O grupo de pseudociência pertence ao de doutrina, mas o inverso não é afirmável.

Portanto, voltemos pensar: se uma doutrina religiosa, teoria filosófica ou outro tipo de informação não é repassado como uma pseudociência, ela não é pseudociência. Isso implica que os riscos oferecidos pelo rótulo “pseudociência” não são cabíveis. Pode ser que em cada particular, exemplar de doutrina e teoria, ofereça riscos (se oferecerem) diferentes em determinados viéses de atitudes (suponho que o perigo está na atitude e no uso das teorias, assim uma teoria pseudocientífica é por natureza uma atitude enganatória, consciente ou não, decorrente de um ato cientificista de acreditar como algo cabal e portanto o valor da pseudociência é um valor prático de “crédito” e por si já perigoso).

Nos próximos ensaios, buscarei analisar as protociências e as dinâmicas envolvidas entre pseudociências e protociências. Pretendo também fazer uma análise a algumas áreas: são ou não são pseudociências?

_________________

(*1) – Estou adotando estes comentários por serem relevantes, e não por que foram falados por quem os falou.

Arnaldo Vasconcellos.