A heurística da suspensão é mais uma cosmovisão?

Ao escrever o ensaio “A suspensão do juízo como heurística” havia me perguntado sobre a possibilidade desta suspensão (inclusive a religiosa) ser possível e se ela poderia ser elencada como uma outra cosmovisão. Por este motivo, afirmei que deveria ser feito dentro da possibilidade do que for humanamente possível. E esse é o ponto. Mesmo assim ainda com certas dúvidas e precisando dialogar, cheguei como quem nada queria e comecei expor minhas dúvidas à minha esposa a fim de perceber seu viés acerca do assunto; uma visão diferente da minha. De certa forma, ela chegou justamente no ponto de minha dúvida e conversamos o possível no prelúdio de minha ida ao trabalho.

Também mantive conversa com Vanessa Meira, uma blogueira que estou tratando o assunto. E com base nas seguintes conversas, notei certas objeções ao método heurístico que comentei na postagem supracitada:

1) Suspender juízos de forma completa é impossível. Somos humanos e sempre estamos sujeitos a cosmovisões.

2) O ato de suspender juízos para investigar o mundo é uma cosmovisão. Portanto seria uma cosmovisão que tentaria sobressair-se as demais.

Pois bem, ao escrever originalmente o ensaio supracitado, deixei bem claro que a suspensão deve ser feita, se for feita, “dentro dos limites humanos”. E que esta suspensão não tem em si a consequência de uma “traição” à sua cosmovisão.

Existe uma diferença muito grande em supor uma suspensão de seus valores religiosos (e outros se necessário, para uma investigação) dentro do limite em que você puder e pedir uma suspensão total. Sim, total é impossível, por isto mesmo já estava implicito no meu artigo citado quando dito “humanamente possível”.

Quanto ao ato da suspensão ser uma cosmovisão não se tem muito para fugir, pois toda empreitada humana é tomada por imagens tácitas assumidas. A ciência, como já abordamos em outros ensaios é tomada por imagens de natureza.

Entretanto é difícil determinar se a “suspensão dos juízos” é de fato uma cosmovisão ou se ela precisamente apenas participa de uma. Há diferenças neste quesito.

[.meuadsense] De qualquer forma se for uma cosmovisão, poderíamos indagar se não estamos trocando uma cosmovisão por outra, e assim neste argumento há uma alegação de falta de efeito por trocar duas coisas de uma mesma categoria.

Vamos supor um exemplo bem infantil, mas bastante alusivo: imaginemos que precisamos, por algum motivo, recolher amostras de uma água. Seja de rio, de mar,  filtro etc. Podemos tentar fazê-lo com as mãos e isso não será muito eficiente. Tento um copo, mas percebo que este copo está furado. Não obterei muita amostra. Agora com um copo mais adequado poderei fazê-lo com mais precisão. Sei que o exemplo não é bom, mas estou trabalhando uma categoria geral (recipiente; sim a mão em concha agiria como um recipiente). Estou trocando um recipiente por outro, por mais excêntrico que o seja. Será que então é inútil trocá-lo, pois estou trocando coisas de mesma categoria geral? Aparentemente não, pois por mais que sejam de mesma categoria, existem alguns elementos desta categoria que são mais apropriados que outros.

Da mesma forma trocar uma cosmovisão por outra que peça que, ao máximo que pudermos, suspender o que temos certo como certo e errado como errado e que já julgaríamos ser de fato, não se traduz uma troca sem efeitos. Os mínimos juízos suspensos poderiam ser eficazes, denpendendo do caso, numa heurística.

O fato de trocar uma cosmovisão que me “diga x é y e não toques nisso” em uma que permite um levantamento da dúvida metódica, permite suspeitar se x é realmente y. Pode ser que, de fato x não seja y e com este procedimento, que julgo ser heurístico, permita-me a descobrir.

Isso lembra um bocado que René Descartes teria desenvolvido. Embora ele apelasse uma dúvida central para manter algo que fosse indubitável (a prórpria dúvida, que depois iria assegurar de sua existência como ser pensante) e depois tenha sido influenciado por perspectivas escolásticas (mostranto, de certa feita, uma influência de outras cosmovisões), nos deixou um legado importante: sobre a dúvida metódica.

René Descartes

René Descartes

Não é porque somos seres que trabalhamos com cosmovisões que a substituição de uma por outra será algo errado e impossível. Propor que não devemos fazer tal troca por ser de mesma categoria geral é um equivoco argumentativo, como pudemos apreender acima.

Uma coisa que seria de muito interesse e importância numa heurística da suspensão dos juízos, dentro dos nossos limites, é que a dúvida estaria centrada neste processo. Permitindo um procedimento investigativo para procurar analisar possibilidades. Se com o mesmo processo descobrir algo mais cerne que a própria dúvida no processo heurístico, ele mesmo se permite de autocrítica: poderia ser deixado em suspensão em detrimento de um método heurístico que vislumbrasse o algo mais cerne que a dúvida do método proposto atualmente no artigo supracitado.

Em outras palavras, a suspensão deveria ser feita como método heurístico. Para se apreender o que for possível apreender com nossos aparatos cognitivos, dentro de nossa possibilidade. A suspensão, igualmente, deveria ser efetuada dentro de nossos limites. E a mesma metodologia heurística permitiria, que, SE descoberto algo que permita uma melhor heurística na busca da verdade que não seja a dúvida de forma metódica, ela mesma poderá ser suspensa. Não haveria problema.

Um problema é que talvez, como minha esposa teria afirmado, tal método não pudesse ser universalizável. Mas andei a pensar e notei que talvez a sua não-universalidade pode ser real, mas isso não garante que não seja realizável (ou utilizável). Pode ser não universal, mas poderia ser utilizável por muitos; desde que seu processo seja entendido. Mas ainda tenho dúvidas deste ponto e terei que analisar melhor. Poderia ser um processo individual com muitos indivíduos.

Seria mais uma forma que estaria relacionada com o contexto de criação de teorias, para analisar as possibilidades que pudermos vislumbrar.

Portanto não se trata de manter um juízo intacto. Mas sim de pensar criticamente sobre o que for possível, inclusive do próprio juízo de suspendê-lo. E isso não traduz nenhuma alienação, como afirmou Vanessa Meira (ou burrice, como disse ainda outro blog). É, de certa forma uma forma de pensar criticamente sobre o que nós temos de disponível e de evitar que aceitemos algo verdadeiro, só porque foi o dito ser verdadeiro. Se o que for dito verdadeiro for verdadeiro puder ser analisável por nossa investigação, então não há o que temer ao efetuarmos tal investigação.

E isso poderia evitar muitos (pré)juízos .

Arnaldo Vasconcellos




A suspensão do juízo como heurística

Diversas vezes tenho esbarrado em alguns blogs (alguns de cunho religioso) [*]com pessoas usando de suas crenças para pensarem e analisarem acerca de diversos temas.

Muitas vezes pedi a suspensão dos juízos (religiosos incluídos) e nem sempre fui muito bem compreendido. Um dos argumentos apresentados, por algumas pessoas religiosas com quem conversei, é que se tal pessoa crê fielmente em algo ela deve inundar-se completamente a ponto de poder fazer-se um bom crente. Como expus em alguns blogs, vejo que existe um problema nesta conduta.

Argumento, assim que a suspensão dos juízos é uma boa heurística para se fazer pensar diversos temas que, dentro de cosmovisões determinadas, estaríamos limitados. Lógico que existe o limite do que é humanamente possível fazer de suspensão.

Há um argumento escondido, por parte dos que não aceitam uma suspensão, de como se ao suspender juízos fossemos nos tornar traídores em uma determinada classe de pensamentos (seja religiosa, científica ou filosófica).

Uma boa maneira que encontrei é tentar pensar em diversas hipóteses. O artigo que utilizei o exemplo de Sagan do “dragão em minha garagem” foi um exemplo. Mas houve quem leu de forma teológica, enquanto eu tratava apenas de uma situação hipotética, para depois poder analisar os resultados e trazê-los a tona.

Fazer isso não é deixar o pensamento em compartimentos estanques. Não é, pois o que deixa o pensamento estanque e engessado é justamente trancá-lo em cosmovisões, que cada vez mais pedem que apertemos nossas faculdades do entendimento, a fim de não representar uma suposta “traição”.

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Fazer esta suspensão é pensar que cosmovisões podem estar relacionadas, também, com a nossa falibilidade e atuar neste exercício (de suspendê-las) é crucial para que possamos romper os limites que engessam e compartimentam nossos pensares. É aumentar a possibilidade de compreender o mundo que nos está dado fenomenicamente e possibilitando uma investigação mais profunda, que ultrapasse a mera opinião, doxa e assuma um viés mais compromissado com saber com mais verossimilhança o mundo em que vivemos.

E essa suspensão é válida em todos os campos: religiosos, científicos e filosóficos. Alguém que faça isso não estará despedaçando-se.

Devemos pensar seriamente nisto. Pois se o que tenho como verdadeiro é realmente verdadeiro e se o que há no mundo for de uma possível cognoscibilidade, é possível que, ao fazer a suspensão, eu possa permitir a um pensamento mais livre chegar a um nível mais verossimilhante; esta pesquisa mais verossimilhante, que irá confirmar, negar ou retificar (dentre várias hipóteses) possivelmente as cosmovisões que trago em mim mesmo.

Portanto, não me parece ser estanque ao fazer, dentro dos nossos próprios limites, este exercício investigativo. E muito menos isso denota uma traição às nossas cosmovisões. É, acima de tudo, um compromisso (ou um dos compromissos) em buscar a verdade dentro do limite em que pudermos saber, sem nos deixar levar pelo medo que poderia pura e simplesmente nos impedir de olhar um mundo com maior riqueza de detalhes e com maior profundidade de matiz (um religioso que faça isso não será um religioso de fim de semana ou despedaçado; será apenas alguém compromissado com algo que não seja o medo de falhar com o que acredita. O mesmo é válido para outras situações que não apenas o religioso).

UPDATE (08.10.10) : Assim, tenho que a suspensão do juízo, uma faceta muito clara do ceticismo é possível sim de aplicação. E sua aplicação resume numa metodologia para teste do conhecimento, reforma e restruturação do mesmo. Como uma heurística.

Arnaldo Vasconcellos

[*] Posso citar os blogs. Não o fiz por uma certa cauleta ética.




A garantia social da ciência (Série pseudociências – Parte 6#)

Olhando amplamente todo o leque de pseudociências, pergunto-me “o que fez com que um tipo de explicação não-científica tente se passar por ciência?”.

É claro, como muitos ja apontaram, como Carl Sagan, citado no início de nossa série de ensaios sobre pseudociências, existe uma séria deficiência na alfabetização científica.

Essa deficiência permite que explicações não-científicas passem como científicas; assim como também é possível encontrar pessoas com uma certa fobia ao que e científico. Por que?

Os fóbicos da ciência relacionam os maus usos dos produtos da ciência e tecnologia como se fosse a própria ciência.  Esquecem que ela é um instrumento, assim como outras áreas plenamente humanas. O uso dos produtos científicos e tecnológicos beiram a instrumentalidade: usar um martelo para lesar uma pessoa não significa dizer que o martelo é “mau”.

O valor maléfico ou benéfico é dado aos produtos dela e não a si mesma.  A confusão entre empregos lesatórios, dos produtos de uma ciência e a própria ciência, é uma das fontes de fobia científica.

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Claro que a coisa não é tão simples assim, alguns ainda podem argumentar que o procedimento científico pode empreender resultados que lesariam. O estudo de drogas em animais, por exemplo, podem ser uma lesão a animais.

Mas este é um caso centrado na ética da conduta de pesquisa. O fóbico da ciência, quando admite sua maleficidade, a admite por geral. A generalisa. E pega casos centrados na ética da conduta de pesquisa e generalisa como um todo. Por este motivo deve existir o estudo ético na ciência. Entretanto o argumento do fóbico parece ser truncado: não encontramos em todo o tempo atos que poderiam ser considerados lesatórios num estudo científico. Caso um fóbico da ciência ainda afirme que, em última instância, todo ato de estudo científico leva ou pode levar a lesões a outrém, posso ainda imaginar que este argumento não é muito forte: poderia ser extendido para toda capacidade de raciocínio, não só à ciência, e por último ao ser humano e suas decisões diárias (não vejo essa linha de raciocínio, de que a ciência seria má por possibilitar lesões mesmo que em decorrência de um estudo não lesatório, como uma linha de crítica válida; parece uma crítica externa e ela cabe tanto no que é conhecimento, quanto no que for humano – e assim o homem seria lesatório por natureza e tudo o que produzisse).

Portanto, de uma maneira ampla, o argumento do fóbico parece nascer de uma confusão entre uma escolha realmente lesatória (construir uma arma  com conhecimento técnico-científico e aplicá-la) e uma escolha não lesatória, mas que poderia levar a uma lesão futura (o estudo da combustão de certas substâncias).

Um teste com uma bomba nuclear - Fonte: Wikipédia

Um teste com uma bomba nuclear - Fonte: Wikipédia

A deficiência na alfabetização científica (e não somente nela, mas em muitos campos do conhecimento) pode permitir este tipo de fobia. Não estou falando da crítica à ciência (a ciência como qualquer outro âmbito humano está passível a crítica; e ao meu ver deve estar sempre sobre o crivo do olhar crítico), mas estou a remeter-me ao ato fóbico, quase doentio, da negação do que é ciência ou científico (como se ela fosse uma personagem maléfica de uma história).

A mesma deficiência supracitada, permite com que muitas pessoas aceitem tipos explicativos que não se embasam no método científico, mas que se passam (e se vendem) facilmente como uma “ciência”.

Por qual motivo?

Sou levado a pensar, que este motivo relaciona-se com o fato de que a ciência (para os não fóbicos) responde algo com uma certa precisão. E isto é passado de uma forma às vezes acrítica permitindo uma falsa idéia de absolutização da ciência; absolutização tal que está relacionada com o detrimento da idéia de “método científico”. Foca-se os resultados precisos (ou relativamente precisos, dependendo do caso) da ciência e esquece-se de esclarecer a natureza da própria ciência: ela começa a passar como uma revelação inventiva sem nenhum critério contextual acerca de seus produtos teóricos (esquece-se o que é o método). O caminho (método em grego é caminho) científico é apagado em função da chegada ao resultado de seu caminho.

Esse esmaecimento do método científico – e esquecimento – acaba por levar apenas uma garantia que a ciência falar algo, que no mínimo é verossimilhante ao mundo. Essa é uma garantia social e não é relacionada ao método científico. Relaciona-se com uma má divulgação do que é a ciência.

Quando um cientista emprega o método científico, logicamente está em busca de uma garantia, para teorizar sobre o mundo. Entretanto essa garantia é metodológica. Existe um método que agirá como um mecanismo permitindo que o mínimo do que podemos apreender fenomenicamente esteja teorizado. E, de certa feita, o método científico conseguiu lograr êxito em explicar o mundo, mesmo que gradativamente, pouco a pouco.

E, de uma certa forma, este êxito relaciona-se com os avanços tecnológicos permitidos pelos produtos das pesquisas científicas.

A garantia que um físico busca, ao analisar partículas em um acelerador, é de ordem metodológica. Mas, existe uma garantia social, adquirida pelo êxito da ciência frente ao seu método, que é repassado sem se importar com aquilo que proporcionou o estabelecimento de um mínimo de garantia de padrões naturais: o método.

Uma deficiência nos estudos de ciência (e em outros campos, como a filosofia, creio também) permitem que a garantia social seja extremamente influente.

Essa garantia é uma espécie de tão somente uma credibilidade àquilo que recebe o carimbo de “científico”.

Analisando as pseudociências, ao longo desta série de artigos, notamos que as mesmas se usam do nome de ciência para usufruir desta garantia social, embora não empreguem o método (o que geraria a garantia metódica). Se empregassem o método, suas asserções  poderiam ser refutadas.

Pode até ser que indivíduos que desenvolvam pseudociências façam sua prática sem más intenções: pode ser que eles participem do desconhecimento do método como fonte, ou que tenham uma semântica diferente do que é “ciência”, e por este motivo ainda empregam suas áreas como “científicas”.

Mas, de fato, com ou sem má intenção, categorizar como “científica” é buscar por uma credibilidade, de uma rotulação com uma garantia social.

E isto é um problema. Acaba-se por vender algo como ciência, que não emprega o método científico. Por este motivo creio ser muito importante saber e questionar: o que é a ciência, como ela se dá e do que ela se preocupa?

O uso da garantia social por uma pseudociência, é sem uso da garantia metódica. Torna a própria garantia social uma garantia vazia. Acaba não garantindo uma aproximação epistêmica do que é o mundo. E, repito, isto é um problema muito grande. Problema grande o suficiente para que continuemos a pensar no mesmo; em alternativas para saná-lo e possibilidades para clareá-lo.

Uma dessas possibilidades, que vislumbro, a priori, é pura e simplesmente a educação em sua melhor qualidade.

Arnaldo Vasconcellos




Updates efetuados

Algumas postagens do blog tiveram updates devido a interessantes (ou intrigantes) coisas lidas na internet.

A incomunicabilidade do dragão da minha garagem – (Série pseudociências – Parte 5#)

O Falseacionismo Ingênuo e a solução fantástica (Série pseudociências – Parte 3#)

Leitura recomendada (o mundo assombrado pelos demônios)

Análise ao artigo sobre a pesquisa de Schweitzer




A incomunicabilidade do dragão da minha garagem – (Série pseudociências – Parte 5#)

Dragão chinês

Dragão chinês

Em nosso blog, em outro ensaio já falamos do livro de Carl Sagan “O mundo assombrado pelos demônios”. Neste livro, Sagan tem um capítulo denominado “o dragão da minha garagem” onde explica o caráter ad hoc de teorias não científicas face ao método científico para verificá-las e falseá-las.

Neste ensaio procuro refletir sobre a existência de um dragão que não possa ser analisado sob a luz de nosso método científico.

Uma primeira visita ao exemplo, notamos que estabelecer a existência de um dragão que não pode ser analisado é de difícil instância, pois parece não ser apresentável em nenhuma forma de fenômeno. Também não parece estar relacionado com nenhuma forma fenomênica.

Fenômeno vem do grego “phainomenon” que é basicamente aquilo que é observável, que tem uma aparição.

Um dragão, cuja existência não é estimável por análises de sua aparição, ou seja de seu fenômeno, e não está relacionado com nenhuma outra forma de aparição – poderíamos tentar analisá-lo não apenas diretamente, mas em relação a outras observações correlatas – é um dragão indeterminável. É, com muita possibilidade, de natureza incognoscível (se existente) ou incomunicável.

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Vamos reler o exemplo de Sagan e depois iremos explorá-lo como uma experiência mental:

– Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem.
Suponhamos que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!
– Mostre-me – você diz. Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tinta vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão.
– Onde está o dragão? – você pergunta
– Oh, está ali – respondo, acenando vagamente. – Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível.
Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão
– Boa idéia – digo eu –, mas  esse dragão flutua no ar.
Então, você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.
– Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.
Você quer borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível.
– Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.
E assim por diante. Eu me oponho a todo teste físico que você propõe com uma explicação especial de por que não vai funcionar.
Qual a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa que provar a veracidade dela. Alegações que não podem ser testadas, afirmações imunes a refutações não possuem caráter verídico, seja qual for o valor que possam ter por nos inspirar ou estimular nosso sentimento de admiração. O que eu estou pedindo a você é tão somente que, em face da ausência de evidências, acredite na minha palavra.  (Sagan, C. In: O mundo assombrado pelos demônios. Retirado de: http://scm2000.sites.uol.com.br/dragao.html).

Para Sagan, tal dragão que não possui corporeidade e não responde a nenhuma forma fenomênica deve ser tratado como inexistente. Nesta linha de pensamento a pessoa que afirmou sua existência pode estar enganada ou sofrendo de algum tipo de alucinação (é um problema em determinar como alguém pode ter contato com um ser que supostamente é incognoscível e incomunicável).

Carl Sagan

Carl Sagan

Entretanto para algum argumentador que seja contra esta linha de raciocínio pode afirmar: “ter idéia da existência de dado dragão não é contraditório, pois é uma suposição”. Mas a este tipo de argumentação poderíamos logo responder: “sim, mas uma suposição não nos dá certeza da existência de algo. A priori o dragão ainda não existe como ente real, pode ser apenas um fruto imaginativo”.

Outro argumentador poderia dizer: “é falacioso apresentar que a falta de informações de um dragão aponta a sua inexistência”. Da mesma forma poderíamos responder “é igualmente falacioso apresentar como existente devido a sua falta de informações”.

Ainda mais, não se trata apenas de “falta de informações” de forma trivial, mas se trata de um ente não observável e não testável. Quando Sagan afirma que um dragão inexistente e um dragão incorpóreo e intestável não possuem diferenças entre si está ele afirmando que de nenhuma serventia tem um dragão que realmente possa existir mas ser incognoscível e/ou incomunicável (por extensão, não testável).

A possibilidade de verificação e falseamento da premissa que afirme o dragão existir possibilita conhecer um pouco mais de sua natureza, mesmo que de forma verossimilhante.  É uma garantia.

Portanto o que método científico nos permite, ao trabalhar com entes no mundo, é ter garantia que estes são entes no mundo e que podemos conhecer sua natureza, mesmo em verossimilhança (portanto possuem algum grau de cognoscibilidade e de comunicabilidade).

O “dragão da garagem” parece ter o mínimo de comunica e cognoscibilidade, visto que apenas (no exemplo) uma pessoa afirma ter tido contato. E este contato passa a ser duvidoso, devido ao caráter da falibilidade humana. Pode não passar de uma suspeita (e isso pouco acrescentará sobre sua natureza). Podemos errar em nossas observações e levar a cabo uma pretensa e falsa comunicabilidade de um ser que talvez não seja determinável (e talvez inexistente).

Se é indeterminável não é possível saber se é ou não existente. Se não é fenomênico não está na classe de nosso mundo, que é extremamente fenomênico, portanto longe está do escopo científico.

Podemos não poder determinar cabalmente como inexistente, mas perante a tudo o que temos presente e possível de análise (e talvez tudo o que temos), que é o mundo como ele se apresenta a nós (fenômenos), é fenomenicamente inexistente.

Interpreto de tal forma quando Sagan afirma que tal ser é inexistente, pois seria inexistente fenomenicamente (e portanto possívelmente sem existência em nosso mundo físico).

Colocar tal dragão, de natureza  incomunicável à nós como uma constante igual a um dragão que não existe é plausível quando notamos que o que temos é apenas os fenômenos. E de certa feita fenômenos são  o que há.

A garantia científica pode parecer parca e pálida perante às nossas aspirações religiosas e transcendentais, mas a corroboração ou falseamento de algo nos ajuda a determinar a existência (pelo menos fenomênica) de tais entes. Nos permite saber um pouco melhor onde vivemos – um mundo de fenômenos.

A natureza de um dragão incomunicável e incognoscível não seria determinada em nenhum grau de certeza. Assim ele não tem valia para o escopo científico. Aquilo “do que a ciência se preocupa” pode parecer pouco, mas no final das contas é possivelmente tudo o que temos produzido de mais sublime no campo do entender nosso mundo.

Imaginemos (e isto é uma experiência mental) que um dragão possa até existir em uma certa garagem, mas é incomunicável, apenas imaginável, como sugere este exemplo. Se não é comunicável ou cognoscível não é presente em nosso mundo fenomênico e pouco sentido tem em afirmar que na imaginada garagem realmente ele esteja lá. Será sempre indeterminado e portanto de possibilidade de existência dual. Até o momento em que sua comunicabilidade for estabelecida e sua existência efetivamente testada (por via da teoria de sua existência). Passa-se a navalha de Occam e fenomenicamente não existe. Por fim, ele não existe (com este sentido de contexto). Entretanto se existir de algum modo, e incomunicável, não existirá em nosso mundo de fenômenos (e por ser incomunicável, talvez pouco acrescente diferenças em nosso mundo, pois seria inerte e não reativo aos nossos fenômenos).

Wittgenstein

Wittgenstein

E para um dragão que eu suspeite existir, mas não poder comunicar-me com ele (sua natureza) é melhor me calar. Como diria o filósofo Wittgenstein em seu Tractatus Logico-philosophicus:

7. Daquilo que não se pode falar, deve-se calar (Wittgenstein, In: Tractatus Logico-Philosophicus, proposição 7).

UPDATE

(23.01.10)

Talvez o uso do aforisma 7 de Tractatus tenha soado um pouco duro e algumas pessoas tenham feito uma leitura “teológica”. Quando escrevi o artigo acima, que faz parte da série temática “pseudociências” deste blog, assumi que o raciocínio aqui apresentado estaria falando apenas dentro do escopo científico.

De fato não é importante para o que a ciência trabalha um ser incomunicável (de forma fenomênica). Analisar a natureza de um ser fenomenicamente incomunicável é uma tarefa que ultrapassa o alvo científico.

Notei que algumas pessoas fizeram uma interpretação que beiravam a teologia, como se qualquer discurso a respeito de um ser desses pudesse ser cortado. Como sabemos o objetivo do blog é primeiramente falar sobre a natureza do que é a ciência, e portanto sob o escrutínio desta experiência mental estou pensando acerca da ciência.

Falar metafisicamente (e devemos ter cuidado com a palavra metafísica, que encerra tantos significados) pode até ser possível fazer de um ser incomunicável; mas talvez não passe de possibilidades acerca do mesmo ser. Analisar sua natureza com afinco científico é que julgo ser de difícil acesso e portanto de uma grande ideia seria se calar ao invés de acientíficamente fazer asserções que depois tentará usar com o carimbo de “científico”, como muitas pseudociências fazem.

Suspeito de alguma forma que falar de um ser incomunicável é falar em possibilidades, quando dito em metafísica ou alguma teologia (se quiserem usar a teologia, embora não seja este o meu crivo na postagem). Entretanto é um falar de possibilidades de natureza. Revela coisas interessantes? Sim pode até revelar, mas analisar sob o escopo científico uma natureza de um ser de tal tipo é de uma dificuldade muito grande.

O calar que uso aqui é uma forma que julgo importante para que não se pratique a pseudociência; ou seja que se fuja do escopo científico e use uma consagrada garantia dada socialmente à ciência sem realmente praticar ciência.

Algumas pessoas sentiram-se ofendidas em relação a esta postagem, talvez por associá-la a uma crença. Mas entendam formalmente o que eu disse. Não estou julgando ou analisando crenças teístas. Entendam o “dragão da garagem” como um elemento matemático, uma variável. Poderia ser a “chinforinfola” do Chaves.

Vamos abstrair as ideias. E por falar em ideias: seria simples assim. Para uma ciência que trabalha com fenômenos, um dragão, ou uma chinforinfola, que não produzam fenômenos são incomunicáveis e incognoscíveis. Por estes motivos não afetam o mundo fenomênico e não são prioridade para um aparato investigativo – a ciência – que explique o mundo com caracteres fenomênicos (é, portanto, um ser de natureza cientificamente indeterminável).

Arnaldo Vasconcellos.




OFF Topic: O que você anda lendo(1)?

Atenção, o artigo abaixo é um OFF Topic

Recentemente cadastrei-me em um site extremamente interessante: “Skoob”.

É uma espécie de site de relacionamento no qual você cadastra os livros que leu, possui, deseja, quer trocar, que irá ler e as leituras que abandonou.

É possível escrever resenhas, compartilhá-las e conhecer pessoas com perfis de leitura parecidos com os seus.

Pode-se seguir, ter seguidores, trocar recados. Enfim, vi grande utilidade em conseguir exemplares que estou precisando ler por meio de permuta. Creio que será de extrema utilidade.

Caso queira dar uma olhada, entre em: www.skoob.com.br

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(1) – “O que você anda lendo?” é a pergunta inicial do site.




O caso MOND e a Matéria Escura – Duas ‘teorias’ e duas formas de encarar um problema

Na cosmologia moderna, uma das mais intrigantes descobertas é que a matéria comum (de cunho ordinário) pode não ser responsável por fenômenos, como aceleração do universo, rotação de galáxias etc.

É como se o universo tivesse mais massa do que o detectado por padrão.

De fato ao se tentar metodologias para determinar a massa do universo existe uma discrepância entre resultados, em relação ao resultado gravitacional: o universo, repito, parece ter mais massa do que parece.

A rotação de galáxias é um dos exemplos que sofrem com este efeito ao ser efetuada uma medição. Por este motivo os cientistas elaboraram uma teoria em que a maioria da massa do nosso universo é de uma origem estranha, não bariônica (bárion, partículas de matéria convencional, dotadas de três quarks). Esta matéria estranha seria denominada Matéria Escura.

A matéria escura seria um tipo de matéria que tem influência gravitacional nos corpos, mas não seria detectada de forma tradicional como a matéria convencional (bariônica).

Ela não emite nem reflete luz, por isso, não brilha como uma estrela. Basicamente, a matéria escura não pode ser vista – os cientistas conseguem apenas imaginar onde ela está com base nos efeitos gravitacionais do que eles podem ver. (Site: How Stuff Works, ver link).

Esta matéria seria detectada, por efeitos gravitacionais discrepantes (rotação de galáxias não condizentes com a predição de teorias atuais), dentre outros meios.

M104 - Galáxia do sombrero

M104 - Galáxia do sombrero.

Pensemos de forma bem hipotética: suponhamos que nossas teorias tragam a predição de uma rotação x em determinadas galáxias, então algumas medições mostram uma certa discrepância.

Os astrônomos têm duas maneiras para determinar quanto de matéria preenche o Universo. Eles somam tudo que vêem. E medem a velocidade de movimento dos objetos visíveis, aplicam as leis da física e deduzem quanto de massa é necessário para gerar a gravidade que retém esses objetos. Desconfortavelmente, os dois métodos dão diferentes respostas. a maioria dos astrônomos conclui que alguma massa invisível se esconde lá fora – a alusiva matéria escura. (Milgron, Mordehai. In: Scientific American Brasil, Ano 2, nº 17, outubro 2003).

O que podemos conceber? As leis e teorias atuais estão erradas? Existe a necessidade de estabelecer a existência de uma determinada matéria?

Para alguns cientistas (ao analisar resultados diversos de diversos métodos que vão desde o efeito gravitacional até investigações em raios-x de objetos astronômicos) torna-se patente estabelecer a existência de uma matéria. O problema está em estabelecer qual a sua natureza.

Não é ilícito desconfiar da existência de um ente teórico. Este é um trabalho puramente científico. Por exemplo: antes da descoberta do DNA sabia-se que características genotípicas têm uma certa transmissão, mas qual seria a base bioquímica para tal? Podería-se suspeitar sobre a existência de um mecanismo bioquímico embora não se conhecesse corretamente.

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Ao estabelecer que existe uma matéria, que influencia gravitacionalmente, mas não se conhece sua natureza; pode-se hipotetizar que ou pode ser resultado de matéria convencional que não é capaz de refletir luz, embora tenha efeito gravitacional (no caso de estudos com raios-x) ou é uma matéria totalmente nova. Nesta segunda perspectiva, se imaginarmos que possa estar correta, há uma fascinante alternativa de uma nova matéria a ser estudada que não seria de cunho convencional (se ela existir, o Universo é composto mais por este tipo de matéria do que pela tradicionalmente já conhecidano qual).

Entretanto pensemos da seguinte forma: se eu estiver complicando e incluíndo entes não necessários e criando uma matéria que não existe?

Espero que se torne claro o sentido deste artigo: quero enfatizar que na ciência existem, muitas vezes ao mesmo tempo, o desenvolvimento de dois tipos de visão; a visão de que determinadas informações (empirias) podem representar uma variação na teoria geral estabelecendo uma nova teoria (como a que prediz a matéria escura), ou uma outra que motiva a revisão de leis estabelecidas por uma teoria já existente como é o caso da MOND.

A MOND (Modified Newtonian dynamics, ou Dinâmica Newtoniana Modificada) é uma tentativa teórica em alterar a segunda lei de Newton, que trata sobre a aceleração. Nesta alternativa não seria, a priori, necessária a existência de uma matéria escura.

a MOND ainda está em análise e existe ao mesmo tempo no qual as pesquisas sobre a matéria escura progridem de forma voraz. Aparentemente a teoria da matéria escura está bem mais aceita que a MOND, embora esta tenha uma boa faixa de acerto em relação a rotação de galáxias.

Poderíamos nos perguntar: já que estas duas imagens de natureza e de ciência estão em conjunto, a ponto de existirem pesquisas como a MOND e outra como a da matéria escura que procuram estabelecer o porquê das discrepâncias gravitacionais, onde é que está aplicada a navalha de Occam?

Ora na definição (de Navalha de Occam) encontrada na nossa enciclopédia livre é:

O princípio afirma que a explicação para qualquer fenómeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias à explicação do fenómeno e eliminar todas as que não causariam qualquer diferença aparente nas predicções da hipótese ou teoria (NAVALHA DE OCCAM. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2010. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Navalha_de_Occam&oldid=18322289>. Acesso em: 11 jan. 2010.)

É lógico que a navalha de Occam pede que deixemos as explicações mais simples (e ao meu ver, mais elegantes) e não necessariamente simplórias (neste caso poderíamos ignorar a existência real de entes taxados como desnecessários). Parece que de fato uma aplicação leviana da navalha seria capaz de levar-nos a essa situação descrita como simplória, entretanto creio que uma interpretação fidedigna da navalha é para simplificar e não simplorizar.

Bem, voltemos a MOND e a matéria escura: será que realmente existe uma matéria escura, ou as discrepâncias que dão as pistas de sua existência são nada mais do que uma falha de nosso produto científico (no caso as leis)?

Será que simplificamos e aplicamos a navalha de Occam ao trabalhar com a MOND? Ou será que estamos deixando tudo mais simplório a ponto de ignorar a existência de uma matéria não bariônica?

Segundo o criador da MOND, Mordehai Milgom, a mudança de leis, como a sugerida pela MOND, já teria sido efetuada duas vezes na física newtoniana:

Essa modificação não existiria sem precedentes. Duas mudanças drásticas na física newtoniana já provaram ser necessárias. A primeira elevou a dinâmica newtoniana à teoria da relatividade – tanto a teoria especial (…) como a geral (…). A segunda levou à teoria quântica, que explica o comportamento de sistemas microscópicos e mesmo de sistemas macroscópicos em certas circunstâncias. (Milgrom, M. In:Scientific American Brasil, Ano 2, nº 17, outubro 2003   p. 22).

Segundo o mesmo, a MOND “reproduz observações chaves de galáxias com notável precisão” (Idem, p. 25).

Entretanto a MOND padece do problema de possuir uma característica ad hoc, ou seja sua alteração à lei newtoniana foi criada para explicar uma determinada discrepância.

A problemática aqui, neste artigo, é que um cientista que prefira trabalhar com uma ou outra possibilidade está no fim ligado a uma visão de natureza e de ciência. Talvez possamos fazer uma interpretação frouxa de paradigma neste caso (o que poderia sugerir a maior aceitabilidade da matéria escura em detrimento de uma correção, considerada ad hoc, de uma determinada lei).

Se voltarmos ao exemplo do quarto escuro dado em outro ensaio, podemos imaginar as duas possibilidades: da existência de x, ou da inexistência de x. Podemos estar criando uma definição de matéria onde não existiria ou estar ignorando a existência da mesma, ao adotar uma forma de visão de natureza e de ciência. Poderíamos nos perguntar, onde está a navalha? Na teoria que evita uma ente teórico adicional (matéria escura) ou na que evita uma alteração ad hoc?

Particularmente creio que na ciência cabe as duas possibilidades para geração de teorias e conforme o trabalho científico prosseguir a probabilidade de uma das duas ser falseada será maior, justificando uma outra.

Gráfico da correspondência de MOND com a curva de rotação de galáxias.

Gráfico da correspondência de MOND com a curva de rotação de galáxias. Retirado de http://www.astro.umd.edu/~ssm/mond/

Entretanto uma coisa gostaria de ressaltar: que embora uma ou outra seja corroborada, não nos dá uma fórmula geral para agirmos com a próxima bifurcação teórica (e em ciência existem muitas). Creio que os dois trabalhos são necessários para a geração de teorias, embora um dia há possibilidade de uma apenas sobreviver. Talvez seja sóbrio pensar, que as duas possibilidades não são ilícitas na ciência (alterar leis ou propor existências novas, desde que emparelhadas de um bom sistema metodológico para evitar abusos).

Embora uma ou outra seja mais aceita (como um possível resultado de si mesmas como teorias eficientes ou de paradigmas vigentes) é interessante que as duas continuem em consante desenvolvimento. Aumenta, assim, a riqueza da ciência: e apartir do momento que uma ou outra for falseada, estaremos, talvez, mais perto do que é tal como é no nosso Universo.

Arnaldo Vasconcellos




Efemérides Astronômicas – Janeiro 2010

Para aqueles que gostam de acompanhar os céus, deixo aqui uma postagem de utilidade prática. A seguir temos as seguintes informações: gráfico da esfera celeste, horizonte artificial, eclipses solares e lunares de 2010, fases da lua, horas do entardecer, efemérides de janeiro/2010, e chuvas de meteoros. Os dados observacionais de gráficos estão configurados para 05/01/2010, Brasília, às 21:17 em horário local (sem horário de verão). Considerar diferenças entre os gráficos de “horizonte artificial” e “esfera celeste”, além dos dados de “hora do entardecer” devido aos locais reais de observação.

1) Gráfico da Esfera Celeste.

Clique na imagem para ampliar:

Esfera Celeste - Janeiro 2010 - Visto de Brasília 05/01/2010

Esfera Celeste - Janeiro 2010 - Visto de Brasília 05/01/2010

2) Horizonte Artificial.

Clique na imagem para ampliar:

Horizonte artificial - Janeiro 2010 - Visto de Brasília 05/01/2010

Horizonte artificial - Janeiro 2010 - Visto de Brasília 05/01/2010

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3) Eclipses Lunares e Solares de 2010 (fonte: NASA, links mantidos).

4) Fases da Lua (retirado de software).

  • Lua Nova: 07:11 15-jan-2010
  • Crescente: 10:53 23-jan-2010
  • Lua Cheia: 06:17 30-jan-2010
  • Minguante: 23:48 05-fev-2010


Fases da Lua(PrintScreen)

5) Horas do entardecer (retirado de software).

Horas do Entardecer: 01 jan 2010 to 31 jan 2010

Data           Ocaso Crepúsculo  Escuridão      Aurora   Nascer do Sol
----           ------  --------  --------       --------  -------
sex 01 jan 10  16:01   18:11     None           06:15     08:25
sáb 02 jan 10  16:02   18:12     18:12 - 18:38  06:15     08:25
dom 03 jan 10  16:03   18:13     18:13 - 20:11  06:15     08:25
seg 04 jan 10  16:05   18:14     18:14 - 21:40  06:15     08:24
ter 05 jan 10  16:06   18:15     18:15 - 23:05  06:15     08:24
qua 06 jan 10  16:07   18:16     18:16 - 00:29  06:14     08:23
qui 07 jan 10  16:09   18:18     18:18 - 01:50  06:14     08:23
sex 08 jan 10  16:10   18:19     18:19 - 03:11  06:14     08:22
sáb 09 jan 10  16:11   18:20     18:20 - 04:27  06:13     08:22
dom 10 jan 10  16:13   18:21     18:21 - 05:37  06:13     08:21
seg 11 jan 10  16:14   18:22     18:22 - 06:13  06:13     08:20
ter 12 jan 10  16:16   18:24     18:24 - 06:12  06:12     08:19
qua 13 jan 10  16:18   18:25     18:25 - 06:12  06:12     08:18
qui 14 jan 10  16:19   18:26     18:26 - 06:11  06:11     08:18
sex 15 jan 10  16:21   18:28     18:28 - 06:10  06:10     08:17
sáb 16 jan 10  16:23   18:29     18:29 - 06:10  06:10     08:16
dom 17 jan 10  16:24   18:30     19:05 - 06:09  06:09     08:14
seg 18 jan 10  16:26   18:32     20:16 - 06:08  06:08     08:13
ter 19 jan 10  16:28   18:33     21:26 - 06:07  06:07     08:12
qua 20 jan 10  16:30   18:35     22:37 - 06:06  06:06     08:11
qui 21 jan 10  16:31   18:36     23:50 - 06:05  06:05     08:10
sex 22 jan 10  16:33   18:38     01:05 - 06:04  06:04     08:08
sáb 23 jan 10  16:35   18:39     02:24 - 06:03  06:03     08:07
dom 24 jan 10  16:37   18:41     03:43 - 06:02  06:02     08:06
seg 25 jan 10  16:39   18:42     04:58 - 06:01  06:01     08:04
ter 26 jan 10  16:41   18:44     None           06:00     08:03
qua 27 jan 10  16:43   18:45     None           05:59     08:01
qui 28 jan 10  16:44   18:47     None           05:58     08:00
sex 29 jan 10  16:46   18:48     None           05:56     07:58
sáb 30 jan 10  16:48   18:50     None           05:55     07:56
dom 31 jan 10  16:50   18:52     18:52 - 19:07  05:54     07:55

6) Efemérides (JAN – 2010; fonte: Boletim Super Novas).

Data e hora (Hora de Brasília) Efeméride
01/01/2010 às 20:36:00 Mínima distância entre a Terra e a Lua (360 mil km).
02/01/2010 às 15:29:00 Alinhamento entre a Lua e o aglomerado Presépio.
02/01/2010 às 20:59:00 Menor distância entre a Terra e o Sol (147,1 milhões de km).
03/01/2010 às 19:05:00 Chuva de meteoros na constelação Boieiro (Boötes).
11/01/2010 às 12:43:00 Alinhamento entre a Lua e a estrela Antares.
15/01/2010 às 07:07:00 A Lua oculta o centro do Sol, deixando apenas um anel solar.
17/01/2010 às 01:40:00 Máxima distância entre a Terra e a Lua (400 mil km).
25/01/2010 às 11:00:00 Alinhamento entre a Lua e as Plêiades.
30/01/2010 às 02:48:00 Alinhamento entre a Lua e o aglomerado Presépio.
30/01/2010 às 09:03:00 Mínima distância entre a Terra e a Lua (360 mil km).
07/02/2010 às 18:29:00 Alinhamento entre a Lua e a estrela Antares.
12/02/2010 às 05:55:00 Alinhamento entre a Lua e o planeta Mercúrio.
13/02/2010 às 02:06:00 Máxima distância entre a Terra e a Lua (400 mil km).
21/02/2010 às 18:32:00 Alinhamento entre a Lua e as Plêiades.
26/02/2010 às 14:03:00 Alinhamento entre a Lua e o aglomerado Presépio.
27/02/2010 às 21:40:00 Mínima distância entre a Terra e a Lua (360 mil km).
07/03/2010 às 01:32:00 Alinhamento entre a Lua e a estrela Antares.
12/03/2010 às 10:07:00 Máxima distância entre a Terra e a Lua (400 mil km).
20/03/2010 às 17:32:00 Começa a Outono.
21/03/2010 às 00:08:00 Alinhamento entre a Lua e as Plêiades.
25/03/2010 às 13:57:00 Alinhamento entre a Lua e o planeta Marte.
25/03/2010 às 23:06:00 Alinhamento entre a Lua e o aglomerado Presépio.
28/03/2010 às 04:56:00 Mínima distância entre a Terra e a Lua (360 mil km).
03/04/2010 às 10:17:00 Alinhamento entre a Lua e a estrela Antares.
09/04/2010 às 02:45:00 Máxima distância entre a Terra e a Lua (400 mil km).
16/04/2010 às 12:55:00 Alinhamento entre a Lua e o planeta Vênus.
17/04/2010 às 05:43:00 Alinhamento entre a Lua e as Plêiades.
22/04/2010 às 05:35:00 Alinhamento entre a Lua e o aglomerado Presépio.
22/04/2010 às 09:27:00 Alinhamento entre a Lua e o planeta Marte.
22/04/2010 às 16:35:00 Chuva de meteoros na constelação Lira.

7) Chuvas de meteoros (fonte wikipédia, links para seus verbetes mantidos).

Nome Datas Data do pico Ascensão recta Declinação Velocidade (km/s) THZ Intensidade e descrição
Quadrântidas Jan 1Jan 5 Jan 3 15:20:00 49 41 120 Forte com velocidades médias
Gamma Velídeas Jan 1Jan 15 Jan 5 08:20:00 -47 35 2 Fraca
Alpha Crucídeas Jan 6Jan 28 Jan 15 12:48:00 -63 50 3 Fraca
Delta Cancrídeas Jan 1Jan 31 Jan 17 08:40:00 20 28 4 Média
Alpha Hidrídeas Jan 5Feb 14 Jan 19 08:52:00 -11 44 2 Fraca
Eta Carinídeas Jan 14Jan 27 Jan 21 10:40:00 -59 2 Fraca
Alpha Carinídeas Jan 24Fev 9 Jan 30 06:20:00 -54 25 2 Fraca
Delta Velídeas Jan 22Fev 21 Fev 5 08:44:00 -52 35 1 Fraca
Alpha Centaurídeas Jan 28Fev 21 Fev 7 14:00:00 -59 56 6 Média
Omicron Centaurídeas Jan 31Fev 19 Fev 11 11:48:00 -56 51 2 Fraca
Theta Centaurídeas Jan 23Mar 12 Fev 21 14:00:00 -41 60 4 Fraca

8 ) Fontes.




Alterações Ad hoc – Limites entre o lícito e o ilícito (Série pseudociências – Parte 4#)

Quando falamos a respeito do Falseacionismo Ingênuo (ou falseacionismo dogmático), estabelecemos que existe um problema sério para demarcar até que ponto é lícito as alterações ad hoc que podem incluir novas, ou alterar antigas hipóteses.

Em outro ensaio, também estabelecemos, que existe um problema de demarcação entre o que é ou não pseudociência. De forma geral, como diz na publicação “Crítica na Rede”, “O problema da demarcação consiste em distinguir a ciência das disciplinas não científicas que também pretendem fazer afirmações verdadeiras sobre o mundo” (Achinstein, Peter in: Crítica na Rede. Ver link). Este termo teria sido utilizado, primariamente, por Popper e podemos afirmar que sua pesquisa de um falseacionismo seria justamente demarcar o que é científico.

O problema da demarcação é um problema de âmbito epistemológico (demarcar qual produto do conhecimento pode ser considerado científico). Pensadores podem até ter desenvolvido formas de fazer tal demarcação, mas ainda assim encontra-se problemas residuais acerca disto. Se Popper desenvolveu uma filosofia da ciência em que o que é teoria científica é refutável, isto é um avanço – entretanto existe ainda o problema residual: se formos dogmáticos no falseacionismo, assumiremos que toda e qualquer alteração ad hoc é ilícita; entretanto isto é um sério problema epistemológico, pois como poderíamos chegar a construir uma teoria consistente, caso toda e qualquer hipótese refutada fosse capaz de falsear toda a teoria?

Ora essas duas formas que expus acima são apenas duas faces de um mesmo problema. Se é problemático definir, penso, até que ponto é lícito alterações ad hoc também temos um problema em definir com precisão o que é científico.

Evidente que alguns casos saltam como exemplos claros. Carl Sagan no livro “O mundo assombrado pelos demônios” (do qual já escrevi um artigo a respeito) fala do exemplo do “dragão na minha garagem”. Se eu quero provar para você que existe um dragão na minha garagem e, você que é um cético, questiona de todas as formas possíveis a minha afirmação e eu rebato o tempo inteiro com alterações ad hoc transformando a afirmação inicial em uma outra afirmação durante o processo, é claro que esta não será uma afirmação de minha parte que tenha caráter científico.

Uma teoria pseudocientífica, no entanto, pode-se utilizar de forma abusiva das alterações ad hoc. Mas qual é o nível desse abuso?

Se olharmos a história da ciência encontramos o caso da teoria do Éter, no qual a luz se propagaria numa onda num meio muito tênue, o éter.

Hendrik Antoon Lorentz

Hendrik Antoon Lorentz

As tentativas experimentais para detectar o éter falharam ao apontar a natureza do mesmo (ver experimentos de Michelson e Morley). Explicações sobre o funcionamento da luz no éter então surgiram. Estes tipos de alterações foram ad hoc.

Ora, claro que ainda neste meio tempo a eficácia de uma teoria ou outra pudessem ser questionadas, mas os experimentos tinham boa base teórica (leia: tinham boa coerência com a teoria) e nenhum deles foi capaz de detectar o éter, mesmo com a condição da coerência teórica. A saída foi alterar a teoria do éter para explicar o porque que mesmo os experimentos estando em coerência com a teoria não foram capazes de detectá-lo.

As alterações nestas teorias, sobretudo as re-interpretações de um cientísta chamado Lorentz salvaram a teoria do éter por um tempo, mas ao mesmo tempo abriu bagagem teórica para o desenvolvimento de outro aparato teórico: a teoria da relatividade, por Albert Einstein.

Albert Einstein

Albert Einstein

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Ora a teoria do éter, com alterações ad hoc estava de certa forma, mesmo alterada, novamente no páreo da falseabilidade. A teoria da relatividade foi proposta. Talvez possamos dizer que a navalha de occam foi aplicada (parece que sim) e a teoria da relatividade especial entrou no páreo científico.

A teoria do éter foi caindo em descrédito e hoje é tomada como falseada.  Foi substituída por outras teorias como a Relatividade e as equações de Maxwell. Entretanto seu status de teoria científica não pode ser diminuída – embora esteja completamente falseada.

Agora, se sempre fosse efetuadas alterações, para mesmo com um conjunto de teorias concorrentes e mais sofisticadas, ela não desaparecer, poderíamos esbarrar na pseudociência.

Uma pseudociencia, mesmo com um conjunto de teorias mais eficazes e falseamento sucessivo na área empírica, continua por estabelecer alterações ad hoc para continuar como ativa.

O problema da pseudociência é que estas alterações são para que a mesma continue com alguma correspondencia com os resultados, mesmo perante o escrutínio científico. Mas estas alterações acabam por tirá-la do campo científico (porque as torna irrefutáveis devido a possibilidade de alterações sucessivas). Este movimento é um tanto interessante, pois ao acontecer tal fato, suponho, é que a dita teoria tenta continuar a ser creditada como científica – tornando-se pseudociência. Ou esta teoria se torna pseudociência, ou será uma mera teoria não científica (caso não tenha a pretensão de continuar ser ciência).

Ora, o fato de deixar de ser científica significa que a garantia teórica buscada (corroborar ou falsear) não pode ser apontada naquele sistema.

Alguns exemplos de áreas que são potenciais pseudociências são enormes, como a numerologia, quiromancia etc. Entretanto, assim como já falamos, é fácil estabelecer uma distinção entre extremos, alguns casos podem se tornar complicados para uma possível demarcação – necessitando de mais critérios.

Ao longo de nossos ensaios, podemos notar que uma teoria científica não só está conectada a pontos empíricos, mas também a uma sofisticada coerência entre dados indiretos, outras teorias etc (e é justamente isso que faz o falseacionismo ingênuo ser problemático).

Existe, portanto um limite entre alterações ad hoc lícitas ou ilícitas – parece-me ser que, caso for a alteração de uma hipótese mais afastada do núcleo de coerência da teoria, e em um número não tão elevado, permitindo ainda pontos falseadores ela é permitida (mesmo com moderação). Entretanto se é demasiada, altera o núcleo da teoria, com o intuito de apenas salvar a teoria e não permitir pontos falseadores, é ilícita do ponto de vista do método científico.

Arnaldo Vasconcellos