OFF: Endeavour aproximando da atmosfera

Endeavour voltando à atmosfera terrestre.

Uma imagem muito bela. Não pude deixar de destacar.

Endeavour aproximando da atmosfera

Endeavour aproximando da atmosfera

A imagem é da nasa. Clique na imagem para abrir no tamanho original. A foto foi a foto do dia do site Astronomy Picture of the Day, que a cada dia seleciona uma foto de destaque. Este foi do dia 16 de fevereiro de 2010.

A de hoje, por exemplo (26 de fevereiro) é:

NGC 3372

NGC 3372




Só se pode navegar existindo a escrita?

Em um blog criacionista foi formulado um argumento em que por a língua escrita ter sido desenvolvida a aproximadamente (no máximo) 6.000 anos, isso seria base de uma dúvida da datação evolucionista, em relação ao desenvolvimento da navegação (por base no papel de transferência de saberes tecnológicos que a escrita pode representar) e por conseguinte dúvida da veracidade do próprio evolucionismo (com este argumento).

Eu me pergunto, será realmente que somente se pode navegar existindo a escrita, como afirma o blog?

O blog coloca que a escrita é uma condição necessária para se desenvolver a navegação.

Vamos analisar o artigo em questão. Diz assim o artigo:

“Uma das muitas coisas que me leva a não ter fé na  teoria religiosa evolucionista [sic!] é o facto do conhecimento humano se desenvolver rapidamente. O que é que isso tem a ver, perguntam vocês…

“Pois bem, os evolucionistas acreditam que o Homo erectus, um ser humano que até tinha capacidade para falar, está na terra há cerca de 2 milhões de anos. Não obstante, eles acreditam que estes seres humanos só nos últimos 10.000 anos da História é que descobriram coisas como a agricultura, criaram civilizações, monumentos gigantes, foguetões e blogues. O conto evolucionista custa a engolir porque nós sabemos que, em 6000 anos de História registada, o conhecimento progrediu de uma forma devastadora. Mas aí vem o evolucionista e saca do bolso uns milhões de anos que nunca ninguém viu nem registou, onde o conhecimento parece ter estado estagnado.”

Não me parece que “estagnado” seria a palavra certa. A velocidade de desenvolvimento de conhecimento humano pode ser potencializada com adventos de técnicas. Parece-me plausível supor que a escrita poderia ter um papel, ao longo dos tempos, potencializador em como se transmite uma técnica (ou tecnologia) e portanto não poderíamos chamar de “estagnado” o estágio anterior. Assim como a internet hoje pode potencializar a divulgação e a velocidade de informações, a escrita pode ter tido (ou ainda ter) seu papel neste fomento.

Ainda mais a frente o autor afirma:

“Navegação começou 100 mil anos antes do que se pensava

“Esta notícia saiu esta semana e serve muito bem como exemplo do assunto que está a ser discutido. Segundo os conceitos de datação evolucionistas, ferramentas de pedra encontradas na ilha de Creta indicam que os humanos de há 130 mil anos (130.000) já navegavam pelo Mediterrâneo. Uma vez que segundo eles Creta é uma ilha desde há 5 milhões de anos, aquelas ferramentas têm de ter sido trazidas para lá por alguém que navegou até ao local.

“Eis o que o dr. Thomas Strasser disse, referindo-se ás ferramentas: “Ficámos completamente atónitos. Aquelas coisas não deveriam estar lá“.

“Vamos assumir a datação evolucionista por algum tempo. O evolucionista conta-nos a histórinha de que há 130 mil anos já havia seres humanos que tinham conhecimento de navegação mas só 120 mil anos depois é que se lembraram de criar um alfabeto e registar a sua História. A treta não pega.” [Grifo meu].

Ora, não é menos plausível pensar na possibilidade de povos que desenvolvam a navegação e depois venham a desenvolver navegação. O desenvolvimento da escrita não foi uniforme e parece que o argumento do autor criacionista é envolto na seguinte hipótese (h1) “Deus criou os homens com a escrita, porque a escrita apareceu a uns 5000 ou 6000 anos atrás” e este está atrelado ao (h2) “é contra-senso desenvolver navegação sem a escrita, pois com a escrita pode-se transmitir a tecnologia de navegação”.

Entretanto os povos ao longo do mundo não criaram a escrita ao mesmo tempo. Algumas desenvolveram a 3000 a.C.,  outras à 1500 a.C etc. Portanto derruba o h1.

Outra importante coisa a se salientar que não obrigatoriamente todos os povos tenham desenvolvido uma tradição escrita que fosse capaz de transmitir tais técnicas de navegação. As técnicas de navegação parecem poder ser transmitidas por via oral, visto que lingua falada não é necessariamente língua escrita (contrariando o h2). Assim é possível existir povos que não se tenha desenvolvido escrita, mas que com uma cultura oral pudessem transmitir técnicas básicas de construção de embarcações e navegação – e a transmissão oral pode-se basear em contos de lendas, tradições, culturas etc.

Não parece, ser, portanto, difícil supor a transmissão oral de feitos e técnicas.

[meuadsense]

Vamos citar um trecho da Wikipédia, só para ilustrar, sobre História da Tecnologia:

“Apesar da relativa falta da evidência direta sobre o conhecimento possuído pelo homem pré-histórico, as tecnologias pré-históricas sobreviventes também permitem conjecturar sobre a compreensão do mundo nessa era.

“A sobrevivência era a prioridade; mesmo hoje, com o grande tsunami de 2004, os ilhéus de Andaman recordaram os conselhos dos seus antepassado, foram para as elevações, e sobreviveram ao tsunami, como seus antepassados fizeram em tempos imemoriais. Estas pessoas relataram este conhecimento às tripulações do avião de resgate que estavam pairando sobre as ilhas de Andaman, após o avião ter sido atacado pelas suas setas .”

[ver este em: HISTÓRIA DA TECNOLOGIA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2010. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_tecnologia&oldid=18855028>. Acesso em: 25 fev. 2010.]

É também notório dizer que o desenvolvimento de técnicas de navegação não precisam seguir um rítmo constante, ao se considerar povos distintos.  (lembrete: favor acompanhar a notícia linkada pelo blogueiro, que é esta).

O fato de se encontrar artefatos antigos que deveriam ter chegado por meio de embarcações num tempo mais atrás do que o esperado não significa que o desenvolvimento da navegação pela humanidade, tenha se feito de repente e transmitido igualmente por todo o tempo. Se estudarmos a história do processamento de dados tomaremos Charles Bobbage e Ada Lovelace como precursores do processamento de dados (com a invenção da Máquina analítica e sua programação, feita por Ada). Entretanto podemos apontar Blaise Pascal com a invenção da Pascaline, uma calculadora mecânica, como estando na lista de pessoas envolvidas no desenvolvimento de técnicas de processamento. O desenvolvimento do processamento de dados, que hoje tem um rítmo alucinante, já possuiu outro rítmo outrora. Coisas semelhantes podem acontecer com desenvolvimento de outras técnicas e tecnologias ao longo da história da humanidade.

La Pascaline

La Pascaline

Mais a frente ele diz no referido blog:

“Mesmo se ignorássemos estes últimos dados, os evolucionistas já acreditavam que os seres humanos de há 30 mil anos navegavam. Ora, um dos primeiros interesses de quem navega seria registar as suas observações, partilhá-las com os outros.”

Bem, não necessáriamente! Se eu construo um barco para atravessar uma massa de água (seja lago, rio, mar, oceano) a meu primeiro interesse é chegar ao outro lado. Mas vamos supor que esta informação embora não seja necessariamente assim, possa ser parcialmente plausível: se eu não souber escrever poderei passar oralmente o que aconteceu durante minha odisséia e o que encontrei. Inclusive, por falar em “odisséia” existe uma vertente de especialistas que afirmam que a Odisséia de Homero é baseada em cantos que eram entoados desde muito antes de serem convertidos à via escrita.

Lógico que a escrita permite uma possível sobrevivência maior de relatos do que aqueles que são passados por via oral numa determinada cultura. E o papel revolucionário da escrita, ao meu ver, é justamente este, permite fixar por um tempo algo que poderia ser vertido em diversas versões (com facilidade) no meio oral. Este fator é o que permite a potencialização de transmissão de certas informações. Apesar disto não é este motivo que faz desmerecer que uma tradição oral não possa ter transmitido tais técnicas. É só uma modalidade diferente de transmitir informações, e cada uma com sua peculiaridade.

Ainda diz:

“Simplesmente não faz sentido seres humanos já andarem a conhecer o planeta há coisa de 130 mil anos e não desenvolverem uma forma de escrita para registar as observações marítimas, eventuais trocas comerciais, o conhecimento de como se constroem barcos, etc.”

Sim, faz sentido. O que se afirma ao dizer que a navegação pode ter-se iniciado a 130 mil anos é que por volta deste prazo já se tem dados que possibilitam supor navegação. Mas isto não quer dizer que a prática da navegação foi uniforme neste período. Povos diferentes chegaram a desenvolver de forma diferente suas técnicas de navegação, em rítmos diferentes. Afirmar que não faz sentido e não ter existido registro documental é ignorar que povos podem ter rítmos diferentes e que eles possam sim ter registrado por meio de transmissões orais de seus feitos.

Abaixo está a minha resposta ao autor do blog referido:

“Sabino,

Interessante o que está apresentando, mas *JULGO* estar esquecendo de alguns pontos, o que apesar de interessante não faz sua conclusão ser verdadeira:

A língua oral e a escrita são basicamente duas formas diferentes de linguas.
É plausível que antes do advento da lingua escrita já existisse uma lingua oral. Ela poderia ser suporte para se pensar uma transferência tecnológica entre indivíduos de como se construir embarcações.
Inclusive é plausível transmitir oralmente a construção de barcos (ou de objetos com os mesmos princípios hidráulicos) mesmo hoje, sem intermédio da escrita. Ensinar uma criança a fazer um pequeno barco, mesmo sem que ela saiba ler/escrever não é um evento difícil.
A invenção da escrita não foi uniforme, deve saber bem isso; em alguns lugares se registra 1500aC e outros 3000aC; entretanto é possível encontrar entre estes locais com diferentes datas de desenvolvimento da escrita aplicações de princípios hidráulicos básicos (IN OFF:e isso leva supor então que se o advento da escrita se coincide com a criação dos homens, então em regiões diferentes foram criados em épocas diferentes).
Porque podemos encontrar esses princípios básicos mesmo em povos com desenvolvimento de escrita em época diferente?
Porque esses princípios hidráulicos básicos podem ser transmitidos oralmente (e lingua falada não é a mesma coisa de lingua escrita)

[ver livro “Preconceito Lingüístico. O que é, como se faz?, autor Marcos Bagno; Ed. Loyola”].

Livro: Preconceito Lingüístico, o que é, como se faz?

Livro: Preconceito Lingüístico. O que é, como se faz?

Portanto a conclusão de seu artigo é falsa; sim a luz do que sabemos do que posse ser “navegação” e sob a luz do que sabemos ser língua falada x língua escrita podemos sim notar que é possível se desenvolver e transferir TECNOLOGIAS (seja de caça, de pesca, de nevegação etc) que sejam passadas não somente por uma modalidade que estamos tão acostumados que se chama “escrita”.

Afinal, é bem possível que ainda hoje uma pessoa que seja, por exemplo, analfabeta possa construir barcos, por mais simples que pareçam perante aos luxuosos cruzeiros feitos por engenheiros; mas que ambas carregam os mesmos princípios hidráulicos necessários para a flutuação e navegabilidade.

Lembre-se, transmissão de “tecnologia” não necessita apenas ser por intermédio escrito. Lógico a escrita POTENCIALIZA essa transmissão, mas não vejo impossibilidade em transmitir isso oralmente. Será que não podemos imaginar essa transmissão ocorrer por meio de religiões e crenças locais, em que um grupo social possa transmití-la embutida por meio de lendas ou crenças? Sim é possível.

Portanto cuidado com as confusões apresentadas em seu post.

Até mais,

Arnaldo.”

Acho que isto já é suficiente para contra-argumentar o artigo em questão.

Arnaldo Vasconcellos.




Diagramas de Euler e Venn

Posto aqui um vídeo que fiz em 2008 para explicar como aplicar diagramas de Venn e Euler em silogismos.

O vídeo está sob a licença GNU/FDL.

[.meuadsense] P.S.: Deve-se apenas atentar para uma errata colocada em legenda, quando estou explicando sobre “hachura” no diagrama.
Arnaldo Vasconcellos.




Pode uma teoria científica representar posicionamento religioso? (Série "Do que a ciência se preocupa" Parte 7#)

Ultimamente tenho lido diversos outros blogs. Pude constatar que existe, de uma certa maneira, a idéia que aceitar um determinado ramo da ciência, ou ainda uma determinada teoria, seria coadunar com certos preceitos religiosos (ou não-religioso),  valores (costumes) estabelecidos. É como se uma moral baseada num posicionamento religioso estivesse envolvido ao adotar uma teoria científica. Refleti por um tempo sobre o assunto e encontrei que, possívelmente, se trata de um grande equívoco.

Tomemos como exemplos duas teorias. A teoria do Big Bang e a teoria moderna da evolução. Para algumas pessoas, aceitar a teoria da evolução (ou do Big Bang), ou ainda trabalhar com ela é aceitar uma espécie de ateísmo.

Começo a pergunter-me o porquê destas afirmações. Aparentemente a resposta parece estar envolvida com o fato de que as teorias científicas em questão não estão associadas a preceitos religiosos determinados, ideiais de uma cosmovisão baseada em crenças determinadas. Desta feita para alguns adeptos religiosos aceitá-la é trair seu ideário religioso. E isso não convém para os mesmos que usam o argumento apresentado.

Levando em consideração as reflexões do artigo A garantia social da ciência (Série pseudociências – Parte 6#) parece que é atribuído, por parte dos que utilizam estes argumentos uma moralidade na teoria, como se a teoria carregasse consigo ideais puramente morais. Talvez este fato curioso tenha um mecanismo parecido com o da pseudociência, só de caráter contrário (visa a denegrir o funcionamento de uma determinada teoria, por não ser conveniente com alguma crença específica).

Vejam bem, não estou dizendo, ao longo do blog, que durante o desenvolvimento de uma teoria, que um indivíduo não deixe rastros de suas cosmovisões para desenvolvê-la. Isto pode ocorrer. Entretanto, refleti que isto é preferível não acontecer (ver os artigos “A suspensão do juízo como heurística” e “A heurística da suspensão é mais uma cosmovisão?“).  Tecnicamente o método científico deve ser usado para evitar tais processos de parcialidade (embora sempre possam ocorrer, os processos de parcialidade tendem a diminuir com um método rigoroso que funcione não somente com um ou outro indivíduo, mas com toda uma comunidade envolvida no processo científico).

Claro que a idéia de ciência tem consigo imagens tácitas do que é o mundo, e que elas possam ordenar a imagem de uma ciência específica. E uma questão que pode ocorrer disto é: se é imagem por imagem, porque não aceitar uma imagem tácita que aceite valores morais determinados? Esta questão já foi abordada num dos artigos supracitados, mas voltamos a falar dela pois é preciso explicitar que a questão é estruturalmente diferente (suspender juízos religiosos, morais, filosóficos e até mesmo científicos, dentro da possibilidade que o psicológico permitir; isso será uma possibilidade de criação de novas funções teóricas sem amarras do preconceito). Entretanto na estruturação de uma ciência existe uma imagem de ciência embasada numa imagem de natureza – funcionando num mecanismo girado pelo método.

O ponto é, se for eu fazer uma investigação, deverei evitar que minhas convicções (e no caso mencionado no título deste artigo seriam as convicções morais) venham a interferir num contexto de criação teórica (e que depois, se interferida, servirá de ponte num contexto de justificação).

[meuadsense]

Em outras palavras, a “heurística” proposta é para a livre criação de teorias.  Seria um equívoco aliar nossas convicções morais como forma investigativa de uma teoria (criação, reformulação), ainda mais tentar mantê-la num contexto de justificação.

Ora, uma imagem de natureza permite imagens de ciência. Assim o indivíduo que estiver praticando uma determinada ciência, participa de imagens de ciência que constituem um método determinado. E este, que por sua vez determina o escopo do que é estudado. Assim a heurística apresentada nos artigos, já citados, é para evitar que preceitos que não participem do escopo venham a retirar do processo investigativo o foco do que é estudado.

Enfim, uma ciência que trata de coisas naturais, deve portanto estar enfocada, nada mais coerentemente, com o que é natural. E o seu método é moldado para que funcione com esta classe de elementos epistemológicos (o que for naturalmente dado).

Desta feita, parece plausível que uma suspensão de juízos, dentro da possibilidade, evitaria choque do que eu poderia acreditar ser tomado como certo ou verdeiro, mas que chocaria no procedimento de “fazer uma determinada ciência”.

Por este motivo uma teoria científica, de ordem a tratar do natural, parece incompatível com teores religiosos ou teores ideológicos que não estejam em seu escopo simples, curto, mas profundo que é estudar algo de ordem natural e fenomenicamente detectável.

A questão é complexa, sim, e merece uma reflexão maior, mas durante esta minha reflexão, julgo que uma teoria científica, assim como um método que a define, são instrumentais para entender o mundo que estamos envolvido. Não estou afirmando que sejam os únicos meios, mas estou afirmando que, dentro do puzzle que uma determinada ciência pode representar, o que é funcional é aquilo que está alinhado ao seu método (e consequentemente à sua imagem primordial de natureza). Em outras palavras, a suspensão dos juízos seria até, se executada no máximo, onde o método enfoca pictoricamente a imagem de natureza que ele (método) pertence; este procedimento estaria relacionado, primariamente, ao contexto de criação, mesmo que sendo uma só etapa do processo criativo (o confronto com crenças pode até ser uma outra etapa do processo criativo; mas manter-se suspenso parece evitar que até este confronto nos faça pender para preceitos não aceitos pela imagem de natureza envolvido num método [e portanto passa a ser do contexto de justificação, secundariamente]). Fazer além do enfoque pictórico do método, durante a etapa criativa, já não seria totalmente científico, pois estaria fora do puzzle; poderia ser filosófico, talvez.

Assim, uma teoria que trate do início do universo observável, ou uma teoria que trate da origem e multiplicidade de espécies biológicas são maneiras, instrumentos, para explicar aquilo que nos é dado de forma fenomênica. É, portanto, uma forma de tratar coisas que são possíveis de predizer em aparição, fenomênica. E estes instrumentais estão relacionados a um mecanismo pictórico do método.

Então, uma teoria bem categorizada, podemos dizer, bem formada, dentro do método empregado, é um instrumento cujas características morais do indivíduo não são necessariamente empregadas para o funcionamento da mesma.

Não importa se quem está desenvolvendo teoricamente o big bang ou a teoria da evolução é ateu, teísta, deísta ou agnóstico. O que estará em jogo no puzzle do método são características que poderão gerar previsões, estas tais que poderão ser testadas sob a luz do método científico.

Para tentar elucidar mais, criei uma ilustração sobre as imagens de natureza e de ciência, frente a ampla cosmovisão contida pelo indivíduo que porventura possa estar envolvido com o trabalho de uma determinada teoria:

Imagens de Ciência x Imagens de Natureza x Cosmovisões latu sensu

Imagens de Ciência x Imagens de Natureza x Cosmovisões latu sensu

Portanto parece um equívoco quando encontro pessoas dizendo que se eu aceito a teoria da evolução estou aceitando preceitos, costumes, morais ateístas. A teoria é bem “seca” neste quesito. Tratar a existência de Deus não está em seu escopo – é algo sobrenatural, e portanto fora do escopo natural da ciência. É um equivoco dizer que um instrumental que não trabalha com estes termos é um maquinário ateísta.

Indivíduos diferentes podem fazer interpretações religiosas diferentes de uma teoria científica. Alguem que acredite em Deus pode pensar que a evolução é um meio divino de alterar as coisas. Uma outra pessoa pode achar que aceitar a evolução é sinal de ateísmo latente etc. Entretanto interpretações sobre a teoria não são a própria teoria. Por sermos humanos é possível que venhamos as vezes padecer destas interpretações, mas elas não representam o que é a teoria (o escopo das teorias científicas são restritos a uma determinada área de estudo).

Arnaldo Vasconcellos




Pode uma teoria científica representar posicionamento religioso? (Série “Do que a ciência se preocupa” Parte 7#)

Ultimamente tenho lido diversos outros blogs. Pude constatar que existe, de uma certa maneira, a idéia que aceitar um determinado ramo da ciência, ou ainda uma determinada teoria, seria coadunar com certos preceitos religiosos (ou não-religioso),  valores (costumes) estabelecidos. É como se uma moral baseada num posicionamento religioso estivesse envolvido ao adotar uma teoria científica. Refleti por um tempo sobre o assunto e encontrei que, possívelmente, se trata de um grande equívoco.

Tomemos como exemplos duas teorias. A teoria do Big Bang e a teoria moderna da evolução. Para algumas pessoas, aceitar a teoria da evolução (ou do Big Bang), ou ainda trabalhar com ela é aceitar uma espécie de ateísmo.

Começo a pergunter-me o porquê destas afirmações. Aparentemente a resposta parece estar envolvida com o fato de que as teorias científicas em questão não estão associadas a preceitos religiosos determinados, ideiais de uma cosmovisão baseada em crenças determinadas. Desta feita para alguns adeptos religiosos aceitá-la é trair seu ideário religioso. E isso não convém para os mesmos que usam o argumento apresentado.

Levando em consideração as reflexões do artigo A garantia social da ciência (Série pseudociências – Parte 6#) parece que é atribuído, por parte dos que utilizam estes argumentos uma moralidade na teoria, como se a teoria carregasse consigo ideais puramente morais. Talvez este fato curioso tenha um mecanismo parecido com o da pseudociência, só de caráter contrário (visa a denegrir o funcionamento de uma determinada teoria, por não ser conveniente com alguma crença específica).

Vejam bem, não estou dizendo, ao longo do blog, que durante o desenvolvimento de uma teoria, que um indivíduo não deixe rastros de suas cosmovisões para desenvolvê-la. Isto pode ocorrer. Entretanto, refleti que isto é preferível não acontecer (ver os artigos “A suspensão do juízo como heurística” e “A heurística da suspensão é mais uma cosmovisão?“).  Tecnicamente o método científico deve ser usado para evitar tais processos de parcialidade (embora sempre possam ocorrer, os processos de parcialidade tendem a diminuir com um método rigoroso que funcione não somente com um ou outro indivíduo, mas com toda uma comunidade envolvida no processo científico).

Claro que a idéia de ciência tem consigo imagens tácitas do que é o mundo, e que elas possam ordenar a imagem de uma ciência específica. E uma questão que pode ocorrer disto é: se é imagem por imagem, porque não aceitar uma imagem tácita que aceite valores morais determinados? Esta questão já foi abordada num dos artigos supracitados, mas voltamos a falar dela pois é preciso explicitar que a questão é estruturalmente diferente (suspender juízos religiosos, morais, filosóficos e até mesmo científicos, dentro da possibilidade que o psicológico permitir; isso será uma possibilidade de criação de novas funções teóricas sem amarras do preconceito). Entretanto na estruturação de uma ciência existe uma imagem de ciência embasada numa imagem de natureza – funcionando num mecanismo girado pelo método.

O ponto é, se for eu fazer uma investigação, deverei evitar que minhas convicções (e no caso mencionado no título deste artigo seriam as convicções morais) venham a interferir num contexto de criação teórica (e que depois, se interferida, servirá de ponte num contexto de justificação).

[meuadsense]

Em outras palavras, a “heurística” proposta é para a livre criação de teorias.  Seria um equívoco aliar nossas convicções morais como forma investigativa de uma teoria (criação, reformulação), ainda mais tentar mantê-la num contexto de justificação.

Ora, uma imagem de natureza permite imagens de ciência. Assim o indivíduo que estiver praticando uma determinada ciência, participa de imagens de ciência que constituem um método determinado. E este, que por sua vez determina o escopo do que é estudado. Assim a heurística apresentada nos artigos, já citados, é para evitar que preceitos que não participem do escopo venham a retirar do processo investigativo o foco do que é estudado.

Enfim, uma ciência que trata de coisas naturais, deve portanto estar enfocada, nada mais coerentemente, com o que é natural. E o seu método é moldado para que funcione com esta classe de elementos epistemológicos (o que for naturalmente dado).

Desta feita, parece plausível que uma suspensão de juízos, dentro da possibilidade, evitaria choque do que eu poderia acreditar ser tomado como certo ou verdeiro, mas que chocaria no procedimento de “fazer uma determinada ciência”.

Por este motivo uma teoria científica, de ordem a tratar do natural, parece incompatível com teores religiosos ou teores ideológicos que não estejam em seu escopo simples, curto, mas profundo que é estudar algo de ordem natural e fenomenicamente detectável.

A questão é complexa, sim, e merece uma reflexão maior, mas durante esta minha reflexão, julgo que uma teoria científica, assim como um método que a define, são instrumentais para entender o mundo que estamos envolvido. Não estou afirmando que sejam os únicos meios, mas estou afirmando que, dentro do puzzle que uma determinada ciência pode representar, o que é funcional é aquilo que está alinhado ao seu método (e consequentemente à sua imagem primordial de natureza). Em outras palavras, a suspensão dos juízos seria até, se executada no máximo, onde o método enfoca pictoricamente a imagem de natureza que ele (método) pertence; este procedimento estaria relacionado, primariamente, ao contexto de criação, mesmo que sendo uma só etapa do processo criativo (o confronto com crenças pode até ser uma outra etapa do processo criativo; mas manter-se suspenso parece evitar que até este confronto nos faça pender para preceitos não aceitos pela imagem de natureza envolvido num método [e portanto passa a ser do contexto de justificação, secundariamente]). Fazer além do enfoque pictórico do método, durante a etapa criativa, já não seria totalmente científico, pois estaria fora do puzzle; poderia ser filosófico, talvez.

Assim, uma teoria que trate do início do universo observável, ou uma teoria que trate da origem e multiplicidade de espécies biológicas são maneiras, instrumentos, para explicar aquilo que nos é dado de forma fenomênica. É, portanto, uma forma de tratar coisas que são possíveis de predizer em aparição, fenomênica. E estes instrumentais estão relacionados a um mecanismo pictórico do método.

Então, uma teoria bem categorizada, podemos dizer, bem formada, dentro do método empregado, é um instrumento cujas características morais do indivíduo não são necessariamente empregadas para o funcionamento da mesma.

Não importa se quem está desenvolvendo teoricamente o big bang ou a teoria da evolução é ateu, teísta, deísta ou agnóstico. O que estará em jogo no puzzle do método são características que poderão gerar previsões, estas tais que poderão ser testadas sob a luz do método científico.

Para tentar elucidar mais, criei uma ilustração sobre as imagens de natureza e de ciência, frente a ampla cosmovisão contida pelo indivíduo que porventura possa estar envolvido com o trabalho de uma determinada teoria:

Imagens de Ciência x Imagens de Natureza x Cosmovisões latu sensu

Imagens de Ciência x Imagens de Natureza x Cosmovisões latu sensu

Portanto parece um equívoco quando encontro pessoas dizendo que se eu aceito a teoria da evolução estou aceitando preceitos, costumes, morais ateístas. A teoria é bem “seca” neste quesito. Tratar a existência de Deus não está em seu escopo – é algo sobrenatural, e portanto fora do escopo natural da ciência. É um equivoco dizer que um instrumental que não trabalha com estes termos é um maquinário ateísta.

Indivíduos diferentes podem fazer interpretações religiosas diferentes de uma teoria científica. Alguem que acredite em Deus pode pensar que a evolução é um meio divino de alterar as coisas. Uma outra pessoa pode achar que aceitar a evolução é sinal de ateísmo latente etc. Entretanto interpretações sobre a teoria não são a própria teoria. Por sermos humanos é possível que venhamos as vezes padecer destas interpretações, mas elas não representam o que é a teoria (o escopo das teorias científicas são restritos a uma determinada área de estudo).

Arnaldo Vasconcellos