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Artigos relacionados com ‘cosmovisão’
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Só se pode navegar existindo a escrita?

25, Fevereiro, 2010

Em um blog criacionista foi formulado um argumento em que por a língua escrita ter sido desenvolvida a aproximadamente (no máximo) 6.000 anos, isso seria base de uma dúvida da datação evolucionista, em relação ao desenvolvimento da navegação (por base no papel de transferência de saberes tecnológicos que a escrita pode representar) e por conseguinte dúvida da veracidade do próprio evolucionismo (com este argumento).

Eu me pergunto, será realmente que somente se pode navegar existindo a escrita, como afirma o blog?

O blog coloca que a escrita é uma condição necessária para se desenvolver a navegação.

Vamos analisar o artigo em questão. Diz assim o artigo:

“Uma das muitas coisas que me leva a não ter fé na  teoria religiosa evolucionista [sic!] é o facto do conhecimento humano se desenvolver rapidamente. O que é que isso tem a ver, perguntam vocês…

“Pois bem, os evolucionistas acreditam que o Homo erectus, um ser humano que até tinha capacidade para falar, está na terra há cerca de 2 milhões de anos. Não obstante, eles acreditam que estes seres humanos só nos últimos 10.000 anos da História é que descobriram coisas como a agricultura, criaram civilizações, monumentos gigantes, foguetões e blogues. O conto evolucionista custa a engolir porque nós sabemos que, em 6000 anos de História registada, o conhecimento progrediu de uma forma devastadora. Mas aí vem o evolucionista e saca do bolso uns milhões de anos que nunca ninguém viu nem registou, onde o conhecimento parece ter estado estagnado.”

Não me parece que “estagnado” seria a palavra certa. A velocidade de desenvolvimento de conhecimento humano pode ser potencializada com adventos de técnicas. Parece-me plausível supor que a escrita poderia ter um papel, ao longo dos tempos, potencializador em como se transmite uma técnica (ou tecnologia) e portanto não poderíamos chamar de “estagnado” o estágio anterior. Assim como a internet hoje pode potencializar a divulgação e a velocidade de informações, a escrita pode ter tido (ou ainda ter) seu papel neste fomento.

Ainda mais a frente o autor afirma:

“Navegação começou 100 mil anos antes do que se pensava

“Esta notícia saiu esta semana e serve muito bem como exemplo do assunto que está a ser discutido. Segundo os conceitos de datação evolucionistas, ferramentas de pedra encontradas na ilha de Creta indicam que os humanos de há 130 mil anos (130.000) já navegavam pelo Mediterrâneo. Uma vez que segundo eles Creta é uma ilha desde há 5 milhões de anos, aquelas ferramentas têm de ter sido trazidas para lá por alguém que navegou até ao local.

“Eis o que o dr. Thomas Strasser disse, referindo-se ás ferramentas: “Ficámos completamente atónitos. Aquelas coisas não deveriam estar lá“.

“Vamos assumir a datação evolucionista por algum tempo. O evolucionista conta-nos a histórinha de que há 130 mil anos já havia seres humanos que tinham conhecimento de navegação mas só 120 mil anos depois é que se lembraram de criar um alfabeto e registar a sua História. A treta não pega.” [Grifo meu].

Ora, não é menos plausível pensar na possibilidade de povos que desenvolvam a navegação e depois venham a desenvolver navegação. O desenvolvimento da escrita não foi uniforme e parece que o argumento do autor criacionista é envolto na seguinte hipótese (h1) “Deus criou os homens com a escrita, porque a escrita apareceu a uns 5000 ou 6000 anos atrás” e este está atrelado ao (h2) “é contra-senso desenvolver navegação sem a escrita, pois com a escrita pode-se transmitir a tecnologia de navegação”.

Entretanto os povos ao longo do mundo não criaram a escrita ao mesmo tempo. Algumas desenvolveram a 3000 a.C.,  outras à 1500 a.C etc. Portanto derruba o h1.

Outra importante coisa a se salientar que não obrigatoriamente todos os povos tenham desenvolvido uma tradição escrita que fosse capaz de transmitir tais técnicas de navegação. As técnicas de navegação parecem poder ser transmitidas por via oral, visto que lingua falada não é necessariamente língua escrita (contrariando o h2). Assim é possível existir povos que não se tenha desenvolvido escrita, mas que com uma cultura oral pudessem transmitir técnicas básicas de construção de embarcações e navegação – e a transmissão oral pode-se basear em contos de lendas, tradições, culturas etc.

Não parece, ser, portanto, difícil supor a transmissão oral de feitos e técnicas. CONTINUAR A LER

Educação, Gerais , , , , , , , , , , ,

A heurística da suspensão é mais uma cosmovisão?

30, Janeiro, 2010

Ao escrever o ensaio “A suspensão do juízo como heurística” havia me perguntado sobre a possibilidade desta suspensão (inclusive a religiosa) ser possível e se ela poderia ser elencada como uma outra cosmovisão. Por este motivo, afirmei que deveria ser feito dentro da possibilidade do que for humanamente possível. E esse é o ponto. Mesmo assim ainda com certas dúvidas e precisando dialogar, cheguei como quem nada queria e comecei expor minhas dúvidas à minha esposa a fim de perceber seu viés acerca do assunto; uma visão diferente da minha. De certa forma, ela chegou justamente no ponto de minha dúvida e conversamos o possível no prelúdio de minha ida ao trabalho.

Também mantive conversa com Vanessa Meira, uma blogueira que estou tratando o assunto. E com base nas seguintes conversas, notei certas objeções ao método heurístico que comentei na postagem supracitada:

1) Suspender juízos de forma completa é impossível. Somos humanos e sempre estamos sujeitos a cosmovisões.

2) O ato de suspender juízos para investigar o mundo é uma cosmovisão. Portanto seria uma cosmovisão que tentaria sobressair-se as demais.

Pois bem, ao escrever originalmente o ensaio supracitado, deixei bem claro que a suspensão deve ser feita, se for feita, “dentro dos limites humanos”. E que esta suspensão não tem em si a consequência de uma “traição” à sua cosmovisão.

Existe uma diferença muito grande em supor uma suspensão de seus valores religiosos (e outros se necessário, para uma investigação) dentro do limite em que você puder e pedir uma suspensão total. Sim, total é impossível, por isto mesmo já estava implicito no meu artigo citado quando dito “humanamente possível”.

Quanto ao ato da suspensão ser uma cosmovisão não se tem muito para fugir, pois toda empreitada humana é tomada por imagens tácitas assumidas. A ciência, como já abordamos em outros ensaios é tomada por imagens de natureza.

Entretanto é difícil determinar se a “suspensão dos juízos” é de fato uma cosmovisão ou se ela precisamente apenas participa de uma. Há diferenças neste quesito. CONTINUAR A LER

Ciência, Cognoscibilidade, Epistemologia, Filosofia, Gerais, Teoria da Ciência, teoria do conhecimento , , , , , , , , ,

A suspensão do juízo como heurística

29, Janeiro, 2010

Diversas vezes tenho esbarrado em alguns blogs (alguns de cunho religioso) [*]com pessoas usando de suas crenças para pensarem e analisarem acerca de diversos temas.

Muitas vezes pedi a suspensão dos juízos (religiosos incluídos) e nem sempre fui muito bem compreendido. Um dos argumentos apresentados, por algumas pessoas religiosas com quem conversei, é que se tal pessoa crê fielmente em algo ela deve inundar-se completamente a ponto de poder fazer-se um bom crente. Como expus em alguns blogs, vejo que existe um problema nesta conduta.

Argumento, assim que a suspensão dos juízos é uma boa heurística para se fazer pensar diversos temas que, dentro de cosmovisões determinadas, estaríamos limitados. Lógico que existe o limite do que é humanamente possível fazer de suspensão.

Há um argumento escondido, por parte dos que não aceitam uma suspensão, de como se ao suspender juízos fossemos nos tornar traídores em uma determinada classe de pensamentos (seja religiosa, científica ou filosófica).

Uma boa maneira que encontrei é tentar pensar em diversas hipóteses. O artigo que utilizei o exemplo de Sagan do “dragão em minha garagem” foi um exemplo. Mas houve quem leu de forma teológica, enquanto eu tratava apenas de uma situação hipotética, para depois poder analisar os resultados e trazê-los a tona.

Fazer isso não é deixar o pensamento em compartimentos estanques. Não é, pois o que deixa o pensamento estanque e engessado é justamente trancá-lo em cosmovisões, que cada vez mais pedem que apertemos nossas faculdades do entendimento, a fim de não representar uma suposta “traição”. CONTINUAR A LER

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