{"id":166,"date":"2009-04-24T17:21:32","date_gmt":"2009-04-24T19:21:32","guid":{"rendered":"http:\/\/arnaldo.networkcore.eti.br\/?p=166"},"modified":"2026-11-05T17:32:15","modified_gmt":"2026-11-05T20:32:15","slug":"do-que-a-ciencia-se-preocupa-parte-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/networkcore.eti.br\/analise\/index.php\/2009\/04\/24\/do-que-a-ciencia-se-preocupa-parte-4\/","title":{"rendered":"Do que a ci\u00eancia se preocupa? (Parte #4)"},"content":{"rendered":"<p><strong>(ATUALIZA\u00c7\u00c3O 2026: ESTE ARTIGO \u00c9 DE 2009 E PODE CONTER INFORMA\u00c7\u00d5ES DESATUALIZADAS, BEM COMO N\u00c3O REPRESENTAR A VIS\u00c3O ATUAL DO AUTOR).\u00a0<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>A ci\u00eancia se preocupa com a sua multiplicidade?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 bastante comum, e n\u00e3o \u00e9 nada nova, a diversidade de piadas de &#8220;troque a l\u00e2mpada&#8221; com cientistas e outras profiss\u00f5es. Irei come\u00e7ar o artigo de agora com algumas piadas encontradas no site <a title=\"Clique aqui para entrar no site do Observat\u00f3rio Nacional.\" href=\"http:\/\/www.on.br\/site_brincando\/piadas\/piadas_8.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Observat\u00f3rio Nacional<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;<span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: medium;\"><strong>Quantos f\u00edsicos s\u00e3o necess\u00e1rios para trocar uma l\u00e2mpada?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Quantos astr\u00f4nomos s\u00e3o necess\u00e1rios para trocar uma l\u00e2mpada?<br \/>\nNenhum. Astr\u00f4nomos se recusam a trocar l\u00e2mpadas. Os astr\u00f4nomos preferem lugares escuros. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Quantos radioastr\u00f4nomos s\u00e3o necess\u00e1rios para trocar uma l\u00e2mpada?<br \/>\nNenhum. Eles n\u00e3o tem qualquer interesse nestas coisas que emitem energia com pequeno comprimento de onda. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Quantos f\u00edsicos especialistas na teoria da relatividade geral s\u00e3o necess\u00e1rios para trocar uma l\u00e2mpada?<br \/>\nDois. Um segura a l\u00e2mpada enquanto o outro gira o Universo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Quantos f\u00edsicos especialistas em mec\u00e2nica qu\u00e2ntica s\u00e3o necess\u00e1rios para trocar uma l\u00e2mpada?<br \/>\nEles n\u00e3o conseguem fazer isto. Se eles sabem onde est\u00e1 a base da l\u00e2mpada eles n\u00e3o podem localizar a l\u00e2mpada nova. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Quantos f\u00edsicos qu\u00e2nticos s\u00e3o necess\u00e1rios para trocar uma l\u00e2mpada?<br \/>\nNenhum, logo que eles observam que ela est\u00e1 apagada ela muda de estado.. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Quantos f\u00edsicos qu\u00e2nticos s\u00e3o necess\u00e1rios para trocar uma l\u00e2mpada?<br \/>\nSe voc\u00ea sabe o n\u00famero voc\u00ea n\u00e3o sabe onde a l\u00e2mpada est\u00e1. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Quantos f\u00edsicos de part\u00edculas s\u00e3o necess\u00e1rios para trocar uma l\u00e2mpada?<br \/>\nDuzentos: 136 deles para esmagar a l\u00e2mpada e 64 para analisar os pequen\u00edssimos peda\u00e7os e chegar a alguma conclus\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\"> Quantos f\u00edsicos te\u00f3ricos s\u00e3o necess\u00e1rios pra se trocar uma l\u00e2mpada?<br \/>\nN\u00e3o importa quantos, eles v\u00e3o ficar horas tentando provar matematicamente que o seu jeito de trocar a l\u00e2mpada \u00e9 melhor que o do outro, e enquanto isso, um experimental trocou a l\u00e2mpada e eles nem perceberam.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n    <div style=\"text-align: center; margin: 15px 0;\">\n        <script type=\"text\/javascript\"><!--\n        google_ad_client = \"pub-3652987083456070\";\n        \/* 250x250, criado 30\/10\/09 *\/\n        google_ad_slot = \"5836344936\";\n        google_ad_width = 250;\n        google_ad_height = 250;\n        \/\/-->\n        <\/script>\n        <script type=\"text\/javascript\" src=\"https:\/\/googlesyndication.com\"><\/script>\n    <\/div><\/p>\n<p>A gra\u00e7a contida nessas piadas est\u00e3o justamente na forma <em>diferenciada<\/em> com que esses diferentes campos cient\u00edficos exigem que seus cientistas trabalhem. Ora, um f\u00edsico de part\u00edcula tem interesse bem pontual e espec\u00edfico e difere, em g\u00eanero, do interesse geral de um astr\u00f4nomo, por exemplo. L\u00f3gico que interesses comuns e pesquisas cient\u00edficas em comum podem surgir (e isso \u00e9 perfeitamente natural). Entretanto, o que podemos notar, em geral, \u00e9 uma certa diferen\u00e7a em postura, objetivos espec\u00edficos e outros pequenos (e importantes) pontos.<\/p>\n<p>Que os cientistas sabem (nem que seja de forma intuitiva) sobre tais diferen\u00e7as n\u00e3o \u00e9 novidade. Tanto que muitos se divertem com tais piadas, pois elas caricaturam certas atitudes tomadas por profissionais de \u00e1reas espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Como sabemos, \u00e1reas espec\u00edficas possuem, muitas vezes, m\u00e9todos espec\u00edficos que parametrizam de forma pontual suas pesquisas. Por isso, a atitude dos mesmos s\u00e3o tomadas por caricaturas: que est\u00e3o satirizando as atitudes dos profissionais, mas no fundo, tamb\u00e9m, est\u00e1 trazendo a tona o quanto ficam embrenhados em seus m\u00e9todos &#8211; o quanto cada m\u00e9todo \u00e9 importante para parametrizar a pesquisa.<\/p>\n<p>Por isso da gra\u00e7a: se os m\u00e9todos dos mesmos fossem aplicados para trocar uma l\u00e2mpada, essa \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o esperada para uma caricatura, ou seja, uma cena fora do senso do plaus\u00edvel no cotidiano.<\/p>\n<p>Mas esses m\u00e9todos s\u00e3o t\u00e3o diferentes, como na piada acima, \u00e9 por que as imagens de ci\u00eancia e de natureza t\u00eam certa diferen\u00e7as: um f\u00edsico de part\u00edculas n\u00e3o v\u00ea a natureza e a ci\u00eancia da mesma forma que um relativista, e por esse motivo empregam m\u00e9todos diferentes que est\u00e3o de acordo com estas imagens.<\/p>\n<p>Uma das conclus\u00f5es que ao longo desses artigos pude alcan\u00e7ar \u00e9: <em>a(s) ci\u00eancia(s) se preocupa(m) com o mundo e a forma com que ele se apresenta (fen\u00f4meno)<\/em>. Entretanto, a forma com que cada ci\u00eancia concebe o mundo est\u00e1 baseada numa imagem de natureza, em um conjunto de especifica\u00e7\u00f5es \u00f4ntico epist\u00eamicas.<\/p>\n<p>Por esse motivo, cada cientista na piada age de forma diferente: eles possuem imagens de natureza diferentes (seja sutil ou em alguns casos grandemente) que resultam em imagens de ci\u00eancias diferentes com m\u00e9todos espec\u00edficos. Por isso a atitude de cada um \u00e9 t\u00e3o pontual numa caricatura.<\/p>\n<p>O desfecho de uma pesquisa parece n\u00e3o ser diferente da piada; cada um em seu campo e ambiente de trabalho possui uma forma distinta de trabalho.<\/p>\n<p>Mas os resultados, \u00e0s vezes, parecem convergir (nem sempre, como \u00e9 o caso de teorias como a <em>f\u00edsica qu\u00e2ntica e a relativista <\/em>que tem propostas diferentes em certos aspectos da realidade). Nessa tarefa de converg\u00eancia outra esp\u00e9cie de cientistas podem agir: os te\u00f3ricos. \u00c9 interessante ver que cada ci\u00eancia tem sua preocupa\u00e7\u00e3o com o mundo, com o fen\u00f4meno, de acordo com suas concep\u00e7\u00f5es \u00f4ntico epistemol\u00f3gicas; mas parece que h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o geral delas com o mundo.<\/p>\n<p>Se alguns cientistas s\u00e3o realistas (portanto acham que pesquisam a verdade do mundo) ou outros n\u00e3o-realistas (e creem que est\u00e3o &#8220;salvando os fen\u00f4menos&#8221; e por sua vez gerando apenas previs\u00f5es de outros fen\u00f4menos) isso deve-se aos pressupostos \u00f4nticos epistemol\u00f3gicos que cada ci\u00eancia <em>e cada cientista<\/em> possuem.<\/p>\n<p>Seja fazendo pesquisa em busca de uma verdade no mundo, ou apenas prevendo fen\u00f4menos, s\u00e3o todas elas pesquisas a respeito <em>do mundo. <\/em>E s\u00e3o sim, leg\u00edtimas (ser antirrealista n\u00e3o tira a legitimidade da pesquisa).<\/p>\n<p>O que legitimaria tais pesquisas? O pr\u00f3prio conjunto <em>\u00f4ntico epistemol\u00f3gico<\/em> de cada ci\u00eancia (e cientistas), que fazem pesquisas legitimadas por tais concep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Argumento isso, pois j\u00e1 tive contato com argumentos contra tais vis\u00f5es de pesquisa, embasadas no pressuposto de falta de legitimidade, pois n\u00e3o estariam sempre de acordo com uma &#8220;verdade&#8221; \u00fanica, imut\u00e1vel e redonda. L\u00f3gico que tal argumento \u00e9 falacioso &#8211; afinal \u00e9 poss\u00edvel legitimar a pesquisa em suas nuances epistemol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Agora, ser\u00e1 que toda pesquisa \u00e9 legitimada de forma <em>\u00e9tica<\/em>? Creio que n\u00e3o. Mas esse \u00e9 um tema para outro poss\u00edvel artigo (fique claro, n\u00e3o estou garantindo legitimidade \u00e9tica nos par\u00e1grafos acima. Estou garantindo legitimidade epist\u00eamica).<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a ci\u00eancia se preocupe com sua multiplicidade? Sim \u00e9 poss\u00edvel, mas n\u00e3o parece ser um tema central aos seus objetivos de pesquisa (claro que a tentativa de unifica\u00e7\u00e3o de teorias \u00e9 importante, mas o fio condutor de cada ci\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 nessa quest\u00e3o &#8211; ela seria marginal, embora importante). Unificar teorias pode ser plaus\u00edvel no escopo cient\u00edfico, mas refletir sobre o estado das ci\u00eancias e se h\u00e1 unidade (e se ainda merece unifica\u00e7\u00e3o) \u00e9 algo diferente: \u00e9 meta cient\u00edfico, \u00e9 filos\u00f3fico.<\/p>\n<p>(Notem que unificar teorias \u00e9 diferente de unificar ci\u00eancia &#8211; teorias s\u00e3o produtos cient\u00edficos, portanto classes distintas).<\/p>\n<p>Enfim, a ci\u00eancia se preocupa com o mundo. Do modo que est\u00e1 apresentado e do modo como o podemos perceber. Mesmo que em multiplicidade.<\/p>\n<p><em>Arnaldo Vasconcellos<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(ATUALIZA\u00c7\u00c3O 2026: ESTE ARTIGO \u00c9 DE 2009 E PODE CONTER INFORMA\u00c7\u00d5ES DESATUALIZADAS, BEM COMO N\u00c3O REPRESENTAR A VIS\u00c3O ATUAL DO AUTOR).\u00a0 A ci\u00eancia se preocupa com a sua multiplicidade? \u00c9 bastante comum, e n\u00e3o \u00e9 nada nova, a diversidade de piadas de &#8220;troque a l\u00e2mpada&#8221; com cientistas e outras profiss\u00f5es. 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