{"id":194,"date":"2009-05-06T20:20:04","date_gmt":"2009-05-06T22:20:04","guid":{"rendered":"http:\/\/arnaldo.networkcore.eti.br\/?p=194"},"modified":"2026-11-04T11:20:45","modified_gmt":"2026-11-04T14:20:45","slug":"do-que-a-ciencia-se-preocupa-parte-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/networkcore.eti.br\/analise\/index.php\/2009\/05\/06\/do-que-a-ciencia-se-preocupa-parte-5\/","title":{"rendered":"Do que a ci\u00eancia se preocupa? (Parte #5)"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>(ATUALIZA\u00c7\u00c3O 2026: Este artigo que segue foi publicado originalmente em 2009 e as posi\u00e7\u00f5es do autor podem diferir, ou conter dados desatualizados).<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>Pode o produto da ci\u00eancia &#8211; uma teoria cient\u00edfica &#8211; deixar de ser cient\u00edfica e de ser &#8220;interessante&#8221; \u00e0 ci\u00eancia?<\/p>\n<p>Primeiramente vamos estabelecer alguns pontos fundamentais. Convenhamos que a Ci\u00eancia (ou as ci\u00eancias) \u00e9 (s\u00e3o) um campo do conhecimento humano com dadas caracter\u00edsticas e m\u00e9todos. Esse ramo do conhecimento tem como um de seus principais produtos a <em>teoria cient\u00edfica<\/em>. Ora, a teoria cient\u00edfica deve estar, desta feita, de acordo com uma ideia de ci\u00eancia &#8211; com escopo de pesquisa definida (que \u00e9 uma das preocupa\u00e7\u00f5es pontuais da ci\u00eancia), parametrizada (e produzida) dentro de uma s\u00e9rie de m\u00e9todos referentes \u00e0 imagem de ci\u00eancia e natureza da ci\u00eancia em quest\u00e3o (verificamos que ela deve estar de acordo com todos estes pontos que parecem se relacionar e seu piv\u00f4 \u00e9 o escopo da ci\u00eancia, de acordo com a imagem da mesma).<\/p>\n<p>Veremos nos pr\u00f3ximos artigos, que n\u00e3o estar\u00edamos errados em assumir dois tipos de escopo cient\u00edfico &#8211; um global e outro restrito. Nesse artigo irei me deter no escopo restrito.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, podemos imaginar agora se uma teoria cient\u00edfica pode deixar de ser cient\u00edfica? Essa \u00e9 uma primeira pergunta.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n    <div style=\"text-align: center; margin: 15px 0;\">\n        <script type=\"text\/javascript\"><!--\n        google_ad_client = \"pub-3652987083456070\";\n        \/* 250x250, criado 30\/10\/09 *\/\n        google_ad_slot = \"5836344936\";\n        google_ad_width = 250;\n        google_ad_height = 250;\n        \/\/-->\n        <\/script>\n        <script type=\"text\/javascript\" src=\"https:\/\/googlesyndication.com\"><\/script>\n    <\/div><\/p>\n<p>Uma segunda pergunta que se segue logo dessa (e que \u00e9 t\u00e3o interessante quanto) \u00e9: a preocupa\u00e7\u00e3o pontual da ci\u00eancia pode mudar a ponto de um determinado escopo n\u00e3o ser mais tomado como cient\u00edfico?<\/p>\n<p>Vimos ao longo desta s\u00e9rie de artigos que existem problemas cient\u00edficos, que est\u00e3o no escopo da ci\u00eancia e problemas meta cient\u00edficos (como se perguntar com o qu\u00ea a ci\u00eancia se preocupa). Mas ao analisar o que, de cient\u00edfico, pode deixar de ser cient\u00edfico, podemos \u00e9 claro, fazer as perguntas inversas &#8211; como por exemplo &#8220;pode algo meta cient\u00edfico se tornar cient\u00edfico?&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto, novamente, venho delimitar o foco deste artigo: iremos falar apenas da possibilidade do que n\u00e3o \u00e9 cient\u00edfico deixar de s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Para responder a tais perguntas podemos analisar alguns aspectos hist\u00f3ricos da ci\u00eancia:<\/p>\n<p><strong>A Teoria do \u00c9ter<\/strong><\/p>\n<p>A teoria do \u00e9ter foi uma teoria que explicava a luz como uma onda em um meio material existente no universo e que seria pouqu\u00edssimo denso (na verdade sua densidade seria nula, estabelecida teoricamente). Muitas explica\u00e7\u00f5es a respeito dos efeitos luminosos cabiam dentro da teoria e a realidade do \u00e9ter foi considerada por muito tempo. Um dos f\u00edsicos que mais contribu\u00edram com a teoria foi o f\u00edsico holand\u00eas Hendrik Lorentz.<\/p>\n<p>Entretanto uma experi\u00eancia foi efetuada por Michelson Moreley demostrava que a luz no \u00e9ter n\u00e3o sofria influ\u00eancia de velocidade em rela\u00e7\u00e3o ao observador. Ora, no som, que \u00e9 uma onda em meio material, encontramos o efeito doppler, no qual se o observador se aproxima muito rapidamente do foco de som a percep\u00e7\u00e3o do observador \u00e9 de uma onda com frequ\u00eancia mais maior e o contr\u00e1rio resultaria numa frequ\u00eancia menor. A experi\u00eancia de Moreley deveria medir altera\u00e7\u00f5es na velocidade da luz, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rota\u00e7\u00e3o da Terra.<\/p>\n<p>A medi\u00e7\u00e3o concluiu que n\u00e3o havia altera\u00e7\u00e3o na velocidade da luz, mesmo com a rota\u00e7\u00e3o da Terra. O \u00e9ter deveria ent\u00e3o ser arrastado com a rota\u00e7\u00e3o. As experi\u00eancias demonstraram que a velocidade da luz era constante e, assim, foram inclu\u00eddas altera\u00e7\u00f5es <em>ad hoc<\/em> na teoria para sustent\u00e1-la.<\/p>\n<p>Com o advento da teoria da Relatividade os f\u00edsicos passaram a desconsiderar a realidade do \u00e9ter. Hoje, a teoria do \u00e9ter est\u00e1 na hist\u00f3ria da ci\u00eancia, mas n\u00e3o \u00e9 mais posta como uma teoria cientificamente v\u00e1lida. Tanto realistas (que n\u00e3o consideram mais o \u00e9ter como existente) como n\u00e3o-realistas (que n\u00e3o consideram a teoria do \u00e9ter eficaz para algum motivo, como a predi\u00e7\u00e3o) n\u00e3o aceitam mais a referida teoria.<\/p>\n<p>Outra teoria que seria interessante citar \u00e9 a teoria do flogisto. Neste mesmo site j\u00e1 falei da teoria do flogisto que fora substitu\u00edda pela teoria da exist\u00eancia do oxig\u00eanio (tanto a exist\u00eancia, quanto a efic\u00e1cia da teoria do flogisto foram colocadas em d\u00favida).<\/p>\n<p>Como podemos notar, a mudan\u00e7a da preocupa\u00e7\u00e3o restrita alterou a forma de encarar a realidade, sendo que essas teorias deixaram de estar num escopo cient\u00edfico. Historicamente estas sempre ser\u00e3o teorias cient\u00edficas refutadas, mas no \u00e2mbito de uma ci\u00eancia atual, elas n\u00e3o mais se enquadram em certos aspectos.<\/p>\n<p>Se durante a \u00e9poca do \u00e9ter eu questionasse se haveria a possibilidade de um cometa inundar o \u00e9ter com um veneno e nos matar, seria uma poss\u00edvel pergunta para uma pesquisa cient\u00edfica. (Essa ideia est\u00e1 presente num incr\u00edvel livro de Conan Doyle, uma fic\u00e7\u00e3o em que o cometa Halley banha nosso planeta com um veneno que torna o ar irrespir\u00e1vel, atrav\u00e9s da difus\u00e3o no \u00e9ter). Hoje, entretanto, n\u00e3o est\u00e1 no escopo espec\u00edfico de ci\u00eancia, pois o \u00e9ter foi refutado (e assim a hip\u00f3tese da fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 vista como t\u00e3o veross\u00edmil).<\/p>\n<p>O mesmo aconteceria com postulados a respeito do flogisto. Ao mudar o que Thomas Kuhn chamaria de &#8220;paradigma&#8221;, ou seja uma forma do mundo ser enxergado (e de se ter ci\u00eancia com isso), alguns problemas deixariam de ser cient\u00edficos ou de ter interesse pontual na ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Claro que isso tudo \u00e9 muito vol\u00e1til, mas o que quero expor \u00e9 que: ideias <em>correntemente<\/em> cient\u00edficas podem deixar de ser cient\u00edficas, embora ainda historicamente o sejam. O interesse cient\u00edfico (foco cient\u00edfico) tamb\u00e9m fica prejudicado, pois no paradigma estaria orientada a imagem de ci\u00eancia e a imagem de natureza, que tratam dos aspectos ontico-epistemol\u00f3gicos dos interesses cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Dessa forma, parece que os escopos restritos podem, sim, aos poucos mudar o escopo geral (paradigma) e alterar o que \u00e9 visto como legitimamente cient\u00edfico. Uma mudan\u00e7a paradigm\u00e1tica, ou seja no escopo geral, muda tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de escopos menores.<\/p>\n<p>Thomas Kuhn em seu livro &#8220;<em>A estrutura das revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas<\/em>&#8221; estabelece que a ci\u00eancia n\u00e3o progride de forma linear e sim aos punhados de mudan\u00e7as paradigm\u00e1ticas que por vezes n\u00e3o d\u00e1 nem para comparar como uma &#8220;sucess\u00e3o&#8221;. Cada paradigma, para ele, carrega uma s\u00e9rie de enfoques no mundo.<\/p>\n<p>Poder\u00e1, embora em diversos paradigmas, algo ficar preservado? Creio que sim e explicitei nos primeiros artigos desta s\u00e9rie: acredito que o mundo sempre seja o ponto comum. Mas necessito tempo para refletir melhor sobre isso e esse tema ser\u00e1 alvo de outras e futuras postagens de artigos.<\/p>\n<p><em>Arnaldo Vasconcellos.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(ATUALIZA\u00c7\u00c3O 2026: Este artigo que segue foi publicado originalmente em 2009 e as posi\u00e7\u00f5es do autor podem diferir, ou conter dados desatualizados). &nbsp; Pode o produto da ci\u00eancia &#8211; uma teoria cient\u00edfica &#8211; deixar de ser cient\u00edfica e de ser &#8220;interessante&#8221; \u00e0 ci\u00eancia? Primeiramente vamos estabelecer alguns pontos fundamentais. 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