{"id":212,"date":"2009-06-30T20:28:34","date_gmt":"2009-06-30T22:28:34","guid":{"rendered":"http:\/\/arnaldo.networkcore.eti.br\/?p=212"},"modified":"2026-11-04T12:28:21","modified_gmt":"2026-11-04T15:28:21","slug":"mutacao-e-evolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/networkcore.eti.br\/analise\/index.php\/2009\/06\/30\/mutacao-e-evolucao\/","title":{"rendered":"Muta\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Porque tanta confus\u00e3o em torno da palavra &#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p>Na teoria da evolu\u00e7\u00e3o, a palavra &#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o est\u00e1 ligada a uma no\u00e7\u00e3o <em>teleol\u00f3gica<\/em>.<\/p>\n<figure style=\"width: 216px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Arist\u00f3teles - Fil\u00f3sofo grego\" src=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/a\/a4\/Aristoteles_Louvre.jpg\" alt=\"\" width=\"216\" height=\"288\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Arist\u00f3teles &#8211; Fil\u00f3sofo grego<\/figcaption><\/figure>\n<p>Arist\u00f3teles, fil\u00f3sofo grego, teria afirmado, que metafisicamente, existem quatro categorias de causas. Elas seriam: causa material, causa formal, causa eficiente e causa final.<\/p>\n<p>Imaginem um escultor criando uma est\u00e1tua. Com esse exemplo poderemos enquadrar as categorias dadas por Arist\u00f3teles. A causa material da est\u00e1tua \u00e9 a mat\u00e9ria que ela \u00e9 formada; neste caso poderia ser o m\u00e1rmore. A causa formal \u00e9 a forma de est\u00e1tua imaginada pelo escultor. A causa eficiente e aquela que gera a est\u00e1tua, neste caso o escultor. A causa final, ou <em>telos<\/em>, \u00e9 a finalidade desta est\u00e1tua.<\/p>\n<p>Pois bem, analisando de forma um pouco mais lingu\u00edstica essas causas metaf\u00edsicas, veremos que elas possuem conota\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas diferentes, por isso podem ser enquadradas em diferentes categorias.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos tenho encontrado, seja por parte de <em>criacionistas<\/em> ou n\u00e3o, confus\u00f5es sem\u00e2nticas nas palavras <em>evolu\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>muta\u00e7\u00e3o<\/em> <em>etc<\/em>. Algumas dessas confus\u00f5es podem ser esclarecidas, elucidando nuances sem\u00e2nticas relacionadas a diferentes concep\u00e7\u00f5es de causas, a meu ver.<\/p>\n<p>Em debate com alguns criacionistas, consegui detectar certas sutilezas sem\u00e2nticas, que, por sua vez, alguns daqueles com quem conversei n\u00e3o se deram conta da diferen\u00e7a empregada, transformando alhos em bugalhos.<\/p>\n<p>A l\u00edngua transmite a respeito de coisas e fatos no mundo e as l\u00ednguas naturais possuem, naturalmente, ambiguidades.<\/p>\n<p>esse \u00e9, inclusive, um dos motivos para que emprego o princ\u00edpio da caridade.\u00a0 (Tenho <a href=\"https:\/\/networkcore.eti.br\/analise\/index.php\/2009\/04\/30\/a-dificuldade-do-entendimento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um artigo<\/a> sobre o assunto).<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n    <div style=\"text-align: center; margin: 15px 0;\">\n        <script type=\"text\/javascript\"><!--\n        google_ad_client = \"pub-3652987083456070\";\n        \/* 250x250, criado 30\/10\/09 *\/\n        google_ad_slot = \"5836344936\";\n        google_ad_width = 250;\n        google_ad_height = 250;\n        \/\/-->\n        <\/script>\n        <script type=\"text\/javascript\" src=\"https:\/\/googlesyndication.com\"><\/script>\n    <\/div><\/p>\n<p>O sentido empregado de &#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221; em evolucionismo n\u00e3o \u00e9 de um <em>telos<\/em>, ou de um modelo para uma causa final. Evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 empregada como &#8220;mudan\u00e7a&#8221; nas caracter\u00edsticas das esp\u00e9cies, por mecanismos que podem ser estudados em teorias e hip\u00f3teses cient\u00edficas.<\/p>\n<p>Quando fala-se que x evoluiu para y n\u00e3o se est\u00e1 dizendo que y j\u00e1 era esperado como um resultado cabal de x. Mas sim que, por este mecanismo da natureza, y veio de x e que agora n\u00e3o seriam mais id\u00eanticos, apesar de poderem carregar algumas caracter\u00edsticas em comum.<\/p>\n<p>A palavra evolu\u00e7\u00e3o sugere melhora frente a um contexto, ou pano de fundo, que \u00e9 o estado de natureza atual de um <em>habitat<\/em>. A confus\u00e3o surge, quando se acha que a palavra &#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221; est\u00e1 solta deste contexto e sugerindo um <em>telos<\/em> a atingir, independente deste contexto.<\/p>\n<p>Na teoria da evolu\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie que evoluiu, foi por uma muta\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria que ocorreu e n\u00e3o foi letal, al\u00e9m de ter a favorecido frente ao ambiente. Por esse motivo ela sobrevive. Se o contexto, ou pano de fundo mudar, pode ser que essa muta\u00e7\u00e3o (e consequente evolu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie) torne-se ineficaz para sobreviver.<\/p>\n<p>Quando alguns criacionistas sugerem o &#8220;<em>design inteligente<\/em>&#8221; est\u00e3o sugerindo que existe uma causa eficiente que criou um modelo (design) que seria uma causa formal e de alguma forma modelou esp\u00e9cies com uma causa material (pode ser o verbo, caso seja um criacionismo crist\u00e3o).<\/p>\n<p>Se, no final das contas, o design inteligente for uma teoria realmente cient\u00edfica, ela pode estar deliberadamente em bases conceituais diferentes do evolucionismo (e portanto em outro paradigma, provavelmente inspirado num paradigma religioso). Entretanto, ela ter\u00e1 de passar por um crivo importante: o m\u00e9todo cient\u00edfico. Atualmente o <em>design inteligente<\/em> est\u00e1 envolto em diversos problemas quanto ao seu objetivo de tentar ser de fato uma ci\u00eancia.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ao evolucionismo por base em um argumento que n\u00e3o se d\u00e1 conta da confus\u00e3o sem\u00e2ntica entre utiliza\u00e7\u00f5es da palavra evolu\u00e7\u00e3o (no contexto da teoria), torna-se uma cr\u00edtica externa e que \u00e9 superficial.<\/p>\n<p>Encontrei esse tipo de argumento (contra a evolu\u00e7\u00e3o) uma certa vez, quando disseram que evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa muta\u00e7\u00e3o (com raz\u00e3o, se usar o sentido de evolu\u00e7\u00e3o como sin\u00f4nimo de &#8220;aperfei\u00e7oar&#8221;, lan\u00e7ar a um <em>telos<\/em>) e que muta\u00e7\u00e3o traz somente letalidade ao indiv\u00edduo, pois muta\u00e7\u00f5es em DNA trariam problemas ao indiv\u00edduo o levando a letalidade (<strong>premissa falsa<\/strong>).<\/p>\n<p>Mas, se analisarmos melhor, veremos que este argumento surge de uma confus\u00e3o, tamb\u00e9m, no fundo, sem\u00e2ntica. Bem, examinemos melhor este argumento:<\/p>\n<p>a) Muta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 evolu\u00e7\u00e3o (certo, se voc\u00ea est\u00e1 tratando evolu\u00e7\u00e3o como &#8220;aperfei\u00e7oar&#8221;. Se tratar como &#8220;mudan\u00e7as diante um crivo do contexto, do plano de fundo da natureza, esta afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 acertada).<\/p>\n<p>b) Muta\u00e7\u00f5es sempre levam a letalidade do indiv\u00edduo que sofreu a muta\u00e7\u00e3o. (hip\u00f3tese falsa, pois existem casos de muta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o trazem a letalidade e podem ser retransmitidas, como a polidactilia (exist\u00eancia de mais de cinco dedos em p\u00e9s e\/ou m\u00e3os). Nesse caso \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tr\u00e1s preju\u00edzo ao indiv\u00edduo ou esp\u00e9cie. H\u00e1 ainda casos em que uma muta\u00e7\u00e3o pode garantir um ganho \u00e0 esp\u00e9cie, comparada com o contexto do ambiente, como \u00e9 o caso do recente v\u00edrus A H1N1, conhecido popularmente como &#8220;gripe su\u00edna&#8221;: ocorreu uma muta\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, num paciente na Dinamarca, imunidade ao medicamento <em>Tamiflu<\/em> devido a uma muta\u00e7\u00e3o do v\u00edrus (1)).<\/p>\n<p><strong>(ATUALIZA\u00c7\u00c3O 2026: a not\u00edcia da resist\u00eancia do Tamiflu pode ser encontrada ainda neste link a seguir sobre a linha do tempo da pandemia de Gripe Su\u00edna ocorrida entre 2009 e 2010: <a href=\"https:\/\/www.ecdc.europa.eu\/en\/seasonal-influenza\/2009-influenza-h1n1-timeiline\">https:\/\/www.ecdc.europa.eu\/en\/seasonal-influenza\/2009-influenza-h1n1-timeiline<\/a>).<\/strong><\/p>\n<figure style=\"width: 343px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/Mundo\/0,,MUL1211711-5602,00-ROCHE+REGISTRA+PRIMEIRO+CASO+DE+RESISTENCIA+DO+HN+AO+TAMIFLU.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/7\/7f\/Influenza_A_-_late_passage.jpg\" alt=\"V\u00edrus Influenza\" width=\"343\" height=\"268\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">V\u00edrus Influenza<\/figcaption><\/figure>\n<blockquote><p>(1) &#8211; O v\u00edrus tamb\u00e9m sofreu outra muta\u00e7\u00e3o a ponto de mudar levemente uma de suas prote\u00ednas, detectada em S\u00e3o Paulo, sem agravamento aparente da agressividade da doen\u00e7a. Portanto existem muta\u00e7\u00f5es que podem passar pelo crivo do ambiente e n\u00e3o fazer aparentemente nada, como essa muta\u00e7\u00e3o que alterou levemente a produ\u00e7\u00e3o de uma prote\u00edna, ou favorecer o v\u00edrus como a muta\u00e7\u00e3o ocorrida na Dinamarca que deixou o v\u00edrus mais resistente ao medicamento Tamiflu. Dentro do rol de muta\u00e7\u00f5es, existe a possibilidade de indiv\u00edduos possu\u00edrem muta\u00e7\u00f5es letais, como as doen\u00e7as gen\u00e9ticas. Assim, uma muta\u00e7\u00e3o pode favorecer, nada fazer ou desfavorecer um indiv\u00edduo. (NOTA MINHA).<\/p><\/blockquote>\n<p>Por sua vez, a palavra &#8220;muta\u00e7\u00e3o&#8221; est\u00e1 relacionada a uma mudan\u00e7a em caracter\u00edsticas da esp\u00e9cie, que via de regra, est\u00e1 associada a uma mudan\u00e7a de informa\u00e7\u00e3o no genoma. Com base em genomas de diferentes esp\u00e9cies pode-se chegar ao grau de parentesco de uma esp\u00e9cie com outras, compartilhando certos trechos gen\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Assim, notamos que quando algu\u00e9m utiliza um argumento, como o exposto (que muta\u00e7\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de letalidade), \u00e9 um erro em identificar que nem todas muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o letais. Querer igualar o significado da palavra muta\u00e7\u00e3o como necessariamente &#8220;erro gen\u00e9tico letal&#8221; \u00e9, em suma, um erro.<\/p>\n<p>Problemas sem\u00e2nticos devem ser desfeitos para entendimento e cr\u00edticas em teorias. Noto que muitos podem passar despercebidos, devido ao fato da cr\u00edtica tamb\u00e9m estar embasada num conjunto de conceitos de um paradigma.<\/p>\n<p>Portanto, caros leitores, sugiro cuidado com os argumentos que ignoram estas sutilezas &#8211; eles podem ser falaciosos e sofism\u00e1ticos.<\/p>\n<p><em>Arnaldo Vasconcellos<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porque tanta confus\u00e3o em torno da palavra &#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221;? Na teoria da evolu\u00e7\u00e3o, a palavra &#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o est\u00e1 ligada a uma no\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica. Arist\u00f3teles, fil\u00f3sofo grego, teria afirmado, que metafisicamente, existem quatro categorias de causas. Elas seriam: causa material, causa formal, causa eficiente e causa final. Imaginem um escultor criando uma est\u00e1tua. 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