{"id":405,"date":"2010-01-02T01:19:41","date_gmt":"2010-01-02T04:19:41","guid":{"rendered":"http:\/\/arnaldo.networkcore.eti.br\/?p=405"},"modified":"2026-11-04T19:47:21","modified_gmt":"2026-11-04T22:47:21","slug":"alteracoes-ad-hoc-limites-entre-o-licito-e-o-ilicito-serie-pseudociencias-parte-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/networkcore.eti.br\/analise\/index.php\/2010\/01\/02\/alteracoes-ad-hoc-limites-entre-o-licito-e-o-ilicito-serie-pseudociencias-parte-4\/","title":{"rendered":"Altera\u00e7\u00f5es Ad hoc &#8211; Limites entre o l\u00edcito e o il\u00edcito (S\u00e9rie pseudoci\u00eancias \u2013 Parte 4#)"},"content":{"rendered":"<p>Quando falamos a respeito do <em>Falseacionismo Ing\u00eanuo <\/em>(ou falseacionismo dogm\u00e1tico), estabelecemos que existe um problema s\u00e9rio para demarcar at\u00e9 que ponto \u00e9 l\u00edcito as altera\u00e7\u00f5es <em>ad hoc<\/em> que podem incluir novas, ou alterar antigas hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>Em outro ensaio, tamb\u00e9m estabelecemos, que existe um problema de demarca\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 ou n\u00e3o pseudoci\u00eancia. De forma geral, como diz na publica\u00e7\u00e3o &#8220;Cr\u00edtica na Rede&#8221;, &#8220;O problema da demarca\u00e7\u00e3o consiste em distinguir a ci\u00eancia das disciplinas n\u00e3o cient\u00edficas que tamb\u00e9m pretendem fazer afirma\u00e7\u00f5es verdadeiras sobre o mundo&#8221; (Achinstein, Peter in: Cr\u00edtica na Rede. <a href=\"http:\/\/criticanarede.com\/html\/cien_demarcacao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ver link<\/a>). Este termo teria sido utilizado, primariamente, por Popper e podemos afirmar que sua pesquisa de um falseacionismo seria justamente demarcar o que \u00e9 cient\u00edfico.<\/p>\n<p>O problema da demarca\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema de \u00e2mbito epistemol\u00f3gico (demarcar qual produto do conhecimento pode ser considerado cient\u00edfico). Pensadores podem at\u00e9 ter desenvolvido formas de fazer tal demarca\u00e7\u00e3o, mas ainda assim encontram-se problemas residuais acerca disto. Se Popper desenvolveu uma filosofia da ci\u00eancia em que o que \u00e9 teoria cient\u00edfica \u00e9 refut\u00e1vel, isso \u00e9 um avan\u00e7o &#8211; entretanto existe ainda o problema residual: se formos dogm\u00e1ticos no falseacionismo, assumiremos que toda e qualquer altera\u00e7\u00e3o <em>ad hoc<\/em> \u00e9 il\u00edcita; entretanto isso \u00e9 um s\u00e9rio problema epistemol\u00f3gico, pois como poder\u00edamos chegar a construir uma teoria consistente, caso toda e qualquer hip\u00f3tese refutada fosse capaz de falsear toda a teoria?<\/p>\n<p>Ora essas duas formas que expus acima s\u00e3o apenas duas faces de um mesmo problema. Se \u00e9 problem\u00e1tico definir, penso, at\u00e9 que ponto \u00e9 l\u00edcito altera\u00e7\u00f5es <em>ad hoc<\/em> tamb\u00e9m temos um problema em definir com precis\u00e3o o que \u00e9 cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Evidente que alguns casos saltam como exemplos claros. Carl Sagan no livro &#8220;O mundo assombrado pelos dem\u00f4nios&#8221; (do qual j\u00e1 escrevi um artigo a respeito) fala do exemplo do &#8220;drag\u00e3o na minha garagem&#8221;.<\/p>\n<p>Se eu quero provar para voc\u00ea que existe um drag\u00e3o na minha garagem, mas voc\u00ea que \u00e9 um c\u00e9tico, questiona de todas as formas poss\u00edveis a minha afirma\u00e7\u00e3o. Mas, eu n\u00e3o satisfeito, o rebato o tempo inteiro com altera\u00e7\u00f5es <em>ad hoc,<\/em> transformando a afirma\u00e7\u00e3o inicial em uma outra afirma\u00e7\u00e3o durante o processo: \u00e9 claro que essa pr\u00e1tica n\u00e3o ser\u00e1 de minha parte algo que tenha car\u00e1ter cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Uma teoria pseudocient\u00edfica, no entanto, pode utilizar de forma abusiva das altera\u00e7\u00f5es <em>ad hoc<\/em>. Mas qual \u00e9 o n\u00edvel desse abuso?<\/p>\n<p>Se olharmos a hist\u00f3ria da ci\u00eancia encontramos o caso da teoria do \u00c9ter, no qual a luz se propagaria numa onda num meio muito t\u00eanue, o \u00e9ter.<\/p>\n<p>As tentativas experimentais para detectar o \u00e9ter falharam ao apontar a natureza do mesmo (ver experimentos de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Experi%C3%AAncia_de_Michelson-Morley\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Michelson e Morley<\/a>). Explica\u00e7\u00f5es sobre o funcionamento da luz no \u00e9ter ent\u00e3o surgiram. Esses tipos de altera\u00e7\u00f5es foram <em>ad hoc<\/em>.<\/p>\n<p>Ora, claro que ainda nesse meio tempo a efic\u00e1cia de uma teoria ou outra pudessem ser questionadas, mas os experimentos tinham boa base te\u00f3rica (leia: tinham boa coer\u00eancia com a teoria) e nenhum deles foi capaz de detectar o \u00e9ter, mesmo com a condi\u00e7\u00e3o da coer\u00eancia te\u00f3rica. A sa\u00edda foi alterar a teoria do \u00e9ter para explicar o porque que mesmo os experimentos estando em coer\u00eancia com a teoria n\u00e3o foram capazes de detect\u00e1-lo.<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es nestas teorias, sobretudo as reinterpreta\u00e7\u00f5es de um cientista chamado Lorentz salvaram a teoria do \u00e9ter por um tempo, mas ao mesmo tempo abriu bagagem te\u00f3rica para o desenvolvimento de outro aparato te\u00f3rico: a teoria da relatividade, por Albert Einstein.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure style=\"width: 266px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" \" title=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/d\/d3\/Albert_Einstein_Head.jpg\" src=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/d\/d3\/Albert_Einstein_Head.jpg\" alt=\"Albert Einstein\" width=\"266\" height=\"346\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Albert Einstein<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: center;\">\n    <div style=\"text-align: center; margin: 15px 0;\">\n        <script type=\"text\/javascript\"><!--\n        google_ad_client = \"pub-3652987083456070\";\n        \/* 250x250, criado 30\/10\/09 *\/\n        google_ad_slot = \"5836344936\";\n        google_ad_width = 250;\n        google_ad_height = 250;\n        \/\/-->\n        <\/script>\n        <script type=\"text\/javascript\" src=\"https:\/\/googlesyndication.com\"><\/script>\n    <\/div><\/p>\n<p>Ora a teoria do \u00e9ter, com altera\u00e7\u00f5es <em>ad hoc<\/em> estava de certa forma, mesmo alterada, novamente no p\u00e1reo da falseabilidade. A teoria da relatividade foi proposta. Talvez possamos dizer que a navalha de Occam foi aplicada (parece que sim) e a teoria da relatividade especial entrou no p\u00e1reo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>A teoria do \u00e9ter foi caindo em descr\u00e9dito e hoje \u00e9 tomada como falseada.\u00a0 Foi substitu\u00edda por outras teorias como a Relatividade e as equa\u00e7\u00f5es de Maxwell. Entretanto seu <em>status<\/em> de teoria cient\u00edfica n\u00e3o pode ser diminu\u00edda &#8211; embora esteja completamente falseada.<\/p>\n<p>Agora, se sempre fosse efetuadas altera\u00e7\u00f5es, para mesmo com um conjunto de teorias concorrentes e mais sofisticadas, de forma que ela n\u00e3o desaparecesse, poder\u00edamos esbarrar na pseudoci\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma pseudoci\u00eancia, mesmo com um conjunto de teorias mais eficazes e falseamento sucessivo na \u00e1rea emp\u00edrica, continua por estabelecer altera\u00e7\u00f5es <em>ad hoc<\/em> para continuar como ativa.<\/p>\n<p>O problema da pseudoci\u00eancia \u00e9 que essas altera\u00e7\u00f5es s\u00e3o para que a mesma continue com alguma correspond\u00eancia com os resultados, mesmo perante o escrut\u00ednio cient\u00edfico. Mas essas altera\u00e7\u00f5es acabam por tir\u00e1-la do campo cient\u00edfico (porque as torna irrefut\u00e1veis devido a possibilidade de altera\u00e7\u00f5es sucessivas). Esse movimento \u00e9 um tanto interessante, pois ao acontecer tal fato, suponho, \u00e9 que a dita teoria tenta continuar a ser creditada como cient\u00edfica &#8211; tornando-se pseudoci\u00eancia. Ou essa teoria se torna pseudoci\u00eancia, ou ser\u00e1 uma mera teoria n\u00e3o cient\u00edfica (caso n\u00e3o tenha a pretens\u00e3o de continuar ser ci\u00eancia).<\/p>\n<p>Ora, o fato de deixar de ser cient\u00edfica significa que a garantia te\u00f3rica buscada (corroborar ou falsear) n\u00e3o pode ser apontada naquele sistema.<\/p>\n<p>Alguns exemplos de \u00e1reas que s\u00e3o potenciais pseudoci\u00eancias s\u00e3o enormes, como a numerologia, quiromancia etc. Entretanto, assim como j\u00e1 falamos, \u00e9 f\u00e1cil estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o entre extremos, alguns casos podem se tornar complicados para uma poss\u00edvel demarca\u00e7\u00e3o &#8211; necessitando de mais crit\u00e9rios.<\/p>\n<p>Ao longo de nossos ensaios, podemos notar que uma teoria cient\u00edfica n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 conectada a pontos emp\u00edricos, mas tamb\u00e9m a uma sofisticada coer\u00eancia entre dados indiretos, outras teorias etc (e \u00e9 justamente isso que faz o falsificacionismo ing\u00eanuo ser problem\u00e1tico).<\/p>\n<p>Existe, portanto um limite entre altera\u00e7\u00f5es <em>ad hoc<\/em> l\u00edcitas ou il\u00edcitas &#8211; parece-me ser que, caso for a altera\u00e7\u00e3o de uma hip\u00f3tese mais afastada do n\u00facleo de coer\u00eancia da teoria (<strong>nota de 2026:<\/strong> que o fil\u00f3sofo Lakatos chama de <em>n\u00facleo duro <\/em>e que n\u00e3o seria apenas da teoria e sim de um <em>programa<\/em>), e em um n\u00famero n\u00e3o t\u00e3o elevado, permitindo ainda pontos falseadores ela \u00e9 permitida (mesmo com modera\u00e7\u00e3o). Entretanto, se \u00e9 demasiada, altera o n\u00facleo da teoria, com o intuito de apenas salvar a teoria e n\u00e3o permitir pontos falseadores, \u00e9 il\u00edcita do ponto de vista do m\u00e9todo cient\u00edfico.<\/p>\n<p><em>Arnaldo Vasconcellos<\/p>\n<p><\/em><\/p>\n<p><strong>ATUALIZA\u00c7\u00c3O 2026:<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma s\u00e9rie de coisas que eu reescreveria nesse ensaio. Mas no geral a defesa que h\u00e1 possibilidade que teorias cient\u00edficas tenham altera\u00e7\u00f5es\u00a0<em>ad hoc<\/em> de forma demasiada e que nem por isso deixam de ser cient\u00edficas, \u00e9 um ponto que eu concordo. Tra\u00e7ar o limiar dessas altera\u00e7\u00f5es \u00e9 algo complexo e dif\u00edcil. Por esse motivo, Lakatos abordava em sua obra que a racionalidade n\u00e3o \u00e9 instant\u00e2nea e \u00e9 necess\u00e1rio sempre ao fil\u00f3sofo da ci\u00eancia (e ao historiador) olhar para tr\u00e1s. Quando h\u00e1 altera\u00e7\u00f5es em demasia, o <em>programa<\/em> (que cuida das teorias que est\u00e3o com diversas modifica\u00e7\u00f5es) passa a n\u00e3o conseguir sucesso em novas previs\u00f5es, enquanto programas concorrentes podem lograr \u00eaxito nisso. Esse \u00e9 o ponto que a virada reside e que precisa ser analisada de forma retroativa, segundo a perspectiva de Lakatos e que eu endosso atualmente.<\/p>\n<p>Sendo assim a afirma\u00e7\u00e3o que fiz:<\/p>\n<blockquote><p>Entretanto, se \u00e9 demasiada, altera o n\u00facleo da teoria, com o intuito de apenas salvar a teoria e n\u00e3o permitir pontos falseadores, \u00e9 il\u00edcita do ponto de vista do m\u00e9todo cient\u00edfico.<\/p><\/blockquote>\n<p>Esse trecho passa a ser um pouco problem\u00e1tico e dif\u00edcil de defender totalmente. Entendo que a proposta era: se h\u00e1 uma demasiada quantidade de altera\u00e7\u00f5es se negando ter pontos falseadores, ent\u00e3o ela n\u00e3o \u00e9 mais cient\u00edfica de fato. Sim, concordo.<\/p>\n<p>No entanto, quanto a forma retratada ao dizer que se h\u00e1 muitas propostas\u00a0<em>ad hoc<\/em> &#8220;altera o n\u00facleo da teoria&#8221; parece problem\u00e1tica. Tenho que verificar o que de fato significaria com essa frase. Se se trata de n\u00facleo da teoria a <strong>proposta de prever o mundo<\/strong>, sim ent\u00e3o concordo, porque uma teoria em programa degenerado perde aos poucos a pretens\u00e3o de <em>novas<\/em> previs\u00f5es. No entanto, se por &#8220;n\u00facleo&#8221; eu me referia ao fato de ser as propostas mais basais da teoria (que no vocabul\u00e1rio lakatosiano estaria no <em>programa\u00a0<\/em>e n\u00e3o na teoria) ent\u00e3o discordo; porque o n\u00facleo do\u00a0<em>programa<\/em> \u00e9 a defesa m\u00e1xima da identidade do programa: se altera-se esse n\u00facleo que \u00e9 protegido de forma inequ\u00edvoca, ent\u00e3o muda-se o programa e, consequentemente o caminho metodol\u00f3gico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando falamos a respeito do Falseacionismo Ing\u00eanuo (ou falseacionismo dogm\u00e1tico), estabelecemos que existe um problema s\u00e9rio para demarcar at\u00e9 que ponto \u00e9 l\u00edcito as altera\u00e7\u00f5es ad hoc que podem incluir novas, ou alterar antigas hip\u00f3teses. Em outro ensaio, tamb\u00e9m estabelecemos, que existe um problema de demarca\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 ou n\u00e3o pseudoci\u00eancia. 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