Do que a ciência se preocupa?

(ATUALIZAÇÃO: Esse artigo foi publicado em 2009 e pode conter informações desatualizadas)


Ano passado, em setembro, aproximadamente, entrou em funcionamento o LHC, um gigantesco acelerador de partículas criado para colidir partículas elementares e estudar a possibilidade da existência de uma partícula chamada de Bóson de Higgs. O Bóson de Higgs é, atualmente, uma partícula prevista pelo nosso atual modelo de física de partículas.

Se esta teoria estiver afinadamente correta, será, assim, encontrada a existência do famoso Bóson.

Mas e se não existir o Bóson? Bem, neste caso a teoria deve ser revista e modificada.

Percebem o que isto tudo implica? Uma teoria foi formulada. Trechos desta teoria são afinadas com o tempo: ora se confirma, ora se têm de adaptar a teoria. Este processo é feito pelas pesquisas científicas durante muito tempo.

Quando uma teoria parece não concordar com algum parâmetro (e é esse parâmetro que esse artigo tentará especular) a mesma pode ser modificada, até encaixar no parâmetro, ou é descartada. Isto aconteceu com a teoria do Flogisto.

Em 1703, aproximadamente, a teoria do Flogisto foi proposta pelo Georg Ernst Stahl (ver Wikipédia) e consistia na ideia que substâncias inflamáveis possuía um elemento, chamado Flogisto, na qual a combustão era a liberação do mesmo que o ar absorvia a substância.

Mais tarde, Lavoisier rejeitou a teoria com base na sua descoberta do oxigênio. O processo de combustão era agora considerado uma reação entre o oxigênio e outra substância inflamável.

Existem teorias adaptadas conforme o processo de verificação e outras são completamente refutadas, como o caso do Flogisto (ou ainda o caso do Éter).

Sabemos que a dinâmica da ciência envolve tanto o levantamento de teorias, verificação, ajuste, e ainda, refutação. Esses processos são dados com base em alguns parâmetros e provavelmente tais parâmetros são pontos onde a ciência se preocupa em esclarecer.

Que parâmetros são esses? Afinal, no que a ciência se preocupa?

A resposta a esta pergunta não é unânime. Alguns respondem que tais parâmetros podem ser epistemológicos, ou seja, a descoberta da verdade: as teorias descreveriam então, com verdade, objetos no mundo – portanto uma posição no qual as teorias responderiam (ou tendem a responder) objetos e como os mesmos se relacionam no mundo. Essa é uma posição que assume o caráter epistemológico na ciência – seria descobrir o que são as coisas, e como são. Essa mesma posição assume um ponto ontológico: a teoria corresponde a um objeto (ou relação) realmente existente.

A essa concepção, damos o nome de realismo científico.

Em geral, o realismo científico encontra alguns problemas, a explicitar: por exemplo, como explicar o fato de certos elementos científicos nunca terem sido observados diretamente, como um átomo? Até mesmo uma célula necessita de um equipamento como intermédio, e este último foi construído por base em uma teoria. Isso representa uma dificuldade em estabelecer uma realidade daquele objeto estudado.

A outra posição que gostaria de mencionar, seria o não-realismo científico (antirrealismo), no qual o parâmetro para o estudo científico não seria a verdade da teoria, mas sim diversos outros parâmetros (que poderiam incluir, desde teorias coerentes com outras teorias anteriores, teorias coerentes com observações, parâmetros pragmáticos e outros). Essa posição não enfatiza a verdade como um parâmetro que delimitaria a atividade científica.

É desconsertante pensar que a atividade científica poderia não se apoiar na busca pela verdade das coisas e suas relações, mas é plausível. Não sei qual a resposta. Creio que haja um misto na atividade científica.

Essa é uma discussão nada nova, e é lógico que eu não poderia resolvê-la aqui. Mas em todo caso, espero que trazer este texto possa esclarecer, ou iniciar uma discussão mais ampla e profunda no tema.

Óbvio que muitos cientistas, como agentes praticantes desta atividade, nem se preocupariam com esta questão, visto que esta é uma questão além-ciência (da ciência objeto que estamos conversando; não entro aqui na questão se a epistemologia é ou não ciência, ou um campo da filosofia).

Que um cientista não se preocupe com a questão, é tolerável; mas se o mesmo para pensar, é extremamente aceitável — refletir sobre sua atuação no mundo.

Afinal, quando praticamos ciência, estamos preocupados com um parâmetro realista ou não realista?

Na história da ciência podemos encontrar exemplos para as duas posições. Será então um misto? Julgo que sim. E tenho tendencia a acreditar que o método está relacionado não somente com o escopo que a ciência terá, mas como ela o tratará.

Arnaldo Vasconcellos