(ATUALIZAÇÃO 2026: Esse artigo foi publicado originalmente em 2009 e pode conter informações e links desatualizados)
Ao longo das séries de artigos postados aqui, tenho desenvolvido a descrição da posição científica, tanto realista, quanto a não-realista e ainda a anti-realista.
Expomos a relação do método como uma forma de parametrizar o escopo geral da ciência (ou das ciências, a multiplicidade das ciências será motivo de outro artigo).

Então, nos perguntamos, o que é o método? E como pode ele estabelecer o escopo do que, digamos, a ciência (ou ciências) se preocupa?
Vamos, novamente, verificar a etimologia para, enfim, prosseguirmos em nosso artigo. Lógico que várias palavras podem mudar de significado, em relação com o significado original (e essa é uma mudança que parece ocorrer com frequência), mas veremos que a etimologia da palavra método pode nos lançar luz nesta empreitada.
No Wikicionário, encontramos as seguintes definições:
mé.to.do masculino
- modo ordenado de fazer as coisas, ordem:
- conjunto de procedimentos técnicos e científicos:
- obra que regista os princípios de uma técnica, ciência ou arte;
- sistema educativo:
- João de Deus instituiu um novo método com o lançamento da “Cartilha Maternal“.
- ponderação, prudência:
A definição atual número 1, nos aponta que método é uma forma de fazer algo. É justamente isso que etimologia da palavra nos aponta: método é do grego methodos, que significa “caminho a seguir”.
Um método científico é, portanto, um conjunto de regras, de modos ordenados, que nos permitem a praticar uma pesquisa, parametrizada, na qual o resultado deverá estar dentro do escopo destes tais modos ordenados.
Entretanto, sabemos que a forma que um método se organiza deve ter baseada em si uma forma de ciência a seguir. Assim o objetivo de ciência é parametrizada por uma imagem de ciência (conceito retirado do professor Paulo Abrantes) que está contida no método.
Um método está portanto organizado para uma imagem de ciência. E esse método parametriza o caminho e fim da pesquisa científica.
Uma imagem “I” de ciência portanto pressupõe um determinado método. Uma pesquisa “P” irá ser implantada e desenvolvida de acordo de um método que possa conduzir a um objetivo final e determinado da ciência; que no fim é um representante legítimo de uma imagem de ciência.
Podemos nos perguntar como surgiriam os métodos e qual seria a multiplicidade dos mesmos, entretanto esta pergunta talvez demandaria uma exaustiva dissecação da história da ciência, o que não desenvolverei neste artigo.
Durante a disciplina do Professor Paulo Abrantes, na Universidade de Brasília, acompanhamos diversos métodos que estão relacionados com essa posição que chama-se de imagem de ciência. São muitos. Pretendo não listar nesse artigo, mas talvez abrirei oportunidades para próximos.
Nota-se que essa imagem de ciência, que fundamenta um método, que por sua vez parametriza a atividade científica em questão, está também atrelada a imagens de natureza que se possuem.
Uma ciência e suas pesquisas são produzidas de acordo com um método que parametriza a pesquisa e que está fundada numa imagem de ciência que se deve seguir. E essa imagem está baseada numa imagem de natureza existente.
Vale lembrar que estes conceitos (imagem de natureza, imagem de ciência etc) não são meus; tive contato com o referido professor. Para ver mais acesse: http://www.unb.br/ih/fil/pcabrantes/artigos/Sofia4.PDF (As citações abaixo compreendem este texto). (ATUALIZAÇÃO EM 2026: infelizmente o link está quebrado).
As imagens de natureza são formas de “ver” o mundo. São nas palavras do professor Abrantes:
“São ontologias assistemáticas e tácitas que condicionam a atividade científica e outras práticas sociais, incluindo a educacional. (…) Exemplos de pares de imagens de natureza, que se opõem em grande medida, incluem:
i) mecanicismo / materialismo;
ii) deísmo / teísmo;
iii) naturalismo / sobrenaturalismo;
iv) ação à distância / ação contígua;
v) atomismo / plenismo (natureza como continuum).” (pp. 1-2).
Vejam que uma imagem de natureza compreende a forma com que vemos o mundo. É a forma com que nos comprometemos a relacionar o mundo e suas coisas. Uma imagem de ciência depende muito desta primeira.
Nas palavras de nosso professor, encontramos:
“Imagens de ciência são, de modo análogo, epistemologias assistemáticas e tácitas que orientam a atividade científica e outras práticas sociais, incluindo a educação científica. Imagens de ciência podem incluir concepções a respeito dos métodos adequados para a construção do conhecimento científico e/ou para a validação dos produtos da atividade científica (e.g. teorias). Tais métodos estão, usualmente, comprometidos com certos valores cognitivos e não-cognitivos, que também compõem tais imagens.” (p. 2).
Uma imagem de ciência compromete-se, digo portanto, com uma forma de encararmos, epistemológica e ontologicamente o mundo. A imagem de ciência abarca métodos que sejam-lhe filiais.
Do que (ou no que) a ciência se preocupa? Ela se preocupa com aquilo que está exposto no escopo de sua imagem de ciência, cuja atividade para atingi-la está parametrizada em seu método.
E isto é uma coisa ruim? Não necessariamente (pretendo criar artigos para desenvolvermos as implicações éticas nesta possibilidade de ciências).
Outra coisa que podemos refletir com base nisto é a multiplicidade de ciências: há uma ciência coesa ou várias inter-relacionadas, ou ainda inúmeras separadas? (Pretendo, também, desenvolver esta questão em outros artigos).
Uma teoria como resultado de uma determinada ciência, como pode-se manter? E como se procede? – Também é tema de outro artigo que postarei aqui. E ainda: uma teoria de uma determinada imagem de ciência pode-se manter em outra imagem de ciência diferente? (poderá ela ser desalinhada do que é considerada como “ciência”? – esse é outro tema que abordarei neste meio).
Refletiremos, portanto, sobre mais aspectos que a ciência possui e que estão relacionados com tais questões ontico-espistemológicas, além de suas implicações éticas.
Arnaldo Vasconcellos

1 Reply to “Do que a ciência se preocupa? (PARTE #3)”
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