(ATUALIZAÇÃO 2026: ESTE ARTIGO É DE 2009 E PODE CONTER INFORMAÇÕES DESATUALIZADAS, BEM COMO NÃO REPRESENTAR A VISÃO ATUAL DO AUTOR).
A ciência se preocupa com a sua multiplicidade?
É bastante comum, e não é nada nova, a diversidade de piadas de “troque a lâmpada” com cientistas e outras profissões. Irei começar o artigo de agora com algumas piadas encontradas no site Observatório Nacional:
“Quantos físicos são necessários para trocar uma lâmpada?
Quantos astrônomos são necessários para trocar uma lâmpada?
Nenhum. Astrônomos se recusam a trocar lâmpadas. Os astrônomos preferem lugares escuros.Quantos radioastrônomos são necessários para trocar uma lâmpada?
Nenhum. Eles não tem qualquer interesse nestas coisas que emitem energia com pequeno comprimento de onda.Quantos físicos especialistas na teoria da relatividade geral são necessários para trocar uma lâmpada?
Dois. Um segura a lâmpada enquanto o outro gira o Universo.Quantos físicos especialistas em mecânica quântica são necessários para trocar uma lâmpada?
Eles não conseguem fazer isto. Se eles sabem onde está a base da lâmpada eles não podem localizar a lâmpada nova.Quantos físicos quânticos são necessários para trocar uma lâmpada?
Nenhum, logo que eles observam que ela está apagada ela muda de estado..Quantos físicos quânticos são necessários para trocar uma lâmpada?
Se você sabe o número você não sabe onde a lâmpada está.Quantos físicos de partículas são necessários para trocar uma lâmpada?
Duzentos: 136 deles para esmagar a lâmpada e 64 para analisar os pequeníssimos pedaços e chegar a alguma conclusão.Quantos físicos teóricos são necessários pra se trocar uma lâmpada?
Não importa quantos, eles vão ficar horas tentando provar matematicamente que o seu jeito de trocar a lâmpada é melhor que o do outro, e enquanto isso, um experimental trocou a lâmpada e eles nem perceberam.
A graça contida nessas piadas estão justamente na forma diferenciada com que esses diferentes campos científicos exigem que seus cientistas trabalhem. Ora, um físico de partícula tem interesse bem pontual e específico e difere, em gênero, do interesse geral de um astrônomo, por exemplo. Lógico que interesses comuns e pesquisas científicas em comum podem surgir (e isso é perfeitamente natural). Entretanto, o que podemos notar, em geral, é uma certa diferença em postura, objetivos específicos e outros pequenos (e importantes) pontos.
Que os cientistas sabem (nem que seja de forma intuitiva) sobre tais diferenças não é novidade. Tanto que muitos se divertem com tais piadas, pois elas caricaturam certas atitudes tomadas por profissionais de áreas específicas.
Como sabemos, áreas específicas possuem, muitas vezes, métodos específicos que parametrizam de forma pontual suas pesquisas. Por isso, a atitude dos mesmos são tomadas por caricaturas: que estão satirizando as atitudes dos profissionais, mas no fundo, também, está trazendo a tona o quanto ficam embrenhados em seus métodos – o quanto cada método é importante para parametrizar a pesquisa.
Por isso da graça: se os métodos dos mesmos fossem aplicados para trocar uma lâmpada, essa é a reação esperada para uma caricatura, ou seja, uma cena fora do senso do plausível no cotidiano.
Mas esses métodos são tão diferentes, como na piada acima, é por que as imagens de ciência e de natureza têm certa diferenças: um físico de partículas não vê a natureza e a ciência da mesma forma que um relativista, e por esse motivo empregam métodos diferentes que estão de acordo com estas imagens.
Uma das conclusões que ao longo desses artigos pude alcançar é: a(s) ciência(s) se preocupa(m) com o mundo e a forma com que ele se apresenta (fenômeno). Entretanto, a forma com que cada ciência concebe o mundo está baseada numa imagem de natureza, em um conjunto de especificações ôntico epistêmicas.
Por esse motivo, cada cientista na piada age de forma diferente: eles possuem imagens de natureza diferentes (seja sutil ou em alguns casos grandemente) que resultam em imagens de ciências diferentes com métodos específicos. Por isso a atitude de cada um é tão pontual numa caricatura.
O desfecho de uma pesquisa parece não ser diferente da piada; cada um em seu campo e ambiente de trabalho possui uma forma distinta de trabalho.
Mas os resultados, às vezes, parecem convergir (nem sempre, como é o caso de teorias como a física quântica e a relativista que tem propostas diferentes em certos aspectos da realidade). Nessa tarefa de convergência outra espécie de cientistas podem agir: os teóricos. É interessante ver que cada ciência tem sua preocupação com o mundo, com o fenômeno, de acordo com suas concepções ôntico epistemológicas; mas parece que há uma preocupação geral delas com o mundo.
Se alguns cientistas são realistas (portanto acham que pesquisam a verdade do mundo) ou outros não-realistas (e creem que estão “salvando os fenômenos” e por sua vez gerando apenas previsões de outros fenômenos) isso deve-se aos pressupostos ônticos epistemológicos que cada ciência e cada cientista possuem.
Seja fazendo pesquisa em busca de uma verdade no mundo, ou apenas prevendo fenômenos, são todas elas pesquisas a respeito do mundo. E são sim, legítimas (ser antirrealista não tira a legitimidade da pesquisa).
O que legitimaria tais pesquisas? O próprio conjunto ôntico epistemológico de cada ciência (e cientistas), que fazem pesquisas legitimadas por tais concepções.
Argumento isso, pois já tive contato com argumentos contra tais visões de pesquisa, embasadas no pressuposto de falta de legitimidade, pois não estariam sempre de acordo com uma “verdade” única, imutável e redonda. Lógico que tal argumento é falacioso – afinal é possível legitimar a pesquisa em suas nuances epistemológicas.
Agora, será que toda pesquisa é legitimada de forma ética? Creio que não. Mas esse é um tema para outro possível artigo (fique claro, não estou garantindo legitimidade ética nos parágrafos acima. Estou garantindo legitimidade epistêmica).
É possível que a ciência se preocupe com sua multiplicidade? Sim é possível, mas não parece ser um tema central aos seus objetivos de pesquisa (claro que a tentativa de unificação de teorias é importante, mas o fio condutor de cada ciência não está nessa questão – ela seria marginal, embora importante). Unificar teorias pode ser plausível no escopo científico, mas refletir sobre o estado das ciências e se há unidade (e se ainda merece unificação) é algo diferente: é meta científico, é filosófico.
(Notem que unificar teorias é diferente de unificar ciência – teorias são produtos científicos, portanto classes distintas).
Enfim, a ciência se preocupa com o mundo. Do modo que está apresentado e do modo como o podemos perceber. Mesmo que em multiplicidade.
Arnaldo Vasconcellos
