Pseudociências – Série de Ensaios (Parte #2)

As Protociências
Nesse ensaio veremos brevemente o que são protociências, suas distinções entre pseudociências e a possibilidade entre as dinâmicas protociência-ciência, protociência-pseudociência.

Vamos considerar, neste ensaio, que protociência é uma definição diferente de pseudociência.

Tomaremos como base que protociências são teorias, hipóteses ou argumentos aspirantes a ciência (e todo seu cabedal de método)  e  que estariam em fase de estruturação científica, tal como a mesma é concebida em relação aos métodos de falsificacionismo e corroboração.

Assim a pseudociência, cuja definição pesquisamos em artigos passados, não é sinônimo de uma protociência.

Alguns leitores poderiam considerar a protociência como uma área atuação que teria dado origem histórica a alguma ciência – isso pode não ser falso, visto que historicamente alguns pensamentos deram origens a ciências, como é o caso da alquimia. Entretanto, não é a própria alquimia que se tornou a química. Sua estrutura sofreu mudanças e hoje temos algo bem diferente, embora tenha-se uma ligação histórica.

Como esses conceitos não são estanques, a definição encontrada nesse artigo não é definitiva. E não quero encerrar uma definição cabal (tenho que pensar mais sobre o assunto – assim este ensaio é só um ensaio, não encontra-se aqui uma solução ao problema).

Portanto, o que me resta é não adotar, neste ensaio, o termo “protociência” para estes tipos de movimentos históricos. Até porque adotar esta posição permite que mesclemos num mesmo tempo e espaço casos em que uma protociência foi uma pseudociência.

Entretanto, a natureza semântica que me refiro a “protociência” é algo relacionado a um argumento (entenda-se teoria) que ainda não possui crivo do método científico, mas o almeja e caminha para tal. Nesse sentido, uma pseudociência que teria derivado uma ciência, pode não ser bem uma protociência, mas sim sua reformulação a seria. Não impede também o outro lado: que uma pseudociência teria resultado uma ciência, no âmbito em que aceitaria o crivo do método científico (assim podendo ser enquadrada como protocientífica).

Até agora teríamos analisado o movimento protociência-ciência. Entretanto é plausível o movimento protociência-pseudociência.

Na segunda semântica apresentada teríamos uma teoria aspirante à teoria científica, mas que ao ser refutada, diversas vezes, seus seguidores ingressariam argumentos ad hoc. Ou seja, salvando a teoria mesmo contra as observações dadas. Isso ocorreria a tal ponto a complicar exaustivamente a teoria apresentada originalmente. Como falamos de uma teoria que ainda não estaria ingressada como científica, ela não estaria propriamente corrigindo hipóteses auxiliares, mas sim ela mesma por completo. Nesse caso, uma protociência seria uma boa candidata a se tornar uma pseudociência.

E este é um caminho muito fácil, porém suponho ser um tanto duvidoso.

UPDATE (03.03.2010)

Relendo este artigo algo pareceu soar-me estranhamente. Eu disse o seguinte:

Alguns leitores poderiam considerar a protociência como uma área atuação que teria dado origem histórica a alguma ciência – isso pode não ser falso, visto que historicamente alguns pensamentos deram origens a ciências, como é o caso da alquimia. Entretanto, não é a própria alquimia que se tornou a química. Sua estrutura sofreu mudanças e hoje temos algo bem diferente, embora tenha-se uma ligação histórica.

Como pode alguém (e neste caso eu) ter falado alguma coisa do tipo? É como se dissesse que a química atual não tivesse nascido dos esforços dos primeiros alquimistas. Analisando o que eu mesmo disse é possível notar que eu não assumo conceitos estanques. É necessário refletir sobre isso. Portanto, num nível histórico, a química atual descende dos primeiros esforços alquímicos, que mudando suas perspectivas e imagens de natureza/ciência resultaram na química atual. Quando eu afirmo que a química tem como protocência, a nível histórico, a alquimia é reconhecendo estes esforços que culminaram em desenvolver e adotar o método científico nessa ciência. Mas o que gostaria de enfatizar que uma protociência histórica tem diferença em uma protociência atuante.

“Como assim?” muitos poderiam perguntar-me. Uma das definições de protociência é “o que antecede uma ciência, anterior a ela” e essa definição é de cunho histórico. Entretanto não é esta definição que estou usando neste artigo.  E por isso prefiro chamar essa definição não apenas de protociência, mas sim de “protociência histórica”.

Utilizo na análise, desse artigo, uma definição mais voltada a aceitabilidade do método científico dentro de um argumento atuante. Nessa definição, que seria “conhecimento que aspira o grau de ciência e está disposta a utilizar o método científico” não é sinônimo de protociência histórica. É compreensível a diferença? A protociência histórica, teria dado, por algum motivo, origem a uma ciência, mas não estaria em sua base a necessidade ou a conveniência de aceitar o método científico.

Já uma protociência, na segunda definição (e a que adotamos neste artigo), representa uma pretensão e objetivo de ser ciência, não apenas pela garantia social científica, mas sobretudo pela aceitabilidade do uso do método científico e todo seu arcabouço.

Assim, a alquimia seria uma protociência histórica, mas não teria sido uma protociência atuante. Dessa mesma maneira uma protociência histórica pode ser ao mesmo tempo uma pseudociência, mas por definição autoexcludente, uma protociência (a metodológica) não pode ser uma pseudociência. Pois uma assume o cabedal metodológico, enquanto outra apenas está em busca da garantia social científica (abordado em outro artigo). Mesmo assim, é possível o movimento de passagem de uma protociência em pseudociência, caso o método revele que seu conteúdo é falso, mas seus integrantes não aceitem e partam para via da utilização da garantia social científica.

Existe também a alternativa de uma protociência morrer, caso rechaçada pelo método científico, seus desenvolvedores não se arrisquem a se manterem no terreno do pseudocientífico.

Nessa forma de encarar a protociência (metodológica) podemos notar que, então, a alquimia teria dado origem a uma outra etapa, talvez muito rápida e transicional, de argumentações e pretensões (com imagens de ciência/natureza diferentes) que se analisadas frente a frente com a alquimia não seria estruturalmente a mesma coisa, seria a química momentos antes de estar consolidada como ciência, entretanto ainda em desenvolvimento inicial. Essa sim seria a protociência metodológica, que teria sido derivada de uma protociência histórica (alquimia), mas que teria estrutura diferente dela. A partir do ponto em que o método científico já está empregado e corroborando com a existência do maquinário teórico da química, essa seria passada a ser ciência. Esse movimento poderia ser similar em outras ciências.

Entretanto, poderíamos argumentar que a aceitabilidade da mudança de imagens de natureza/ciência já em si uma mudança e trata de uma aceitabilidade do método. Penso que esse processo já transmuta o primeiro estágio apresentado (protociência histórica) em outra coisa que não é ela mesma estruturalmente (protociência metodológica).

 

ATUALIZAÇÃO 2026:

Esse ensaio é, sem dúvida, um dos que mais tive dificuldade em concordar com minha própria proposta em muitos pontos. Inicialmente até me questionei sobre a separação entre as duas categorias propostas. A atualização que fiz ainda em 2010 trouxe, aparentemente, uma noção mais clara sobre isso, mas mesmo assim ainda nebulosa.

Pensei comigo mesmo sobre a proposta. E pude resumir da seguinte forma:

Existe uma protociência histórica, ou seja que antecede à ciência já funcional com método. Vale lembrar que nessa época eu ainda não escrevia com tanta defesa ainda os programas de pesquisa de Lakatos. Já conhecia e concordava, mas ainda estruturava o pensamento científico na proposta de ter um método. Essa abordagem deixei de lado parcialmente, não por discordar totalmente, mas por ver que o conceito do método está mais absorvido no conceito do programa.

Para a minha concepção de 2009/2010, quando essa etapa histórica começava a se apropriar de formulações metodológicas, passava a entrar no terreno da protociência de fato. E, a partir daí, se tornar uma ciência madura.

Hoje, me parece que essa linha possa ocorrer em algumas práticas que desenvolveram práticas científicas, como ocorre com a alquimia, mas em geral parece que a linha que separa essa protociência histórica da protociência de fato é muito tênue e, quem sabe, inexistente.

Um possível equívoco seria o fato que eu deveria ter dado conta da mudança também de imagem de ciência que pode mudar e com isso deslocar essa linha do que se considera como algo protocientífico. Não digo isso para aceitar qualquer prática como científica ou protocientífica, mas porque há conhecimentos presentes também em outros povos que geraram conhecimentos sólidos e que contribuem para a nossa concepção de ciência (e não apenas as ciências empíricas).

Se, portanto, essa linha fica tão tênua, então podemos dizer que não importa tanto se uma protociência deu luz a uma ciência atual e que essa protociência hoje, se utilizada hoje, seria talvez uma pseudociência. Isso porque há o risco do conceito não caber bem no contexto histórico. Então, eu assumiria que coisas que hoje são pseudocientíficas em suas aplicações poderiam ter sido palco de protociência (no vocabulário que eu usava naquela altura) e que gestaria, mais tarde, com prazeres ou dores, uma nova ciência. Mas isso não seria porta aberta para achar que todas práticas que se enquadram nesses conceitos seriam necessariamente fonte de ciências: a passagem para fundamentar-se como conhecemos hoje o conceito de ciência empírica requer um preço com base em muitas falhas, rastreio dessas falhas, reconstruções, observações, testes e discussões.

Arnaldo Vasconcellos.

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