O que podemos conhecer?

(ATUALIZAÇÃO 2026: Este artigo foi um ensaio introdutório, publicado originalmente em 2009 e pode não corresponder em sua totalidade na posição filosófica do autor na atualidade)


Outro dia estava eu conversando com um amigo meu. Nessa conversa abordei o trabalho do cientista apoiado num método, (que não significa necessariamente restringir o conteúdo criativo do mesmo).

Pude notar, de certa forma que a palavra “método” desperta em algumas pessoas uma posição um tanto desconfortável, pois parece que a ciência possui uma rigidez que não flexibiliza a criação. Não que este meu amigo tenha apontado isso conscientemente, mas passou em minha cabeça, pela forma com que ele falava.

A atividade de um cientista é envolta em investigação, mas não é de sua exclusividade, portanto existem outras áreas que são investigativas mas não são exatamente como a atual ciência se estrutura. A filosofia é um exemplo de investigação, mas podemos notar que cada área da filosofia, e até mesmo cada filósofo, pode divergir de forma a investigar (embora exista a investigação).

O que então distingue o trabalho do cientista? O método empregado na ciência. Embora esse método possa ser multifacetado, variando conforme cada ciência, ele possui pontos tangíveis que se relacionam com as imagens de natureza e de ciências estabelecidas (como já afirmei em outros artigos).

O método então permite um foco de pesquisa. Esse foco impede que a prática destoe. Isso permite uma pesquisa em um ponto específico, mas não impede a criatividade. Se enxergarmos as teorias como criações (existem visões diferentes do que são teorias, mas podemos adotar este ponto de vista) é perfeitamente plausível notarmos, mesmo com um método seguido na ciência, uma infinidade de possibilidades de teorias sobre um mesmo ponto ou aspecto.

Assim, se formos falseacionistas, talvez somos levados a pensar que essas teorias serão testadas por observações diretas ou indiretas em outras teorias. Uma teoria que passa em tais testes é CORROBORADA e, por isso, não é tomada como VERDADE. Assim assume-se que sua verossimilhança com o que pode ser real é muito próximo, mas não garante que seja verdade absoluta, pois pode ser falseada a qualquer momento. A garantia lógica de uma corroboração não é a mesma coisa de dizer que ela, a teoria, é assim na realidade (sempre poderá ser falseada ou ter hipóteses auxiliares falseadas, modificando a teoria).

Parece que dessa forma, portanto, é difícil sabermos como é realmente e fielmente a realidade, mas parece que a cada momento de método aplicado nos aproximamos, mesmo que em algum grau de erro, dela. Mas sem tocá-la com toda sua extensão.

A negação de uma teoria, seu falseamento, também nos fala de como a realidade é – na verdade de como não o é – e isso é importante.

Sabermos como as coisas são, com escalas de erro e aproximações, é uma tarefa muito difícil e hercúlea, do qual a ciência se aplica. E o método é unicamente um instrumento para esse fim.

Olhando por este ponto de vista, o método não é um restritor de criatividade, mas sim um prumo para que nossa criatividade seja em pensar em consonância do que as coisas são e não divagar apenas.

Alguns leitores me perguntarão: e por que o título do artigo? Ora, creio que aquilo do qual podemos conhecer é muito ligado em como podemos conhecer: e nesse ponto, o método é figura essencial, mesmo que seja para conhecermos a passos do que são as coisas em graus de acerto e erro.

Método tem sua origem no idioma grego e seu significado está estritamente ligado com o verbete “caminho”. Portanto, assumo que usar um método, no caso da ciência, (o método científico) é ter um instrumental investigativo para aquilo que estiver na possibilidade de conhecermos – daquilo do que podemos conhecer.

Arnaldo Vasconcellos